Com o passar dos dias, a realidade da situação de Akim tornou-se cada vez mais palpável. A dura rotina de trabalhar, comer e cuidar de sua mãe fez com que ele rapidamente retomasse o ritmo ao qual já estava acostumado. Enquanto isso, o idoso Francisco estava cada vez mais à beira da morte, levado pelo próprio cansaço de seu corpo fragilizado.

    Mas a paz nunca é eterna; é sempre levada pelas brisas do tempo. Em uma manhã, uma carruagem parou bem em frente ao casarão de madeira, com suas paredes pintadas de branco e telhado colonial. Diante da varanda interna, surgiu um homem. Ele usava um terno branco com gravata vermelha, tinha cabelos ondulados em tom castanho-claro e penetrantes olhos âmbar. Exibia um porte físico atlético e a postura de alguém treinado nos costumes nobres, enquanto apreciava a imensidão dos campos de trigo amarelados sob um céu azul, límpido e com poucas nuvens.

    Ao descer da carruagem, seu olhar de nojo para os escravizados que trabalhavam na fazenda mudou drasticamente para uma expressão de desdém. Ele caminhou até o veículo, onde estava seu cocheiro — um senhor na casa dos sessenta e cinco anos, vestido como mordomo, com a barba e as laterais do cabelo já brancas, perdendo o antigo tom castanho. Apesar do corpo ainda em ótimo estado para a idade, as linhas de expressão fortemente demarcadas em seu rosto claro denunciavam o peso dos anos.

    — Sebastian, pegue as minhas bagagens na carruagem antes que o cocheiro parta! — ordenou o recém-chegado.

    Com uma leve inclinação de cabeça, Sebastian o cumprimentou sem dizer nada.

    O homem caminhou de volta para a varanda e entrou no casarão, já retirando seu chapéu branco. Diante dele abria-se o salão principal. Havia poltronas em cada lado e um grande sofá espaçoso no meio, repousando sobre um tapete repleto de adornos e uma mesa de centro. À direita, uma escada levava ao segundo andar, com um corrimão e detalhes entalhados na própria madeira. Inúmeros quadros pendiam pelas paredes, mas um ganhava destaque: uma moldura de latão que guardava a pintura de uma família. Um homem e uma mulher de meia-idade ladeavam um menino sentado em uma cadeira de balanço de metal. O espaço à direita e à esquerda era preenchido por duas meninas muito semelhantes à mulher.

    O homem paralisou por alguns segundos diante da pintura. Sua face serena converteu-se em uma máscara de amargura e tristeza ao olhar para a mulher e as meninas. De repente, o barulho de risos o despertou. Seguindo pelo corredor principal, ele notou a fresta de uma porta aberta. Moveu-se com passos leves, sem fazer ruído algum, e observou sorrateiramente.

    A luz do sol invadia o quarto, iluminando parte da cama e uma pequena mesa de colo. Sobre ela, descansava um tabuleiro de damas com peças de madeira — uma face mantinha a cor natural, enquanto a outra era negra por completo, refletindo um tom de azul-escuro oceânico quando a luz batia. O senhor de idade avançada exibia um grande sorriso, mantendo a face serena e alegre. O jovem à sua frente, por outro lado, tinha uma expressão pensativa e coçava o cabelo afro como se uma pulga o importunasse.

    — Humm… agora sim! — O jovem moveu uma peça com confiança. Cruzou os braços e olhou para o velho, esperando sua reação.

    — Vamos ver… — O idoso olhou para o rapaz com um rosto tranquilo. Inclinou a cabeça e fez seu movimento, saltando sobre quatro peças de madeira do menino. — Eu venci!

    — O quê… mas como? — O jovem recuou, incrédulo diante do tabuleiro.

    — Akim, você se esqueceu das regras. Eu posso me movimentar para trás caso haja uma peça para capturar! Lembre-se bem da próxima vez e, quem sabe, você terá alguma chance.

    — Ah… entendi, paizão Chico! — Akim deu um leve sorriso, ainda tentando compreender onde havia errado.

    Uma batida soou na porta. Logo em seguida, ela foi aberta por completo.

