Capítulo 112 — Incapacitação por choque.
A porta abriu, e Lou-reen entrou primeiro. Marco e Kalamera já estavam na sala. Atrás dela vieram Marlen, Halikah, um soldado da guarnição e o homem da casa, preso pelo braço.
Lou-reen parou diante da bancada e tirou do bolso um pedaço irregular de selenita bruta. Colocou a pedra sobre a mesa.
— Sentimos uma essência errada e fomos investigar. — Ela apontou com o queixo para o homem. — Era ele. Estava forçando essência em selenita bruta.
Marco olhou para o sujeito.
— Só isso?
— Só isso. — Lou-reen manteve os olhos nele. — Era uma frequência estranha, mas não parecia a mesma da criatura.
Marco ergueu um pouco o aparelho.
— A gente pode comprovar agora. Testamos no corpo da criatura e funcionou. Se tiver a mesma assinatura, isso reage.
Lou-reen cruzou os braços, sem tirar os olhos do radar.
— Então me mostra.
Marco estendeu a mão para o homem.
— Fica parado.
O sujeito endureceu no lugar. Marco encaixou a peça, respirou uma vez e puxou essência.
O disco respondeu com uma linha fina correndo sob o vidro. Marco virou o aparelho na direção do homem.
Nada.
Nem oscilação, nem desvio.
Halikah franziu a testa enquanto Marlen deu um passo à frente tentando ver o que aquilo fazia. Lou-reen ficou imóvel.
Marco liberou outro pulso. A linha correu sob o vidro, limpa.
Marco girou um pouco o pulso na direção da pedra sobre a mesa. Virou o aparelho um pouco, testou outro ângulo, soltou mais essência.
Nada.
O silêncio pesou por um instante.
Marco ergueu os olhos para Lou-reen.
— Não é ele.
Kalamera bateu de leve um dedo metálico na pedra.
— Nem isso.
Lou-reen virou o rosto para o soldado.
— Liberem ele. Mas investiguem se ele não tá roubando a selenita bruta.
Ela apontou para o aparelho nas mãos do Marco.
— Conseguem fazer mais disso?
Kalamera cruzou dois braços sobre o peito e usou um dos de cima para apontar para o protótipo.
— Agora que já montamos o primeiro, sim. O mais difícil era fazer funcionar. Repetir é fácil.
Lou-reen assentiu uma vez só.
— Então façam mais. Sargento Veyl.
Marlen endireitou a postura no mesmo instante.
—Monte uma equipe. Quero busca saindo ao amanhecer.
— Sim, general.
Lou-reen apontou com o queixo para a porta.
— E avise a doutora Hegoria que vamos precisar de mais amostras do corpo. O suficiente pra calibrar novos aparelhos.
Marlen bateu continência.
Lou-reen virou o rosto para Halikah.
— Você ajudou hoje.
A garota endireitou o corpo na mesma hora.
— Eu só apontei.
— E apontou certo. — Lou-reen fez uma pausa curta. — Se eu sair em outra patrulha mais tarde, quer vir de novo?
Os olhos de Halikah abriram de vez.
— Quero.
Lou-reen assentiu.
— Então fica pronta.
Halikah apertou a própria manga, segurando a resposta no corpo antes de soltar:
— Sim, general.
***
A noite já tinha tomado Velunthar quando os dois voltaram para a forja. O fogo na fornalha ardia baixo, suficiente para manter a bancada viva em laranja e sombra, e o resto do salão parecia mais calmo do que realmente estava. Ferramentas, fios de cobre, fragmentos de selenita e peças soltas ocupavam quase toda a mesa; no centro, o segundo radar já tinha forma, faltando só os últimos encaixes.
Marco ajudava no que conseguia sem atrapalhar. Segurava base, separava peça, firmava suporte quando Kalamera precisava usar os quatro braços em pontos diferentes.
Ela conduzia tudo no ritmo dela, ajustando aro, disco e encaixe interno com a precisão de quem já tinha resolvido a parte difícil horas antes. Agora era repetição, correção fina e pressa controlada.
— Passa o suporte menor.
Marco pegou a peça e entregou. Kalamera encaixou sem nem desviar os olhos.
— Agora o fio.
Ele passou de novo, observando enquanto um dos braços de cima apertava o aro e outro alinhava o disco de vidro no eixo. O aparelho já estava quase pronto quando Marco olhou para o protótipo anterior, depois para o novo.
— Vou testar antes de fechar isso.
Kalamera nem discutiu.
— Testa.
Marco encaixou o fragmento de referência no suporte estreito, puxou essência e soltou o pulso. A linha correu sob o vidro, fina e limpa, do jeito que devia.
Kalamera tomou o aparelho das mãos dele, apertou um encaixe na lateral e devolveu.
— De novo.
Marco soltou outro pulso.
Dessa vez, a linha não correu igual. Ela desviou para um lado, curta, torta, e voltou ao centro.
Ele franziu a testa.
Kalamera ergueu o rosto.
— O quê?
Marco repetiu o teste.
