Capítulo 252: A Verdadeira Face do Limiar
Yu Sheng passou um bom tempo revirando os pensamentos, tentando imaginar como seriam os costumes e a cultura da “Montanha das Mil Cimeiras” e do planeta “Eixo Espiritual do Grande Vazio” liderado por eles. Também tentava conceber como uma facção controlada por “cultivadores imortais” agia no universo além do Limiar e como lidava com outras forças. Ele não estava imaginando isso por nenhum motivo especial, era puro vício de profissão; não conseguia afastar a sensação de que aquilo rendia pelo menos um milhão de palavras para escrever…
Baili Qing, no entanto, não fazia ideia do que se passava pela cabeça daquela entidade humanoide à sua frente. Ela apenas lançou um olhar curioso para Yu Sheng: “Tenho a impressão de que você está bem interessado nessa ‘Montanha das Mil Cimeiras’.”
“Eh, é que essa é a primeira vez que lido com uma facção de ‘fora’, sem falar que alguém de lá me deu uma pista importantíssima”, disfarçou Yu Sheng rapidamente. “Bateu uma curiosidade, só isso.”
Baili Qing parecia hesitar, como se quisesse falar algo. Mas, bem quando se preparava para abrir a boca novamente, o toque do celular a interrompeu. Ao atender a chamada, ela trocou algumas breves palavras com a pessoa do outro lado da linha e então ergueu a cabeça.
“Ainda bem que você veio hoje. Tem interesse em ir dar uma olhada em outro laboratório comigo? Há algumas coisas por lá que com certeza vão te interessar.”
Yu Sheng piscou: “O que seria?”
“A equipe de recuperação que voltou de fora da cidade concluiu as análises. O que eles trouxeram já foi transferido para o laboratório do setor de contenção”, explicou Baili Qing, num tom neutro. “Os destroços deixados pela queda de Ankaela… já estão liberados para visualização.”
A expressão de Yu Sheng mudou sutilmente por um instante, e então ele assentiu, calmo e sério.
“Então venha comigo”, chamou Baili Qing, já se virando e caminhando na direção oposta do corredor.
Mas não tinha dado nem meia dúzia de passos quando parou em frente a uma máquina de vendas. Comprou um pão e o entregou a ele: “Desculpe, vai ter que quebrar o galho com isso. Provavelmente não teremos tempo de ir ao refeitório comer com calma.”
Yu Sheng ficou surpreso. Não esperava que ela tivesse se importado com isso. Pegou o pão com um sorriso: “Haha, sem problemas. Eu disse que vinha filar a boia no refeitório de vocês mais para encher a barriga da Hu Li. Pelo que vi agorinha, ela estava comendo super feliz lá.”
Debruçada no ombro de Yu Sheng, Aileen resmungou: “Pudera. Ela fica feliz comendo qualquer coisa. Tendo comida, ela tá feliz…”
Guiado por Baili Qing, Yu Sheng serpenteou por vários “pontos de baldeação” dentro daquele prédio-sede da Agência de Operações Especiais, que mais parecia um labirinto espaço-temporal. Depois, atravessou um corredor que passava a constante sensação de estar torto, até finalmente chegar ao tal “setor de contenção”.
Ou, para ser mais preciso, a um das centenas — ou milhares — de setores de contenção interligados àquele edifício.
O prédio-sede da Agência de Operações Especiais era como uma árvore colossal crescendo no entroncamento do tráfego cósmico. O que a maioria das pessoas — inclusive muitos dos funcionários da Agência — costumava ver e conhecer era apenas o tronco daquela árvore. Seus galhos e raízes, por outro lado, se espalhavam por toda a complexa e caótica estrutura espaço-temporal do Limiar. Quase toda ramificação minúscula terminava em uma área funcional diferente: instalações da equipe de mergulho profundo, armazéns, Domínios Anômalos neutralizados, esconderijos de espécies alienígenas, setores de contenção, portos alfandegários, embaixadas estabelecidas por extraterrestres, estações abandonadas, andares de alto risco…
Tinha de tudo que se pudesse — ou não — imaginar. Yu Sheng chegou a duvidar que, mesmo estando no controle daquela árvore gigante por um século inteiro, a própria Baili Qing soubesse dizer com precisão o caminho de cada galho e a história por trás deles.
Portanto, ao passar pela última porta e se deparar com uma estrutura cúbica gigantesca flutuando na escuridão do vazio, Yu Sheng não se surpreendeu nem um pouco. Ele já estava completamente anestesiado ao tipo de paisagem que poderia brotar do lado de “dentro” daquele prédio.
