Capítulo 253: Fragmento de Cristal
Na verdade, Yu Sheng ainda tinha muitas dúvidas. E ele conseguia sentir que Baili Qing estava escondendo alguns segredos mais cruciais. Por exemplo, como exatamente aquela gigantesca “âncora”, a Cidade-Limite, conseguia manter todo o Limiar na Profundidade L-0? Qual era, na prática, o mecanismo de funcionamento e o processo de construção dessa âncora? Ou, de que maneira específica um desenvolvimento tecnológico rápido e avançado demais afetaria a estabilidade dela? Quais eram os princípios por trás disso? E mais: como era o estado do Limiar antes da consolidação dessa “âncora”…?
Afinal, essa cidade não tinha surgido do nada, deve ter passado por todo um processo até se estabelecer por completo. E, a julgar pelos detalhes que deixaram escapar da fala de Baili Qing, o Limiar provavelmente tinha enfrentado mesmo um período caótico, com uma Profundidade média muito além do L-0. Será que naquela época já existiam humanos nativos no Limiar? E esses nativos ainda descobriram um jeito de usar a “âncora” para puxar a terra natal deles das profundezas até o nível L-0?
Isso soava um absurdo, porque era senso comum que raças racionais só conseguiam sobreviver a longo prazo em lugares de Profundidade L-0. Se o Limiar realmente tivesse passado por um período de caos tão grande, excedendo o nível zero, seria impossível haver uma grande população humana sobrevivendo ali.
Ele hesitou por um momento, mas decidiu perguntar.
Mas, diante de seus questionamentos, Baili Qing apenas balançou a cabeça.
“Os registros históricos anteriores à fundação da Cidade-Limite são raríssimos. Até mesmo a história de um certo período após sua criação parece um tanto caótica. É como se tivéssemos reconstruído este lugar em cima de ruínas, mas o motivo de ter virado ruínas na época continua sendo um mistério. Talvez, como muitos estudiosos especulam, essa parte da história tenha ficado ‘presa’ no ponto exato da Segunda Erupção da Singularidade. Você deve se lembrar da história que te contei, sobre a destruição e o renascimento deste mundo.
“No momento em que o universo renasceu, todas as coisas do mundo foram trituradas e reorganizadas. Isso gerou muitas… ‘questões pendentes da história’. Questões pendentes no sentido literal da palavra.
“Por isso, de forma indireta, surgiu a ‘Associação de Arqueologia’. Um grupo de acadêmicos fascinados por pesquisas arqueológicas se uniu e acabou se desenvolvendo numa entidade de enorme influência. Eles escavam incessantemente naqueles pontos de colapso espaço-temporal mais bizarros e instáveis, tentando remendar a história perdida de diversas raças ou buscar provas de que certas civilizações existiram. A Raça Bamosa e a Raça Sen’jin são seus maiores financiadores. A Agência de Operações Especiais também mantém um contato estreito com eles, já que controlamos uma vasta quantidade de informações sobre Domínios Anômalos, além de administrarmos uma enorme plataforma de negociação de Curiosidades e de nossos armazéns de contenção.”
Baili Qing fez uma pausa. Ela olhou, meio alheia, para a escuridão infinita além da ponte de conexão, com um tom de voz que carregava um toque de melancolia: “A busca pelas próprias raízes é um instinto básico da ‘civilização’. A Associação de Arqueologia se dedica a encontrar fragmentos civilizatórios deixados pelo velho mundo, e há anos procura um antigo complexo de ruínas que chamam de ‘Lago Profundo Perdido’. Aqui no Limiar, também existem estudiosos tentando constantemente reconstruir a história de antes da fundação da Cidade-Limite, querendo montar o quebra-cabeça de como era este lugar que chamamos de ‘lar’… Não sou especialista na área, mas sempre guardei um profundo respeito por essas pessoas.”
Yu Sheng escutou em silêncio. No fundo, era difícil para ele sentir alguma empatia real pelo que Baili Qing dizia, afinal, não era uma “pessoa do Limiar”. Contudo, sabia que devia respeitar aquele sentimento. Ao mesmo tempo, não pôde deixar de pensar consigo mesmo…
‘Sinto que o “Criador” que armou essa tal “Segunda Erupção da Singularidade”… fez um serviço bem meia-boca.’
