As prometidas duas semanas se passaram, e Michael e Will estavam na entrada do quartel da guarda local, conhecidos pela população como “courões” devido à armadura de couro que utilizavam até pouco tempo atrás. O sol terminava de nascer quando os dois chegaram ao local designado e esperaram por horas, até serem finalmente recebidos por um homem cerca de três anos mais velho.

    — Vocês são os enviados da academia? — perguntou o guarda.

    — Isso — respondeu Michael.

    O vigia fez um gesto para que o seguissem. Logo se viram em um grande pátio onde dezenas de homens estavam em posição, virados para um palco de madeira. Uma figura central preparava-se para discursar:

    — Guardas de Artel. Recebemos a importantíssima missão de garantir a saúde de nossa nação, através da captura daqueles que se negam a cumprir seus deveres perante o reino — proclamou o sujeito, um claro eufemismo para o que estavam prestes a fazer, disfarçado de patriotismo.

    A sentença foi seguida de um silêncio pesado, e o orador continuou:

    — Patrulharemos as ruas, caçaremos em suas casas e comércios.

    Instantes depois, todos se preparavam para sair em atividade. Michael e Will receberam ordens para apenas observar a ação. O veterano cochichou para o amigo:

    — Will, isso vai dar ruim.

    — Também pensei nisso.

    E então partiram para as ruas. A base ficava em uma larga avenida com acesso à via principal, onde se concentravam os principais edifícios governamentais e o palácio da corte. Estrategicamente posicionada para agir com rapidez em caso de motins. Dezenas de homens com armaduras de placa de aço, carregando clavas ou espadas, marchavam pelas ruas. Os comandantes gritavam nomes e ordenavam que “averiguassem” a situação daquela casa ou pedestre.

    Michael viu, a algumas quadras de distância, um senhor de idade avançada sendo jogado para fora de seu próprio estabelecimento. Soldados o cercavam aos berros:

    — Por que você não pagou sua porcentagem?

    — O rei demanda!

    E assim encerrou-se o primeiro dia da experiência. O veterano e o ruivo propositalmente enrolaram para voltar à academia, buscando o conforto de uma taverna próxima, onde pudessem discutir o que haviam testemunhado:

    — Meu Deus, o que foi aquilo — falou Michael, ainda com o olhar desacreditado.

    — Foi pior do que meu pai contou uma vez, e eu duvidando dele — disse Will.

    O forasteiro ficou em silêncio por um momento, até que Will continuou:

    — Aparentemente é normal as pessoas esconderem seus bens na capital. Os nobres não pagam quase nada de impostos materiais, eles dizem que já pagam com o sangue nas guerras do rei.

    Michael suspirou, cansado:

    — Estão pedindo para isso aqui explodir.

    — Ah, não se preocupe, já aconteceu na última guerra — respondeu Will. — Meu pai estava na capital a negócios na época. Diz ele que algumas ruas tinham mais corpos do que trigo em plantações.

    O veterano desejava reclamar em voz alta, mas se conteve. Afinal, não sabia até onde poderia expressar suas opiniões. Seu pensamento era claro: “A coroa deseja repetir isso?”

    Michael então encerrou a conversa de forma mais descontraída e sugeriu que voltassem ao internato. Em poucas horas, repetiriam tudo novamente.


    Era o segundo dia do sexto mês, o mês de Moesia, a Senhora da Fortuna, e a dupla se encontrava novamente no quartel da guarda civil. No pátio, havia dezenas de bens diversos: garrafas de vinho, sacos de grãos e moedas empilhados. Michael viu uma figura anotando a coleta, que, em qualquer outro contexto, seria chamada de saque. O homem tinha um rosto vagamente familiar.

    O veterano aproximou-se e reconheceu o sênior que os interrogara na fila aduaneira. O guarda parou o que estava fazendo e perguntou, com grosseria:

    — Tem alguma coisa na minha cara?

    A repentina grosseria surpreendeu Michael, que respondeu com cautela:

    — Não, senhor. Só vim saber qual o próximo passo. Somos os cadetes da Academia.

    — Ah, sim. Só um momento.

    Depois de encerrar o que estava fazendo, o homem virou-se para Michael e disse:

    — Venham, rapazes.

    Ele os guiou até a unidade que já saía pelos portões. No caminho, o experiente falou:

    — Uma pena vocês terem que experienciar isso, mas alguém tem que fazer no fim do dia.

    Michael ficou em silêncio, suspirando discretamente. Will completou, desconfortável:

    — É…

    O expediente inteiro foi gasto em atrocidades contra a população local. Desta vez, Michael trouxe seu registro pessoal e anotava tudo. Crianças chorando, pais implorando. Posteriormente, quando tentaram sair para retornar ao internato, o sênior disse:

    — Ei! Onde vão? Venham, não podem deixar o dia encerrar de forma melancólica.

    O homem “obrigou-os” a ir a um restaurante próximo, dizendo:

    — Eu conheço uma boa birosca, todos os guardas vão ali.

    Chegando ao local, os três se sentaram e o experiente falou, gesticulando para causar uma impressão de cortesia:

    — Perdão pela indelicadeza, cadetes. Meu nome é Dino Spencer. Um dos capitães da guarda.

    — Prazer, Michael Leone — respondeu o veterano educadamente, apertando a mão dele. Will se apresentou igualmente.

    — Vamos, vamos beber — falou Spencer, gargalhando.

    — Eu vou passar, Capitão Spencer. Estou sem nenhum tostão no bolso — respondeu Leone.