“Este é considerado o setor de contenção com o maior nível de segurança entre os que estão conectados diretamente à sede. A maior parte de sua estrutura fica até mesmo além da Fronteira do Limiar, no ‘outro lado’, invisível a olho nu. Sua ‘carcaça’ foi capturada por uma estrela e se mantém num estado de equilíbrio”, explicou Baili Qing, apontando para o corredor de onde vieram. “Este corredor é controlado diretamente pela minha mente. Se qualquer coisa dentro desse ‘recipiente’ cúbico romper a contenção, o corredor se desconecta. Toda a instalação despencará para fora do Limiar instantaneamente, afundando no mar de fogo estelar do outro lado.”
Yu Sheng ouviu aquilo maravilhado, mas meio confuso: “Esse tipo de coisa não deveria ser confidencial? Você está simplesmente me contando assim?”
“Você é um amigo da Agência de Operações Especiais”, declarou Baili Qing suavemente. “Depois que você eliminou a ameaça que o Anjo Sombrio representava ao Limiar, quase não sobrou nenhum segredo que a Agência precise esconder de você, especialmente informações relacionadas ao próprio Anjo Sombrio e aos nossos mecanismos de contenção. Você pode até não sentir o peso disso agora, mas em nossas colaborações futuras, esse compartilhamento de informações será essencial para nós dois.”
Yu Sheng ouviu pensativo e, em seguida, ergueu os olhos para o enorme cubo flutuando no espaço escuro do outro lado da ponte de conexão suspensa. Depois de muito hesitar, finalmente decidiu fazer uma pergunta que o intrigava há muito tempo:
“Se você vai colocar nesses termos, a verdade é que tem uma coisa que me deixa curioso faz um tempão… Qual é a real desse nível tecnológico de vocês?”
Baili Qing diminuiu o ritmo e virou o rosto para encará-lo: “Está dizendo que muitas das coisas que vê aqui não condizem com o nível tecnológico encontrado no dia a dia da Cidade-Limite, certo?”
“Isso aí”, respondeu Yu Sheng, abrindo as mãos. “Eu vi como a Cidade-Limite é. Embora seja uma ‘cidade grande e moderna’, as coisas lá são todas… como eu posso dizer? ‘Normais’. Os carros ainda dependem de rodas para rodar no chão e não tem inteligência artificial de ponta nem nada do tipo. Mas olha para este lugar: essa ponte de conexão, estruturas espaciais gigantes flutuantes, fora aquilo que eu vi nas celas dos cultistas do anjo… barreiras de energia, não era? Um monte de tecnologia alienígena absurda…”
Ele pausou e usou as mãos para gesticular um desnível grotesco.
“Uma discrepância dessas significa pular várias gerações tecnológicas. Tem que ter uma explicação, não tem? Ou vai me dizer que isso também é segredo de estado?”
“Achei que o fato de você nunca ter perguntado significasse que não ligava, ou que simplesmente não tinha notado.” Baili Qing o observou em silêncio por um instante antes de balançar a cabeça. “Na verdade, não é difícil de explicar. As diversas instalações que você vê aqui neste ‘prédio’ não são nenhuma ‘tecnologia absurda’. Elas representam, de fato, o verdadeiro nível de avanço tecnológico alcançado pelo Conselho e pela Agência de Operações Especiais. Já a ‘Cidade-Limite’ que você conhece… é o Limiar em seu ‘estado de referência’.”
“…Estado de referência?” Yu Sheng franziu a testa, estampando confusão no rosto. “Como assim?”
“Você pode entender isso como uma ‘âncora'”, prosseguiu Baili Qing calmamente. “A Cidade-Limite foi construída sobre os alicerces do ‘normal’, do ‘racional’ e da ‘ordem’. É uma sociedade que, livre de interferências externas, ‘desenvolveu-se até hoje num ritmo lento e controlável’. Com base nisso, ela foi projetada para ser uma gigantesca ‘âncora de estabilidade cognitiva’. Essa ‘âncora’ é o que prega o Limiar firmemente no nível L-0. Se não fosse por ela… em qual Profundidade você acha que essa cidade poderia chegar?”
Yu Sheng: “…Puta merda!”
Aileen, esparramada em seu ombro, não perdeu tempo em lhe dar um tapa na nuca: “Boca suja!”
