Capítulo 13 – Ilusões de Grandeza
Michael terminava de vestir seu uniforme quando os primeiros raios de sol começaram a iluminar seu rosto através da janela e das pequenas brechas no telhado. O calendário sobre a mesinha marcava o quarto dia do mês de Moesia. Neste momento, Will retornou ao quarto com dois cantis de água fresca. O veterano pegou um, agradeceu o amigo e partiram para se encontrar com os alunos do segundo ano.
No caminho, Will comentou:
— É o quarto dia desta loucura.
— Acho que já passamos pelo pior — disse Michael, sem nenhuma certeza.
Eles esperavam os companheiros em frente aos portões. O vento gélido da madrugada era lentamente substituído por uma brisa leve; a primavera dava lugar ao verão de forma tímida. Os dois escutaram passos e se viraram. Uma das silhuetas era reconhecível para ambos graças aos cabelos prateados. Era Lady Magnava.
Ao lado dela, um jovem caminhava com uma expressão feliz, como se tivesse recebido uma grande oportunidade. Asrid cumprimentou a dupla de forma seca:
— Bom dia a ambos.
Michael e Will acenaram educadamente, cansados demais para conversa fiada. Já o rapaz que a acompanhava disse, de forma forçadamente cortês:
— Bom dia, senhores. Meu nome é Sir Iverin Whir, filho do Margrave Whir.
— Prazer — replicaram os dois quase em uníssono.
O grupo seguiu para o quartel de forma desconfortável, marcado por um estranho silêncio. O autoproclamado Sir Whir tentava a todo custo ganhar a atenção de Lady Magnava, oferecendo a mão para subidas desnecessárias, mesmo ela usando coturnos como todos ali presentes. Ao finalmente chegarem no prédio, foram recebidos pelo Capitão Spencer, que reconheceu a primeira dupla:
— Ah! Meus cadetes, achei que tinham morrido anteontem.
A piada de mau gosto deixou Will visivelmente enojado, enquanto Asrid e Iverin não entenderam o motivo do humor. A herdeira ducal colocou a mão no ombro de Michael e perguntou em tom baixo:
— O que vocês fizeram?
Michael virou o rosto para encará-la e respondeu de forma seca:
— Você realmente não deseja saber.
A resposta deixou Asrid irritada.
O capitão limpou a garganta e continuou:
— Bom. Como temos duas duplas aqui, vocês dois — ele apontou para Michael e Will — irão para o distrito de Nagóvit. A maioria da tropa vai para lá hoje. Já o casal de ontem pode me seguir, vamos resolver algumas pontas soltas em outros lugares.
A escolha da palavra “casal” fez Asrid arquear uma sobrancelha em claro desacordo. O veterano e o ruivo seguiram para onde a maioria dos soldados estava. De forma quase inconsciente, Michael fez uma varredura com os olhos, procurando o rosto do assassino da taverna, mas não encontrou nenhum sinal.
O líder da ação, posicionado à frente de todos, explicava de forma seca como iriam proceder:
— Para evitar problemas como os de anteontem, dessa vez vocês ficarão na praça central de Nagóvit. Apenas eu e alguns selecionados na hora faremos a busca.
Em seguida, partiram rumo ao destino. As ruas estavam desertas; ninguém ousava pisar fora de suas casas devido à presença dos courões. Chegando ao local, os homens se posicionaram nos arredores, enquanto o sol do início do verão começava a castigar os presentes. O comandante local avistou a dupla de aspirantes e ordenou:
— Ei, vocês dois. Me sigam.
Assim o fizeram. O homem se apresentou brevemente, com o olhar determinado em sua missão e um forte sotaque na voz:
— Meu nome é Capitão Vitsoi. — Continuou enquanto caminhavam: — Tenho uma lista de residências que Vossa Majestade ordenou investigar. — Ele rasgou a nota ao meio e entregou a parte inferior a Michael. — Façam esta parte.
O capitão virou as costas para partir, mas parou por um momento e complementou:
— Espero que sejam melhores que aqueles brutamontes.
