Índice de Capítulo

    Boa noite (São 20:40 no momento em que escrevo isso), sou o Dellos, autor dessa obra. Embora o Brasil tenha decepcionado mais uma vez, espero que gostem do capítulo que estão para ler. E se gostarem (ou detestarem, como eu detesto o Bruno Guimarães nesse momento) dêem suas opiniões nos comentários. E se tiverem Discord, me chamem no servidor da Illusia. Responderei com todo prazer.

    É isso. Bom domingo a todos.

    — Pelos feitos testemunhados, tenho a honra de recompensá-los com isso — anunciou Raggin, estendendo broches no formato de um quadrado roxo de pontas arredondadas com uma estrela prateada de quatro pontas no centro para Jonas e Eric. Eram pequenos, sendo menores que o mindinho de Jonas.

    Os dois o receberam, assentindo com a cabeça. Jonas pensou em agradecer, mas apenas encarou o pequeno objeto, confuso.

    — Certo, mas isso muda alguma coisa para a gente? — perguntou Eric, com a sobrancelha franzida, não parecendo se importar tanto com a honraria.

    Raggin baixou a cabeça, rabiscando com a pena algo nos papéis dispostos sobre a mesa. Como se a pergunta não lhe tivesse sido direcionada.

    — Serve para identificá-los como membros plenos de nossa guilda. Poderão realizar missões de dificuldade e recompensa compatíveis ao vosso nível atual — disse subitamente, enquanto escrevia.

    As palavras atingiram Jonas como uma brisa refrescante. Seus lábios se curvaram para cima. E um sopro de ar escapou de seu nariz. Mas então olhou para Eric, que não demonstrava qualquer emoção.

    Raggin tornou a falar, fazendo Jonas encará-lo novamente.

    — É notório também lembrá-los que exigimos uma certa conduta de nossos membros.

    — Conduta? — perguntou Eric, num tom intrigado.

    Raggin pôs o papel de lado e continuou a escrever no que estava embaixo.

    — Somos aventureiros, não mercenários do sul. Não pilhamos vilarejos, queimamos ou violamos. Protegemos o conhecido e exploramos o desconhecido, essa é nossa missão — declarou, como se recitasse um lema. — Por isso, espero que se portem de acordo.

    — Claro que vamos — jurou Jonas, sentindo um certo estímulo com aquelas palavras. Eric continuou em silêncio.

    Raggin parou a pena e olhou para eles.

    — Ademais, apenas continuem com o bom trabalho. Espero vê-los para mais entrevistas de promoção muito em breve — sorriu um sorriso educado, e então prestou atenção à cintura de Jonas. — Devo dizer também, é uma bela espada, a que tem aí — disse e então os despediu educadamente.

    Jonas seguiu, deixando a anestesiante calma que o silêncio do escritório do ouvidor lhe trazia, e retornando ao barulhento mundo, que rangia, fora dela. Ao menos por um tempo se viu livre disso. 

    O salão da taverna estava tão movimentado como poderia no meio do dia, com metade das mesas sendo ocupadas por aventureiros cuja ressaca da noite anterior os impedia de sair em outra missão, encarando copos meio vazios de cerveja amarga, rum e vinho-mel.

     Os dois o atravessaram, seguindo em direção ao quarto, que fora seu lar pelos últimos meses, onde os outros dois os esperavam, juntos de uma ninhada de mascotes involuntários.

    Leandro entretia-se com o fanzo e o filhote coelho unicórnio, acariciando a barriga do segundo, e jogando pedaços de pão para o primeiro.

    Graça sentava na cama, costurando a calça de um deles. Com o dinheiro adquirido com os ovos de Harpia, eles haviam comprado roupas, armas, frutas e, no caso de Eric, pergaminhos velhos e pedras ignis. Graça, no entanto, gastara um pouco de sua parte com agulha, linha, ervas medicinais, lençóis e cobertores. Resolvera comprar pessoalmente, saindo do quarto e do prédio da guilda, e caminhando livremente pelas ruas de Beuha pela primeira vez, com uma expressão e jeito que trouxe leveza ao peito de Jonas.