    — Pai, como o senhor está? — O homem recém-chegado entrou no ambiente.

    — Ô, filho, fico feliz em vê-lo bem. Estou melhor sim, o jovem aqui estava me fazendo companhia. Já pode ir, Akim, e fico feliz que ainda tenha paciência com este velho.

    Akim se levantou, deu um abraço afetuoso no idoso e começou a caminhar em direção à saída. Foi então que viu a feição do homem branco à sua frente mudar da água para o vinho: o olhar antes dócil e gentil transformou-se em pura raiva e nojo.

    A noite caiu sobre a fazenda. O fogo queimava em uma lareira improvisada de pedra dentro de um grande galpão de madeira. Preso a uma pilastra, com as mãos amarradas no tronco, Akim suava bicas. Suas costas, antes sem qualquer marca, agora sofriam. Um estrondo ecoou por todo o espaço: era o som do chicote estalando contra a carne macia, acompanhado por gritos abafados.

    — Seu crioulo desgraçado!! — Tchá! — Huum… — Você não passa de um lixo que só serve para adubar o campo!! — Tchá! — Huum… — Negro imundo, passando essas mãos podres no meu pai! — Tchá! — Haaa…

    Já perdendo a consciência, com o sangue manchando a palha abaixo dele e a visão turva, Akim olhou para o homem branco que o torturara durante horas. Cansado e suado, ele finalmente viu claramente o rosto de seu agressor, marcado por um olhar de repulsa. Com um enorme amargor na garganta, Akim o viu sair do galpão. Poucos segundos depois, sentiu o toque de sua mãe, fazendo um leve carinho em seu rosto e começando a cuidar de suas feridas com os olhos cheios de lágrimas.

    No dia seguinte, o cheiro de sangue das feridas expostas ainda pairava no ar das tendas onde os escravizados ficavam. Akim, quase sem forças e com certa dificuldade, fez um esforço para acariciar o rosto da mãe.

    — Idiota… você é igualzinho ao seu pai! — ela murmurou, dando um leve sorriso amoroso.

    O tempo passou e a rotina voltou, mas ninguém mais teve contato com o casarão. O jovem rapaz de branco agia como um cão de guarda, impedindo qualquer aproximação ao velho Francisco.

    Com o final da primavera, o verão se anunciava. O resto do feno já havia sido guardado. Ao anoitecer, as luzes dos candelabros e velas espalhados pela sala de jantar iluminavam o ambiente. Em uma mesa de oito lugares, o idoso estava sentado na ponta, perto das escadas. Na outra ponta, encontrava-se o jovem rapaz, acompanhado por sua esposa e um menino que aparentava ter uns seis anos. A mulher possuía cabelos negros, pele clara com um leve bronzeado de sol, um corpo delicado e olhos verdes bastante chamativos. A criança ao seu lado herdara os mesmos olhos da mãe, o formato do rosto do pai, bochechas fartas e leves sardas, além dos cabelos claros e ondulados. Empregados brancos começaram a servir a mesa.

    — Onde está a Zuri? — o velho indagou, olhando para os lados, não a vendo em parte alguma.

    Um silêncio pesado tomou conta da mesa. Era claro para todos ali que o Senhor James odiava os escravizados negros. Os criados não ousavam levantar os olhos do chão. O mais velho deles ergueu a cabeça para responder, mas foi imediatamente interrompido.

    — Pai, eles estavam ocupados com a colheita! Este ano produzimos o dobro do ano passado — James declarou.

    — Mas a Zuri não trabalha na colheita… tsc, tsc… ela cuida do casarão. — Francisco encarou os olhos do filho à sua frente.

    — O senhor agora tem que se cuidar. Sua saúde ainda não voltou por completo! — James rebateu, concentrado em sua comida.

    — Você ainda não manda aqui! Eu ainda não morri.

    — Eu sei muito bem disso, o senhor sempre me lembra! — James deu um tapa forte na mesa, fazendo seu filho pequeno começar a chorar.

    — Ei, amor, não precisa chorar, o papai e o vovô só estão conversando — a mulher interveio prontamente. — Vamos, meu pequeno Cris! A mamãe vai pegar um biscoito para você! — Ela pegou a criança e começou a subir as escadas, seguida logo atrás por duas empregadas.