Os dois se entreolharam, um pouco surpresos, antes de Michael responder em tom firme:
— Sim, senhor.
A primeira casa era uma morada simples de madeira, com no máximo dois quartos. Michael bateu na porta e anunciou em voz alta:
— É a Guarda de Artel!
Rapidamente a porta se abriu, revelando um homem assustado. Ao fundo, uma mãe protegia a filha. O rapaz entregou um pequeno saco de moedas, a maioria de bronze e duas de prata, suplicando:
— Por favor! É tudo o que eu tenho!
Michael desviou o olhar, acenou lentamente com um semblante melancólico e disse em voz baixa:
— Tudo bem, senhor.
E assim seguiram por mais sete moradas. A cada uma, o desejo de Michael era desaparecer. Seu pensamento era constante: “Até onde posso dizer que estou apenas seguindo ordens?”
Ambos estavam sistematicamente afetando famílias, de forma temporária ou definitiva.
O sol já chegava ao topo quando retornaram ao ponto inicial. Will disse ao amigo, em tom sério:
— Estamos caminhando para o sofrimento eterno.
Michael ficou quieto, pois sabia que era verdade. Neste momento, viram o líder Vitsoi chegar com os braços cheios. Ele falou:
— Bom trabalho. Coloquem o que conseguiram naquela carroça ali.
Will subiu para organizar o saque enquanto Michael entregava os itens. Ao finalizarem, o comandante viu a carga ainda meio vazia e disse, preocupado:
— Isso não é bom. Não estamos batendo a cota da região…
Os três voltaram ao pátio regional e depararam com o que parecia ser o início de um protesto. Uma centena de pessoas se aglomerava, cercando a tropa. Muitos gritavam em agonia e raiva contra os soldados:
— Ladrões!
— Bárbaros!
Os guardas ficaram ansiosos. Estavam em minoria, numa desvantagem de um para quatro, sob um calor escaldante que transformava suas armaduras em fornos.
Cada vez mais cidadãos se juntavam ao protesto, impedindo o trio de se reunir ao restante dos homens. Enquanto o líder abria caminho no meio da multidão, vários sapatos e pedras começaram a ser arremessados contra os soldados. Quando finalmente atravessaram o mar de pessoas, o líder Vitsoi foi atingido na nuca por um objeto. Ele se virou, ergueu a espada em um ato de raiva para impedir novas agressões.
Neste exato instante, Michael observou naquela pequena brecha, um rosto familiar desembainhar a lâmina e desferir um corte horizontal brutal no pescoço do civil mais próximo. A expressão do homem congelou-se em um terror eterno enquanto seu sangue pintava o ar. Era o homicida da taverna.
Vários outros soldados ergueram suas armas e avançaram contra a própria população. Gritos de pânico e dor rasgavam o ar enquanto a multidão tentava fugir. Em questão de segundos, as ruas de Nagóvit se transformaram em um campo de carnificina. Homens fardados golpeando comuns inofensivos. Will conseguiu ver uma mulher sendo apunhalada pelas costas, desabando com os olhos vazios de vida.
O responsável pelo início da tragédia aproveitou para fugir. Michael gritou para Will:
— Me segue!
E os dois começaram a correr atrás do assassino, abrindo caminho em meio ao caos. Cortando ruas e vielas, atravessaram a capital desviando de tudo, até alcançarem o homem quando seus fôlegos já ameaçavam falhar. Viram-se então diante de uma belíssima e imensa igreja no estilo do auge da Alta Idade Média francesa, com arco ogival e abóbadas em cruzaria.
Desde o início da tarde, nuvens pesadas haviam começado a cobrir os céus rapidamente, como se previsse o lamento daquele povo. O veterano, ainda ofegante, transformou o semblante em um misto de raiva e seriedade, e questionou com a voz firme:
— Por quê?
A pergunta gerou um meio sorriso sádico no sicário, que permaneceu em silêncio. Will explodiu em raiva e foi mais direto, gritando enquanto apontava o dedo indicador:
— Seu maníaco filho da puta! Eu vi o que você fez naquela taverna.