“Você fala muito mais palavrão do que eu!” Yu Sheng ergueu a mão para afastar a mãozinha da boneca, virando-se de volta para Baili Qing com os olhos arregalados. “Pera lá, você tá me dizendo que a sociedade humana dentro da Cidade-Limite é a ‘âncora’ que garante que o Limiar como um todo permaneça na Profundidade L-0? O que quer dizer que aquela leva de ataques da Ankaela de antes…”
“Sim. Para nós, aquela sem dúvida foi a noite mais aterrorizante da história”, respondeu ela. “Nós possuímos forças armadas monumentais e inúmeras linhas de defesa além do Limiar para conter ameaças em potencial. Há muito tempo temos o cuidado meticuloso de manter o desenvolvimento da Cidade-Limite em um ritmo seguro, livre de interferências externas, a fim de impedir que nossa casa ‘colapse’. No entanto, o Anjo Sombrio perfurou os céus e penetrou diretamente no coração do Conselho, sem a menor lógica.
“Incontáveis pessoas se prepararam para o pior na hora. Cheguei a cogitar a ideia de ‘estilhaçar’ uma parte do Limiar para banir provisoriamente a Ankaela… Graças a Deus, no fim, não foi necessário.
“Em termos de escala de dano, a Descida de Ankaela poderia ter destruído ‘apenas’ uma de nossas cidades. Mas, em termos de impacto, a cidade devastada representava o ‘núcleo’ das forças do Limiar. Um núcleo ímpar e insubstituível.”
Baili Qing parou de caminhar e olhou bem fundo nos olhos de Yu Sheng.
“Então, acho que agora você consegue entender a magnitude do que fez naquele dia.”
Yu Sheng massageou as têmporas.
Ele achou que as informações sobre a “Montanha das Mil Cimeiras” fossem a bomba do dia. Pelo visto, cantou vitória cedo demais.
O Limiar não era para amadores… Quantos segredos a mais aquele lugar bizarro ainda escondia?!
“Posso aproveitar a deixa para tirar mais uma dúvida?” Após ficar engasgado com as palavras, Yu Sheng finalmente cedeu: “Afinal de contas… qual é o verdadeiro tamanho do Limiar?”
A julgar pelo poder que a Agência de Operações Especiais havia demonstrado até agora, somado ao que Li Lin e Xu Jiali mencionavam casualmente sobre “o lado de fora”, ele já desconfiava que a magnitude do “Limiar” enquanto facção estava muito distante daquela que ele imaginava.
“Se estiver falando estritamente do ‘conceito geográfico’, então o Limiar é exatamente o que você já conhece: a gigantesca ‘Cidade-Limite’, mais o vasto Ermo do lado de fora, somados à ‘Fronteira’ delimitada pelos marcos de limite. O Limiar termina aí. É só uma mera ‘bolha espacial de convergência’ espremida numa estrutura espaço-temporal peculiar.
“Mas, se estiver perguntando sobre o escopo de domínio do Conselho do Limiar como uma ‘facção’… Ah, aí a coisa já muda de figura.”
Enquanto ela explicava, um sorriso sutil e quase imperceptível surgiu em seu rosto.
“Imagine o Limiar como um ‘ovo’ flutuando no universo. Os ramos do Conselho se projetam para fora dele, garantindo um lugar no meio das estrelas. E você, de certa forma, já contemplou uma pequena fração dessas ramificações: os portais para o exterior, as zonas alfandegárias, os portos… Todos atuam como ‘vasos capilares’ encarregados de transportar os nutrientes pelo nosso sistema.
“Na real, é até fácil chegar a essa conclusão. Pense bem: dominamos o maior polo de tráfego natural do cosmos e abrigamos a plataforma de negociação mais farta para produtos de Domínio Anômalo. Um mar de raças funda seus postos de comunicação por aqui, firmando suas respectivas malhas comerciais à sombra da ordem ditada pelo Conselho. Sem mencionar que desfrutamos de um pacto diplomático de igualdade com organizações anciãs massivas, a exemplo da Academia da Terra e a Associação de Astrologia da raça Argleid…
“Tendo monopolizado tantos privilégios, como você acha que o Limiar consegue manter as coisas em paz? Não vai me dizer que você acreditava que todas as civilizações do universo são adeptas do pacifismo, não é?”
Yu Sheng refletiu por um momento. Seus lábios tremeram levemente: “Olhando por esse lado, faz todo o sentido…”

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