Claro, ele sabia que não era apropriado dizer isso. Afinal de contas, o universo inteiro só continuava existindo até hoje por causa dessa Segunda Erupção da Singularidade. Era só pensar na terra natal de Ankaela — tinha sido completamente apagada. Comparando com isso, o que mais dava pra exigir?
Com esses murmúrios mentais, Yu Sheng chegou em frente à colossal “construção” cúbica.
As paredes externas de concreto cinza claro, totalmente desprovidas de ornamentos, causavam uma sensação opressiva quase sufocante quando vistas tão de perto. A longa ponte de conexão levava diretamente a um dos cantos superiores do cubo. A comporta de entrada no fim da ponte era, na verdade, bem larga, o suficiente para dois ou três carros entrarem lado a lado. No entanto, diante de todo o cubo, ainda parecia um buraquinho feito para formigas.
Yu Sheng achava difícil imaginar como diabos tinham construído aquilo, e menos ainda como a estrutura se mantinha flutuando naquela imensidão escura. De qualquer forma, com certeza era mais uma daquelas “tecnologias absurdas” nas mãos da Agência de Operações Especiais.
Sob a liderança de Baili Qing, a comporta se abriu, e Yu Sheng, carregando Aileen no ombro, pisou para dentro da “instalação de contenção”.
À frente deles, havia um corredor amplo, com guaritas a intervalos regulares, metralhadoras sentinelas e detectores fixados no teto, além de equipamentos de vigilância visíveis por toda parte.
Surgiu um funcionário de apoio fortemente armado que, após trocar algumas breves palavras com Baili Qing, passou a guiá-los em silêncio.
Pelo caminho, Yu Sheng foi observando o lugar com curiosidade.
Ele notou que a sensação no interior de todo aquele setor de contenção era idêntica à de seu exterior: imensas estruturas de concreto, linhas frias e duras, e superfícies sem qualquer decoração. As cores do prédio em si se resumiam quase inteiramente a branco e a diversos tons de cinza, a tal ponto que as armaduras pretas dos guardas armados acabavam se tornando o “toque de cor” mais vibrante do ambiente.
Essa sensação gélida e descolorida trouxe um forte sentimento de déjà vu para Yu Sheng. Porém, antes que ele pudesse dizer alguma coisa, ouviu Aileen, em seu ombro, levantar a cabeça e soltar uma observação direta para Baili Qing: “Esse lugar é meio sem cor, né? Igualzinha a você.”
Baili Qing, no entanto, não se importou com a provocação indelicada da boneca. Com a expressão de sempre, explicou com naturalidade: “A ‘cor’ é um veículo para ocultação e ilusões. Certos itens de contenção se aproveitam das cores para canalizar seu poder, ou até mesmo usam as cores para fugir de nosso controle. Este Recipiente foi reforçado especificamente para lidar com esse tipo de ameaça. Quanto a você achar que o lugar passa a mesma sensação que eu… é só coincidência.”
“O fragmento do anjo tem alguma tendência de usar cores para escapar?” perguntou Yu Sheng, curioso.
“Isso não. Até o momento, não identificamos nenhuma tentativa de ‘fuga’ da parte dele”, negou Baili Qing, balançando a cabeça. “É apenas porque o nível de segurança aqui é alto o bastante e as instalações já contam com um laboratório totalmente equipado e pronto para uso imediato. Por isso o mandamos para cá.”
Enquanto conversavam, pararam diante de uma comporta de liga metálica cinza e branca. Após uma série de protocolos de identificação e transferência complexos e rigorosos, a porta finalmente se abriu devagar.
O interior era uma estrutura semelhante a uma câmara de descompressão, com uma segunda porta do lado oposto.
Mas, justo quando Yu Sheng estava prestes a entrar, o funcionário da escolta deu um passo à frente, bloqueando seu caminho. O homem virou-se para Baili Qing, e uma voz abafada soou de dentro do capacete de proteção pesado: “Diretora, o visitante precisa de proteção extra?”
“Não é necessário.” Baili Qing balançou a cabeça. “Foi ele quem derrubou esse fragmento.”