— Eles eram meras moscas plebeias em vosso caminho — respondeu o homem, em tom sério.
Foi quando a dupla ouviu o som de diversos cavalos trotando em urgência, cruzando a via em alta velocidade. Eram a Guarda Real de Artel. Na vanguarda, um imponente cavaleiro carregava o estandarte com orgulho. O assassino aproveitou a distração e voltou a fugir. Michael e Will foram impedidos de segui-lo pela dezenas de cavaleiros transitando pela rua.
Uma imensa poeira foi levantada com toda a movimentação, forçando o veterano a dizer ao amigo:
— Will, vai pela esquerda. Eu sigo em frente. Talvez o cerquemos.
O ruivo acenou em confirmação e partiu. Michael desceu praticamente três quadras antes de avistar novamente o malfeitor. Foi quando viu o homem parar bruscamente em frente a um beco, evitando uma colisão. A silhueta era conhecida. Imediatamente o assassino a reconheceu e tentou sacar a espada para desferir um ataque certeiro.
Michael gritou com toda a força de seus pulmões:
— Cuidado!!
Em instantes, a figura do matador se transformou. Seu corpo começou a exibir um tom azulado forte, enquanto pedaços de gelo cresciam desordenadamente. Assustado, o veterano percebeu que a pessoa em questão era Asrid, que não escondia a surpresa e o terror do que acabara de presenciar. Ela questionou ao notar a presença de Michael:
— O que foi isso?
Ainda arfante, Michael respondeu:
— Ele… Ele acabou de matar um civil a sangue frio.
— O quê? — falou Lady Magnava, chocada.
O veterano não tinha forças para continuar a explicação. Finas gotas de água começavam a cair em seu cabelo. De modo quase instintivo, ergueu a palma da mão para sentir a chuva. Asrid ainda esperava uma resposta enquanto a garoa persistia.
— Sua magia… — disse ele em tom grave.
— O que tem? — articulou ela, arqueando uma sobrancelha.
— Quanto tempo ela dura?
— A chuva vai fazer ela derreter em poucos minutos.
Um grito ecoou a poucos metros dali:
— Cadete Magnava! Onde você está?
Era a voz do Capitão Spencer. Asrid encarou o veterano e disse:
— Preciso ir. Não posso me dar ao luxo de ter punições na Academia.
— Eu lido com isto — proclamou o forasteiro, determinado.
Ela disparou. Quando finalmente dobrou a esquina, Michael virou-se para o homem congelado à sua frente. Suspirando, olhou de relance para os arredores e percebeu que, naquele chuvisco, ninguém ousava sair de casa. Então, chutou com força, em um movimento de rasteira na direção das canelas do assassino. Sentiu o frio e, em seguida, os estilhaços. A estátua gélida caiu rumo ao chão, sem se quebrar totalmente. Os pés do inimigo ficaram grudados em uma base de gelo, separados do resto do corpo.
Após o ato, Michael deu as costas e partiu para encontrar Will. Minutos depois, um pedestre qualquer escutou urros de dor angustiantes. O homem segurava desesperadamente o que restava de sua parte inferior, enquanto os dois membros jaziam longe do torso, sangrando amplamente até perecer.
A dupla se reencontrou em frente à catedral. Michael, com o rosto e cabelos ensopados graças a chuva, disse ao amigo, em um eufemismo sombrio:
— Eu… Eu selei o destino dele.
— Você matou ele? — questionou Will.
— Se não o matei, no mínimo ele jamais voltará a andar.
O ruivo ficou pensativo por alguns instantes, mas logo retornou ao semblante normal e disse simplesmente:
— Vamos.
Michael acenou e os dois retornaram a Nagóvit. Lá, observaram cavaleiros da Guarda Real protegendo o perímetro, mas mesmo assim era possível enxergar dezenas de corpos espalhados pelo chão. O veterano disse:
— Estávamos com o Capitão Vitsoi.
O sujeito apareceu, com um rosto derrotado, e falou para a dupla:
— Estão dispensados. Suas partes já foram aqui.

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