    — E aí? — perguntou Leandro assim que entraram.

    Jonas ergueu seu emblema para que o amigo visse, e o entregou em sua mão.

    — Foda. Muito foda. Que inveja — afirmou Leandro, sorrindo.

    — Não precisa de tanta inveja — interpôs Eric, se alongando — A gente só foi “efetivado” por assim dizer. O lado bom é que dá pra fazer mais dinheiro — deu de ombros, sentando na beirada de uma das camas.

    — Achei que você fosse ficar mais animado com isso — comentou Jonas após uma bufada.

    Eric olhou para ele e coçou o pescoço, porém não retrucou, tirando uma das gemas transparentes de mana em seu bolso, e começando a encará-la. Jonas suspirou e deixou por isso mesmo.

    — Querido, deixe-me ver — pediu Graça e Leandro entregou a insígnia para ela. — Parece bem simples, mas muito bem feita — afirmou, olhando-a como se a analisasse. 

    — Deveríamos festejar, que tal? — sugeriu Leandro, abrindo um sorriso em seu rosto.

    — Não sou contra — declarou Eric, com um dar de ombros. — Vamos pedir comida, ou sair para beber?

    — O que? Você querendo gastar dinheiro? — provocou Jonas, com um sorriso nos lábios.

    Eric revirou os olhos.

    — Agora temos bastante, e podemos conseguir mais — Olhou para a cintura de Jonas. — E diferente de alguém, eu não gastei quase toda a minha parte — acusou.

    Jonas de repente tornou-se ciente do peso em seu cinto, levando a mão até a espada de lâmina curva. O sorriso secando nos lábios. Eric deu um pequeno aceno de satisfação com as sobrancelhas e virou o rosto, levantando-se.

    — E então, vamos? — perguntou.

    Ao cair da noite, eles deixaram os animais no quarto, e desceram para a taverna. Embora o movimento houvesse aumentado, ainda parecia ter menos pessoas que o de costume. O que foi aliviante para Jonas, em não ter de suportar ouvir a algazarra de sempre. Graça desceu com eles para garantir que os três não beberiam demais, segundo ela. E Eric alertou que se não bebessem demais não seria uma comemoração. Os quatro se sentaram à mesa e logo os pedidos chegaram. Costelas de opaia ao molho tosca, cujo gosto parecia com o de carne porco porco cozida, porém mais picante. Queijos marrons e patê de gosto forte e amargo, chamado de merazona, rodelas de um legume laranja de gosto doce chamado de batata xóla.

    Jonas achava curioso como tantas coisas pareciam diferentes, e, ao mesmo tempo, outras eram semelhantes com o que havia em seu mundo. Animais, nomes, pratos. Embora preferisse que o gosto fosse mais parecido. Mas, desde que conseguisse comê-los, não importava tanto.

    E assim, as bebidas também chegaram.

    Cerveja escura, licor e vinho mel. Em seu mundo, eles não teriam idade para beber, não que não tivessem feito isso às escondidas, mas naquele, era só pedir e ninguém o negaria. A não ser por Graça que olhou para eles com certa repreensão, que o deixou, e a Leandro, com certo receio.

    Eric não se importou com tal coisa, e bebeu como sempre. Ele gostava do vinho mel, o qual era doce demais para Jonas, que preferia a cerveja, amarga demais para Eric. E Leandro tomava o licor, embora não reclamasse dos outros dois, bebendo-os vez ou outra. Graça bebericava um suco cítrico sem álcool. Parecia tentar manter-se firme ao que tinha dito, alertando que os três já haviam bebido além do que podiam.

    Jonas iniciou a noite grato por tamanha preocupação da velha senhora, mas os copos foram sendo virados, as garrafas esvaziadas, a gratidão se tornou em incômodo, e a preocupação em chatice.

