Capítulo 113 — Eu não quero fama.
A porta do QG fechou atrás das duas com um baque seco.
Já era noite, mas Velunthar não tinha o ritmo normal de fim de dia. A vila estava mais fechada.
Portas travadas antes da hora, janelas cerradas com madeira por dentro, pouca luz escapando pelas frestas. Onde antes ainda teria voz saindo de casa, panela no fogo e gente cruzando rua mesmo com frio, agora só sobravam sombras imóveis, fumaça subindo de chaminé e a sensação de que todo mundo estava escutando a rua sem querer aparecer nela.
Halikah ajeitou o manto no corpo e desceu os degraus um passo atrás da general.
Lou-reen seguiu sem pressa, mão livre, espada na cintura, olho passando de porta em porta. O vento veio do lado do mar e cortou a rua, empurrando neve fina pelo chão de pedra.
Halikah segurou o próprio ritmo para não parecer acelerada demais.
— Obrigada por me acompanhar, general.
— A vila não está em clima de deixar ninguém andar só agora.
As duas viraram numa rua mais estreita.
Um postigo bateu e fechou assim que elas passaram. Mais adiante, uma lamparina apagou atrás de vidro grosso. O sumiço de quatro pessoas já tinha feito o serviço: ninguém em Velunthar queria ser visto do lado de fora depois de escurecer.
— Você fez bem hoje — Lou-reen disse.
Halikah virou o rosto na hora.
— Não estou falando de coragem. Coragem sem leitura só aumenta a conta dos mortos. — Lou-reen manteve os olhos à frente. — Você não sentiu só um excesso de essência. Você separou o que era normal na vila do que estava errado: lareira, treino, uso comum… e aquilo.
O vento bateu mais forte na esquina seguinte. Halikah firmou o manto no ombro, mas o brilho nos olhos já tinha vencido o frio.
— Obrigada, general.
Lou-reen seguiu no mesmo passo.
— Continua assim. Você não precisa ficar tentando impressionar o tempo todo. Faz direito. É isso que conta no final.
Halikah baixou o rosto por um instante, segurando aquilo no peito, e então arriscou:
— General…
Lou-reen não se virou.
— Fala.
Halikah puxou ar pelo nariz antes de continuar.
— Como é?
Lou-reen franziu de leve a testa.
— Como é o quê?
— Ser você. — A resposta saiu rápida demais, e ela corrigiu o tom logo depois. — A general mais jovem da história. Ser tão… boa assim.
Lou-reen andou mais alguns passos sem responder. O vento empurrou neve solta pelo canto da rua. Mais à frente, uma porta tinha uma tranca nova atravessada por fora.
— Não é do jeito que você está pensando.
Halikah ficou quieta.
— Não tem parte bonita quando começa a dar errado — Lou-reen disse. — E dá errado.
A garota acompanhou no mesmo passo.
— Ser forte não impede erro. Só faz todo mundo esperar que você não cometa nenhum.
Lou-reen passou os olhos por uma janela escura antes de continuar.
— Título ajuda na hora de mandar. Não ajuda na hora de decidir sob pressão. Não ajuda a consertar erro. Não ajuda quando você chega tarde, lê mal o campo ou confia no que não devia.
O vento bateu de lado. Halikah baixou um pouco a cabeça contra o frio, mas não desviou da conversa.
— Quanto melhor você fica, maior a conta quando falha — Lou-reen disse. — Porque gente boa costuma estar no lugar onde o erro custa mais.
Halikah apertou o manto no peito.
— Eu não quero fama.
Lou-reen olhou de lado dessa vez.
— Não?
Halikah balançou a cabeça.
— Não ligo pra isso. — A voz saiu mais firme agora. — Eu só… quero ficar forte de verdade. Quero merecer estar lá quando precisar. Não quero ser alguém que atrapalha ou fica esperando os outros resolverem.
Lou-reen seguiu em frente por mais alguns passos.
— Isso já é melhor que metade da Academia.
A casa apareceu no fim da rua seguinte, baixa, de pedra escura, com uma faixa de luz amarela vazando por baixo da porta.