    — Filho… não foi isso que eu quis dizer — Francisco murmurou, olhando para o prato e sentindo a comida perder todo o gosto.

    — O senhor sempre fez questão de mostrar isso. Nunca aceita a opinião dos outros. Foi levado pelos seus desejos egoístas até com aquela criança que nem era para existir neste mundo! Como posso chamar aquilo de irmão?

    — Não fale assim, o Akim é um rapaz muito bom. Na verdade, ele se parece muito com você!

    — Comigo?! Ele não é nada igual a mim! A única ligação que temos é você. Por causa do seu puro egoísmo, eu perdi minhas irmãs e minha mãe. Tudo por sua culpa.

    — Filho… eu não sou mais aquele homem! Eu mudei, e espero que você também possa enxergar isso antes de eu partir! Fico feliz que tenha sua esposa e sua família agora. E não há um dia em que eu não me arrependa de ter perdido as suas irmãs…

    Depois de algum tempo, o silêncio retornou, preenchido apenas pela tosse seca do velho. O ressentimento enraizado de James se materializou mais tarde, no escritório do casarão. Sentado à mesa, James encontrou o documento de testamento. Ele estipulava que metade da fazenda ficaria para Akim e a outra metade para James, sendo que 10% das produções iriam para suas irmãs, Eliza e Bela, até que entrassem em comunhão com seus futuros maridos. Além disso, os escravizados receberiam suas cartas de alforria e, caso quisessem continuar trabalhando nos campos, seriam remunerados conforme o valor de mercado.

    O rosto sério de James foi tomado por um ódio profundo. Após refletir um pouco, porém, um sorriso horrível despontou em seus lábios, acompanhado de um olhar sanguinário.

    Algumas noites depois, Akim já havia se recuperado o suficiente para voltar ao trabalho nas plantações. O sol estava escaldante, tornando ainda mais difícil separar o joio do trigo. Ao sentir alguém se aproximar, logo viu que era sua mãe.

    — Mãe… o que tá fazendo aqui?

    — Vim ver se meu filho não fugiu do trabalho. Isso é coisa que se pergunte, moleque? Aqui, toma. — Ela lhe entregou uma caneca mergulhada em um balde d’água.

    — Obrigado, mãe. — Ele bebeu rápido. Suas novas cicatrizes ainda estavam bem visíveis e doloridas.

    — Filho, o que acha de irmos embora?

    — Mãe, para onde a gente iria? A cidade mais próxima fica a uns dois dias de viagem a pé. Sem carta de alforria, nós seríamos capturados e vendidos para donos diferentes…

    — Mas, filho, tenho medo de que façam algo pior com você!

    — Ei, mãe, relaxa. Vou dar o meu melhor para não me meter em encrenca.

    — Logo você dizendo isso, seu moleque? — Ela riu, bagunçou o cabelo dele e voltou a distribuir água para os outros trabalhadores.

    Com a vinda da noite, alguns empregados foram buscar Akim, levando-o até o escritório do casarão.

    — Akim… certo. Você sabe quem é o seu pai, não sabe? — James perguntou, arrumando uns documentos sem sequer olhar para o jovem.

    — Não, senhor. (O que esse cara tem? Já não bastou ter me chicoteado quase até a morte?), pensou Akim.

    — Seu pai é aquele velho moribundo! Ele provavelmente forçou a sua mãe, e aí temos esse pedaço de merda! — James o fitou, demonstrando uma estranha satisfação ao falar aquilo.

    — … (Eu sei que sou um pedaço de merda. Mas não fui eu que abandonei meu próprio pai para morrer sozinho como indigente. Se eu sou merda, você é o próprio mijo que não presta nem pra regar planta), Akim engoliu em seco.

    — Bom, assina isto, pega tuas coisas e vai embora daqui! — James jogou sobre a mesa um papel rabiscado, uma carta de alforria e uma pequena bolsa com moedas de bronze.

    — E a minha mãe… cadê a carta dela? — Akim o encarou nos olhos.