    Não percebeu quando Graça voltou para o quarto, apenas que Leandro havia sumido junto dela, deixando-o e a Eric na taverna, mas não sozinhos.

    Pessoas vieram e se foram. E quando Jonas já não sabia distinguir os rostos dos demais, viu uma encantadora cor vermelha sentada ao seu lado, e um homem com voz de ganso perguntou-lhe algo. Não lembraria o que respondeu, nem o que era a pergunta, apenas que se levantou e saiu sentindo o sempre frio ar da noite. E depois se aqueceu junto a um outro calor, em outro lugar.

    Um clamor de vozes misturadas e disformes ecoava pelo salão enquanto dezenas bebiam, conversavam e cantavam ao seu redor. O que celebravam ou o motivo pelo que cantavam, ele não sabia, como também não se lembrava pelo seu motivo para beber, até alguém lhe perguntar.

    Ele estendeu o broche em resposta. A pessoa o olhou e riu.

    — Ah, então te tornastes um decano. Parabéns, parabéns. Não à toa, Leonard elogiou-te — O homem magro com chapéu de pena declarou, soprando o hálito quente no rosto de Jonas.

    — Leovard? Que Leovard? Meu nome é Jonas, porra! — declarou, insultado.

    Era Eric? Não. Eric havia sumido. A cor vermelha também. Desejava vê-la. Não aquele homem com aquele chapéu ridículo. Por quê usava um chapéu tão ridículo? Tentou pegá-lo e jogá-lo longe.

    — Calma rapaz, acho que você passou do ponto — Alguém o segurou. Detestava que o segurassem. Tentou se soltar, mas as pernas perderam a firmeza do chão.

    — Espera Dork’t, não o machuque. Vamos apenas levá-lo para um lugar mais sossegado.

    Sentiu o corpo se mover, e acompanhou o passo no qual era apoiado. Tentou lembrar o que estava fazendo, mas nada lhe vinha à mente. Desejou comer algo. Pizza do Breu, sim. Não. Não queria comer pizza, era apenas a desculpa.

    Desculpa, desculpa…

    — Tranquilo garoto, isso acontece — disse o com voz de ganso.

    — Deve desculpar-se mesmo — rosnou outro.

    A desculpa para sair com ela.

    — Tá com a chave? — Alguém perguntou.

    — Estava com você, não?

    Discussão. Outra discussão. Os pais dela também discutiam bastante. Terminou sentado no chão, ouvindo ecos no corredor. Gritos no corredor, sons de música abaixo. Um par de gemidos vindos do quarto.

    — Vá buscar com o Leovard, ele ainda deve estar por lá.

    — Não me mande ir, idiota. Você que perdeu a chave.

    Barulho, muito barulho. Desejava vê-la 

    A porta à sua frente se abriu, e dela surgiu uma mulher, enrolada em lençóis.

    — O que em nome de Abadir está ocorrendo nesse inferno de lugar? — gritou ela. A feição rubra e suada, combinando com o rubro cabelo que lhe caía como uma cascata pelo pescoço e delgados ombros desnudos. As pernas brancas reveladas onde os lençóis não cobriam.

    Uma garota, linda sim, mas não a que queria ver. Ainda assim…

    — Nossa, o que houve contigo Jonas? — Outro alguém saiu do quarto, tão vestido quanto ela. Tão suado quanto ela, e tão familiar como aquela Jonas que desejava ter visto.

    — Que Diahei me leve, Morda — riu o com voz de ganso, e a garota se cobriu mais.

    Sim, não era Julia, era Morda… Vermelha, tão vermelha… e o outro alguém era…

    Jonas grunhiu e se deitou, com a cabeça girando. A música, as vozes… não havia mais gemidos. Ele desejou novamente silêncio. Então foi erguido por alguém, e carregado mais uma vez. Cruzou as ruas de Beuha, com o braço em volta dos ombros do alguém que saiu daquele quarto junto de Morda. Sobre os ombros de Eric.

    Morda… Julia… com alguém.

    Desejava vê-la, apenas ela. Não ele.

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