    — Não se preocupe, jovem rapaz. Não chamaria recrutas como vocês para beber se não esperasse pagar — disse Spencer.

    Então começaram a beber a cerveja local tranquilamente. A dupla nem deveria estar ali, e sim na Academia, mas não podiam recusar o convite de um superior. O tempo passou de maneira até agradável, considerando o que haviam vivenciado mais cedo. Até que outro guarda esbarrou com um homem que teve seus bens confiscados. O cidadão, um pouco embriagado, começou a exigir aos gritos:

    — Seus ladrões, devolvam minhas coisas!

    O sentinela, que não estava com suas plenas faculdades mentais, achou ruim o modo como foi tratado e respondeu agressivamente:

    — Cala a boca, plebeu imundo!

    O trio observava a cena a alguns passos de distância, até que viram o civil desferir um soco certeiro de direita no nariz do guarda. Em seguida, um colega atrás do agressor pegou uma garrafa de vidro do balcão e acertou sua nuca com tanta força que até sua própria mão sofreu com os estilhaços, cuspindo sangue. Uma briga generalizada se iniciou de repente entre os comuns e os guardas.

    Dezenas de copos cheios ou vazios eram arremessados de um lado para o outro. Michael e Will se levantaram tentando desviar da luta, mas foram recebidos com pontapés e murros. Spencer imediatamente começou a desferir golpes para salvar seus companheiros. O dono do estabelecimento tentou gritar para que parassem e se desesperou.

    Após alguns minutos, um copo acertou a parede perto de Michael, tingindo-a de vinho. Neste momento, outros membros da guarda civil entraram no local, cerca de doze, que seguraram colegas e civis para encerrar a peleja. O veterano olhou de relance o corpo no chão do primeiro atingido, o que havia começado tudo.

    Durante a confusão, o homem foi golpeado tantas vezes com o que restava da garrafa quebrada que sua face se tornou irreconhecível. Ele jazia morto na madeira do estabelecimento, em uma poça de carnificina. Michael reagiu com horror ao presenciar o desfecho. Logo depois, ambos foram tirados do bar.

    O caminho de volta aos alojamentos era silencioso. Will também havia presenciado o assassinato do rapaz. Os dois caminhavam em choque com a violência crua que assolava a capital — uma tensão diária entre classes que se materializara diante deles de forma grotesca. A única boa notícia era que, no dia seguinte, outra turma assumiria o turno.

    Ao chegarem exaustos ao quarto, finalmente começaram a discutir o que haviam testemunhado:

    — Que merda foi aquela — disse Will.

    — Eu não sei… Só sei que estávamos no lugar errado, na hora errada — respondeu Michael.

    — A capital sempre foi assim? — indagou o jovem ruivo.

    — Espero que não…


    No alvorecer, ambos seguiram para a sala do diretor a fim de relatar o que haviam visto nos últimos dois dias. Havit percebeu os semblantes estranhos de Michael e Will, mas ignorou e perguntou com clareza:

    — Senhor Leone, relate o que aconteceu.

    — Senhor Soult, o senhor deseja a verdade ou uma mentira conivente? — respondeu Michael, com o rosto sério e focado.

    Surpreso, o diretor pediu a versão verdadeira.

    — A Guarda Civil realizou praticamente um “saque” legalizado por Vossa Majestade. Homens armados desciam as ruas procurando “complacentes” com a sonegação de impostos e tomavam seus bens à força, desde dinheiro até comida — falou Michael, sem esperar réplica para continuar: — A situação criou uma tensão nas ruas que resultou em uma briga testemunhada por mim e por Will, que terminou com um civil morto, apunhalado várias vezes no rosto por um homem fardado.

    — Onde foi a tal briga? — indagou o senhor Soult.

    Michael explicou que o Capitão Dino Spencer os levara a uma taverna e que, após alguns momentos sentados, presenciaram uma discussão que transformou-se em conflito. O veterano detalhou os fatos com uma memória impressionante. O diretor, surpreso com todas as informações, disse apenas em tom sério:

    — Estão dispensados. Michael, deixe essa sua versão entre nós.

    — Sim, senhor — respondeu Michael.

    Após saírem da sala, Will perguntou, com a voz baixa:

    — Acha que vão nos punir?

    — Provavelmente sim — respondeu o estrangeiro.

    As aulas do dia tornaram-se um ruído distante para a mente tempestuosa do veterano, como um gotejar incessante de origem desconhecida. Michael começou a se questionar tudo o que fizera por seu novo lar, apenas para descobrir a face sangrenta de Artel. Uma nação que se esforçava para manter sua força oligárquica no poder a todo custo, mal disfarçando a tentativa.

    A tarde se arrastou lentamente. Quando chegou a última refeição do dia, a dupla foi chamada pelo professor Algren no meio do saguão para ver o diretor, tornando-se o centro das atenções. Alguns alunos cochichavam:

    — Eles estão ferrados…

    — O senhor Algren não tem dó.

    Ao retornarem ao local onde estiveram de manhã, encontraram Havit os esperando de pé, de braços cruzados. Ele falou calmamente, em tom quase triste:

    — Cadete Will e Cadete Michael. Ambos, por indisciplina ao não terem retornado imediatamente ao campus após a conclusão de suas atividades no exterior, são forçados a acompanhar o turno do segundo ano amanhã. — Após um suspiro, completou com sinceridade: — Me desculpem, garotos, mas não posso fazer vista grossa, mesmo no caso de vocês…

    — Entendido, senhor — responderam a dupla em uníssono.

    — Boa sorte amanhã — disse o diretor.

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