    — Hahaha! Ah, ela? Bom, você sabe, uma escrava tão bonita seria um desperdício deixar ir embora assim. Tenho certeza de que consigo recuperar todos os custos que você causou — os gastos que o coroa teve te ensinando a ler, escrever e te comprando roupas. Tenho certeza de que vou conseguir bastante dinheiro com ela.

    — Filha da puta! — Akim avançou e acertou um belo soco de direita no rosto de James.

    James não recuou muito. Encostou a cabeça perto do rosto de Akim e sussurrou: — Foi mais fácil do que eu achei que seria! O velho nunca te ensinou nada direito, né?

    Em um movimento brutal, James devolveu o soco, num gancho de baixo para cima, fazendo o queixo de Akim bater violentamente contra a mesa.

    — Ah, você não sabe o quanto eu me segurei!! — James ajustou as mangas do paletó. Seus punhos começaram a emitir leves brilhos dourados. Ele agarrou o corpo do garoto e o arrastou até a parede, desferindo um chute direto no rosto. O impacto foi tão forte que a estrutura afundou e quebrou por completo, arremessando Akim para o corredor no meio da poeira.

    Com o nariz quebrado, farpas e pedaços de madeira cravados em suas costas feridas e a visão suja de sangue pelo corte no supercílio, Akim se levantou com dor. Ele correu novamente na direção do irmão e desferiu um soco na barriga dele, mas o golpe pareceu não surtir qualquer efeito.

    — Belo soco, irmãozinho de merda! Deixa eu te mostrar como se faz! — James girou a cintura, acompanhando o movimento com o ombro, e cravou um soco monstruoso no abdômen de Akim. O garoto voou contra a parede do salão, derrubando os quadros da família e cuspindo sangue no tapete.

    O estrondo acordou a todos. Aqueles que já estavam deitados no segundo andar correram para o corrimão para assistir. Os escravizados logo se amontoaram na varanda interna. A esposa de James tampava os olhos do filho, enquanto alguns empregados ajudavam o velho Francisco a se apoiar e ver a situação toda. No andar de baixo, outros escravos seguravam a mãe de Akim, impedindo-a de se meter na briga.

    Ao ver a plateia, James escondeu seu sorriso de satisfação e voltou a socar a cara de Akim. Da sua posição vulnerável, o garoto via todos olhando para a cena. Seus olhares carregavam desespero, rancor, amargura e ódio, mas compartilhavam algo mais profundo: um sentimento de resistência contra aquele tirano.

    — Você… tem inveja de mim — Akim arfou.

    — Engraçado. Por que eu teria inveja de um escravo? — James parou a sequência de socos no rosto, esperando a resposta.

    Akim limpou o sangue que turvava sua visão e agarrou com força a gola da camisa do irmão. — Porque eu tive um pai diferente do seu. E é só por isso que você desconta toda a sua raiva em mim!

    — Não, você tá errado! Nós tivemos o mesmo pai! A única diferença é que o meu preferiu qualquer outra coisa em vez da própria família. Ele preferiu uma escrava. Ele preferiu os de fora que nem eram da família. E você é só uma das consequências das escolhas lixo que ele fez!

    — Então por que você fez questão de falar aquilo?! De usar a minha mãe como prostituta?! Você reclama tanto dele, mas é igualzinho a ele!

    — Você não sabe de porra nenhuma! Eu não sou igual a ele! — James girou a cintura de novo para dar outro soco letal no rosto de Akim.

    Mas o punho parou no ar.

    Os olhos de Akim brilharam subitamente como sóis dourados, as pupilas retraídas como buracos negros, prontos para sugar a alma de qualquer um que o tocasse. Como se o tempo tivesse desacelerado, Akim desferiu uma sequência invisível de três golpes no abdômen de seu algoz. O ar explodiu. James foi arremessado pelos ares, chocando-se com violência contra a parede, seu ombro ficando preso e rasgado em uma das hastes de ferro das lamparinas.

    — Adeus… irmão. — Akim soltou a camisa esfarrapada, deu as costas para o salão e caminhou para fora, sumindo na escuridão do mato adentro.

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