A linha puxou de novo, mais forte, no mesmo lado.
“Mesma assinatura. Mais perto”, Nova disse na cabeça dele.
Marco travou um segundo.
Kalamera viu a mudança na cara dele na hora.
— Marco?
Ele soltou mais um pulso, e o retorno veio mais forte, mais perto, vindo de fora.
No instante em que a linha puxou outra vez para a entrada, alguma coisa cortou o vão da forja. Marco largou o aparelho na bancada e puxou Kalamera pelo ombro, tirando a elfa da linha no último instante. O projétil passou onde ela estava e se enterrou no pilar atrás deles com um estalo seco.
Kalamera virou junto com ele, os quatro braços já abrindo espaço ao redor do corpo. Marco nem precisou pensar muito para fechar a conta: o alvo não era ele, era ela. E o radar não tinha reagido por acaso.
A figura de cabelos prateados entrou pela abertura no embalo do arremesso, sem dar tempo para mais nada. Ela foi reta na Kalamera.
O primeiro avanço quebrou no instante em que os quatro braços de metal abriram diante dela. A figura hesitou só um passo, o bastante para mostrar que não esperava aquilo.
Kalamera aproveitou. Dois braços fecharam a frente, um subiu para cobrir a linha alta e o outro cortou a lateral, montando a defesa inteira no reflexo.
A figura prateada tentou entrar mesmo assim, mudando a mão de alvo no meio do movimento e buscando junta, encaixe e alavanca onde achou que o metal abriria passagem.
Marco puxou a espada e entrou junto.
Ela tentou entrar de novo antes que os dois fechassem a distância, e Marco ouviu o chiado um instante antes de ver o azul acender na mão dela.
“Descarga elétrica. Incapacitação por choque”, Nova disse na cabeça dele.
A mão da garota foi no encaixe do braço superior direito de Kalamera. O toque bateu no metal e um estalo azul correu pelas juntas feito nervura de luz. O braço da elfa sacudiu fora do compasso por um instante. Kalamera travou o maxilar e puxou a peça de volta para o lugar no mesmo movimento, fechando o espaço com os outros três.
A garota entendeu a linha e insistiu. Veio nos punhos, nos cotovelos, nas bases dos ombros, sempre procurando uma junta que abrisse passagem. Cada vez que o brilho azul encostava no aço, o metal estalava, a descarga corria pelas peças e o desenho dos braços ameaçava sair do eixo.
Só que nunca pegava o mesmo braço sozinho.
Quando um recebia o choque, outro já entrava na frente; quando ela buscava um encaixe, dois fechavam por cima e por baixo. A velocidade dela era maior. O problema era atravessar quatro defesas que se revezavam sem dar linha limpa.
Marco leu isso na hora.
Em vez de correr direto na garota, puxou a espada para os ângulos que ela queria usar. Toda vez que ela armava o corpo para entrar numa junta ou num punho, a lâmina aparecia ali primeiro, cortando espaço e obrigando a mudança de rota. Um passo dele estragava a mão alta. Outro empurrava ela para o lado errado.
Quando a descarga azul veio de novo, agora buscando o braço inferior esquerdo, Marco já estava no meio, aço na frente, roubando o tempo que ela precisava para repetir o golpe.
Kalamera aproveitou cada interferência. Os quatro braços começaram a responder em cadeia, um segurando frente, outro cobrindo alto, outro fechando lateral, o último pronto para bater no instante em que a garota tentasse passar.
A garota ainda tentou mais duas entradas curtas, uma na linha alta, outra no punho de baixo, mas a janela já tinha morrido. O ritmo que ela queria impor não existia mais ali.
Marco percebeu isso no corpo dela antes mesmo de organizar a ideia. A pressa da entrada já não era a mesma. Na última investida, a mão acesa de azul desceu um palmo tarde demais, e o peso do corpo, que antes vinha inteiro para dentro, já começava a buscar saída.
Ela girou o quadril para fugir no mesmo movimento em que a outra mão foi ao cinto.
Marco viu o brilho arredondado de uma esfera de selenita aparecer entre os dedos dela e avançou antes que a garota conseguisse levar a peça à boca ou imbuir essência suficiente para usar direito.
Entrou com a espada curta no corpo, empurrando junto com o ombro e pegando o antebraço dela no caminho. O golpe desmontou o movimento inteiro. A garota caiu de lado no chão de pedra, e a esfera escapou da mão, bateu uma vez no piso e rolou sob a luz da fornalha.
Kalamera avançou na hora.
A garota salvou a saída no improviso.
Ainda no chão, ela torceu o corpo, plantou a mão no piso e explodiu para cima no ângulo mais sujo possível, o bastante para jogar o ombro no peito de Marco ao mesmo tempo em que empurrava Kalamera com a outra lateral do corpo.
Marco perdeu meio passo para trás; Kalamera entrou na linha dele no mesmo instante, os braços precisando se recolher para não o acertar.
A figura de cabelos prateados já tinha atravessado o vão da forja num borrão e saído pela abertura por onde entrara.

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