Com o capacete grosso no meio, Yu Sheng não conseguiu ver a expressão no rosto do funcionário, mas percebeu claramente o corpo do homem dar uma enrijecida. O sujeito ficou paralisado por uns dois ou três segundos antes de, finalmente, baixar a mão de forma bem pouco natural e recuar dois passos.
“Só pra deixar bem claro mais uma vez, não fui eu que derrubei. Foi ela quem desistiu de viver…”
Yu Sheng murmurou para Baili Qing, que já tinha voltado a andar: “Eu sei, mas é mais prático falar assim.”
Yu Sheng torceu a boca, mas foi atrás dela.
Somente após passarem pela segunda comporta é que o verdadeiro laboratório finalmente surgiu diante de seus olhos.
As luzes eram fortes, mas, assim como o resto do lugar, faltava cor. A sala espaçosa estava lotada de maquinários avançados cuja função ele não fazia ideia. No centro do recinto, havia uma plataforma circular de estrutura complexa. Exatamente acima dela, pendendo do teto, encontrava-se um braço mecânico que parecia integrar um arsenal de equipamentos de análise e monitoramento em sua extremidade.
Havia também alguns membros da equipe, todos vestindo trajes de proteção pesados, aguardando no laboratório.
O olhar de Yu Sheng passou pelos funcionários e focou imediatamente no… “espécime” repousando no centro da plataforma circular.
Era um cristal branco e semitranslúcido de formato irregular, com o tamanho aproximado de três punhos.
Estava ali deitado na plataforma, em total silêncio, parecendo completamente inofensivo.
De repente, Yu Sheng sentiu que a preocupação que havia expressado para Baili Qing no passado era justificável. Com aquela cara de pedrinha branca semitranslúcida e inofensiva, se estivesse jogada na beira da rua, ninguém jamais imaginaria que era um pedaço que se desprendeu do Anjo Sombrio. Se algum infeliz com uma vocação inata para o perigo passasse por ali e esquecesse de desligar o saque automático, era bem capaz de simplesmente enfiar o negócio no bolso…
Lógico que guardar um pedregulho daquele tamanho no bolso de qualquer jeito seria meio difícil. Ia precisar de um bolso bem generoso.
Movido pela curiosidade, Yu Sheng caminhou até a plataforma. Sob os olhares apreensivos e quase horrorizados de vários membros da equipe, encarou o cristal de perto por um bom tempo, antes de virar a cabeça para a boneca em seu ombro: “Consegue ver alguma coisa?”
“O que eu ia ver? É só uma pedra”, Aileen balançou a cabeça. “Até emite uma energia meio fraca… Mas a intensidade não chega nem perto daquelas duas galinhas que a Hu Li cria.”
Ao ouvir a boneca no ombro de Yu Sheng falar de repente, um dos pesquisadores deu uma olhada rápida na direção deles, meio pasmo pelo susto. Porém, logo desviou os olhos e assentiu para Baili Qing: “De fato, detectamos que este cristal libera flutuações de energia fracas de maneira ininterrupta. Nas últimas horas, a leitura tem se mantido bem estável, mas a intensidade dessa ‘radiação’ é muito baixa, praticamente inofensiva para humanos.”
Baili Qing fez um aceno afirmativo com a cabeça: “Que mais? Tiveram alguma outra descoberta até agora?”
“Tem também… isso aqui, que é a propriedade mais bizarra dele.” Enquanto falava, o pesquisador pegou uma bandeja de dentro de um recipiente na bancada ali perto e estendeu o que estava em cima dela para Baili Qing.
Era um outro fragmento de cristal. Parecia extremamente similar em textura e cor ao cristal maior no centro da plataforma, mas o brilho era um pouquinho mais opaco, e o tamanho era de um dedo mindinho.
“O que é isso?” perguntou Baili Qing.
“Um cristal secundário”, explicou o pesquisador. “Foi ‘transmutado’ a partir do cristal matriz. Este fragmento que a senhora vê na sua frente, meia hora atrás, era apenas uma pedra rica em dióxido de silício.”
O olhar de Baili Qing ficou sério.
“Quer dizer que… ele assimila a matéria ao seu redor?”

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