Halikah diminuiu meio passo e Lou-reen acompanhou.
— Eu vou descobrir o que aconteceu com a Reinna.
A garota segurou o ar por um instante, como se quisesse responder sem deixar a voz falhar.
— Obrigada, general.
Lou-reen fez um movimento curto com a cabeça.
Halikah subiu o primeiro degrau. No segundo, travou.
A mão parou antes da trava. O corpo inteiro endureceu de uma vez.
— General.
Lou-reen sacou a espada no mesmo instante.
O vulto surgiu no fim da rua e cruzou o jardim num disparo reto, braço erguido, vindo direto para esmagar a garganta da Halikah. A general cortou o caminho antes do impacto, entrou entre as duas e aparou o golpe de lado. O choque abriu faísca no escuro e desviou a criatura o bastante para ela bater com força na fachada da casa. Pedra estalou e pó caiu da junta entre os blocos.
Halikah recuou da porta no ato, já puxando a espada. Desceu um passo para abrir espaço. Quando a criatura caiu no jardim, Lou-reen já estava na frente dela, base firme entre a menina e a rua.
A criatura parecia uma versão mais enxuta da coisa da estrada, mas não menos monstruosa, ainda errada demais para passar por humana à primeira vista.
O corpo era mais estreito e mais fechado. Cabelo loiro comprido se espalhava em mechas sujas sobre a cabeça e o rosto, balançando por cima de traços deformados pela saturação.
A essência torta continuava ali, pesada, só que agora corria por dentro sem vazar em excesso, como se alguém tivesse comprimido tudo no lugar certo para transformar massa em velocidade.
A criatura ergueu a cabeça e se pôs de pé num movimento só.
postura dizia o bastante.
Havia ali algum resto de treino. Peso distribuído, ombro fechado, base pronta para entrar e sair sem perder equilíbrio. Não era postura de animal nem de gente jogando o corpo para frente sem pensar.
Alguém tinha ensinado aquele corpo a lutar antes de ele virar aquilo.
Lou-reen viu isso no instante em que ela veio de novo.
A general saiu também.
A espada entrou primeiro, cortando a frente da linha. A criatura leu cedo demais. O corpo torceu no último passo, escapou da lâmina por um palmo e entrou por dentro. O golpe pegou a lateral da Lou-reen com violência suficiente para arrancá-la da base e jogá-la meio corpo para o lado.
A abertura durou um sopro.
A criatura foi na Halikah.
A garota já estava com a espada em guarda. O primeiro golpe bateu no aço e afundou a postura dela até o joelho quase tocar a pedra do jardim. O impacto reverberou pelo braço inteiro, mas a guarda segurou.
A criatura armou o segundo.
Lou-reen já estava atrás dela.
A lâmina entrou pela lateral da barriga e atravessou fundo. O corte abriu carne, rasgou músculo e travou seco no osso. O corpo da criatura saiu do chão com o golpe. Girou no ar uma vez, duas, e foi parar no meio da rua.
Bateu de ombro, rolou na neve rala e parou de lado.
Sangue escuro começou a escorrer do talho aberto.
Lou-reen puxou a espada de volta num tranco, girou para a Halikah.
— Você está bem?
Halikah endireitou a postura, ainda com a espada nas duas mãos.
— Sim.
Veio um gemido da rua.
As duas viraram ao mesmo tempo.
A criatura estava se levantando.
Primeiro um joelho, depois a outra perna. O corpo tombou um pouco para a frente, sangue ainda descendo pela barriga aberta.
Então o corte começou a fechar.
As bordas da carne tremeram e foram se puxando uma contra a outra numa velocidade errada, rápida demais, como se o corpo inteiro estivesse apertando o ferimento por dentro. O sangue diminuiu quando o rasgo afundou. Em poucos instantes, o talho já era só uma fenda grossa no ventre da criatura.
Lou-reen ergueu a espada e Halikah fez o mesmo ao lado dela.
A criatura levantou a cabeça e deu um passo à frente.

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