Capítulo 32 — 1 Reunião (2/3)
[Kartumz: Castelo Branco]
Já fazia cerca de dez minutos que Alius estava estático diante da grande janela de seus aposentos; seu olhar distante mirava o horizonte, tornado alvo pela neve.
Por estar praticamente adjacente ao Mar Nevasco, Kartumz, a capital do império humano, sofria com um inverno perene. As temperaturas baixas oscilavam apenas entre o frio extremo e o ameno.
A beleza da cobertura branca sobre o solo e a imagem das crianças brincando lá fora — moldando bonecos ou iniciando pequenas guerras de bolas de neve — sequer recebiam a atenção do monarca.
Ele mantinha as mãos unidas atrás da cintura, com o rosto contorcido em preocupação, enquanto revisitava mentalmente os acontecimentos do dia anterior.
Aquele lamento de partir o coração ainda ecoava em sua mente, trazendo, repetidas vezes, as memórias do alerta deixado de geração em geração para todo imperador que ascendia ao trono.
“Faça o que quiser, mas não permita que ELA chore.”
Seu pai lhe dera esse aviso, e o avô fizera o mesmo no dia em que o genitor se tornara soberano.
“Que merda” — pensou e suspirou, questionando-se sobre o que teria feito de tão errado em suas vidas passadas para culminar naquela situação. Já fazia cinco milênios que a guardiã não chorava; por que ela teria de prantear justo em seu turno de governo?
— Haaa. Quem estou querendo enganar?
Ele sabia muito bem a razão por trás de tudo aquilo.
O que garantia o silêncio da guardiã nos tempos idos era o extremo cuidado que os nobres daquela época possuíam. O medo das Hermês ainda estava enraizado profundamente em todos; portanto, trabalhavam arduamente para nunca mais precisarem deparar-se com aquelas mulheres.
Todavia, com o passar das eras e a segurança estabelecida pelos antepassados, a aristocracia atual se esquecera daquele temor, transformando-o em meras lendas e contos de terror.
— Alius. — O imperador desviou o olhar do horizonte e, por cima do ombro, viu a esposa se aproximar. — Por quanto tempo mais você vai ficar aqui, olhando para o nada?
— Até um milagre surgir, talvez — respondeu, fechando os olhos e concentrando-se no abraço que a esposa lhe dava por trás. — São as Hermês… nunca estaremos preparados para enfrentar algo assim. Apenas um milagre nos salvaria.
— Deve haver algo que possamos fazer… qualquer coisa. — A imperatriz costumava ser a muralha firme de Alius, aquela que sempre detinha o conselho certo para qualquer intempérie. Porém, nem mesmo ela sabia como lidar com aquilo.
Ela recordava-se bem dos contos de terror que sua mãe narrava: histórias de mulheres que invadiam reinos vestidas apenas com o sangue daqueles que rasgavam com suas enormes garras.
“Elas só conseguem gritar e grunhir, já que a garganta está entalada com a carne dos nobres que devoraram.”
Aquela fala do passado voltou para atormentá-la. A imagem de seres monstruosos, chegando em meio a um rio de sangue e carne, formou-se em sua mente.
— O que nós vamos fazer?
Alius ouviu a fala quebradiça da mulher e, sentindo-a tremer contra suas costas, mirou o grupo de crianças brincando na neve ao longe e suspirou. Ele conhecia bem o pavor que a esposa nutria em relação às Hermês, algo muito mais profundo do que a inquietação dos outros aristocratas. Afinal, a linhagem daquela mulher quase fora exterminada há muito, muito tempo.
Alius virou-se e abraçou a imperatriz, acolhendo-a em seu largo peito.
— As Hermês podem nos odiar, mas elas são sempre justas — explicou, lembrando-se de todos os registros que possuía sobre elas. — Se o império passar por uma mudança drástica, talvez assim…
Toc. Toc. Toc.
Quando Alius ia prosseguir, batidas soaram na porta. Seus olhos se abriram e, ao soltar a esposa, um velho homem, vestindo um casaco preto bastante espesso, aproximou-se.
— Majestades. — Curvou-se em reverência, com o olho direito oculto atrás de um monóculo. — Já estão todos prontos para a reunião.
— Certo. — O monarca olhou para o idoso de bigodes grisalhos, seu mordomo, Daasaf, e acenou com a cabeça. Por fim, deixou um beijo na esposa e retirou-se com o funcionário.
Após algum tempo de caminhada pelos corredores do enorme castelo, Daasaf finalmente abriu a porta para o Imperador. Alius entrou na sala iluminada por candeeiros repletos de cristais luminosos vermelhos, que espalhavam uma luz crepuscular pelo cômodo.
Era um salão médio. No centro, havia uma pequena mesa em semicírculo com um trono acolchoado giratório. Não havia janelas naquele compartimento, nem decorações. As paredes eram preenchidas por cerca de vinte espelhos retangulares, cada um do tamanho do torso de um adulto.
Daasaf assentiu e fechou a porta, permanecendo do lado de fora. Afinal, apesar de ser um dos homens de confiança do soberano, ainda era um simples mordomo; não possuía autoridade para ouvir o que seria discutido ali.
Alius, agora a sós, caminhou até a mesa e sentou-se, ficando de frente para um pombo branco que repousava em um suporte de madeira preta. À primeira vista, o pombo parecia um pássaro comum, até o imperador retirar do bolso um item similar a um colar para bonecas… algo bem simplório — um fio preto com um cristal em formato de gota, que aprisionava uma pequena pena em seu interior.
Assim que o colar foi colocado no pescoço do animal, este agitou as asas, abriu os olhos e revelou um breu profundo, pontilhado por brilhos que remetiam ao céu estrelado.
— Estão todos aí? — Alius indagou, olhando para o passaro.
No mesmo instante, o vazio refletido pelos espelhos foi substituído por imagens de homens e mulheres situados em locais distantes.
— Estamos todos aqui, Majestade — respondeu um dos reflexos. Era um homem de cabelos e barba ruivos.
— Certo. Sendo assim, não percamos mais tempo. — O pombo diante do Imperador continuou imóvel, os pontilhados estrelares em seus olhos desapareciam e surgiam, continuamente. Alius girou a cadeira para o espelho do ruivo. — Fizeram o que pedi?
— Tudo foi executado conforme as suas ordens, Imperador. Desde que o choro da guardiã cessou, fomos diligentes nas investigações sobre a situação dos nobres humanos e suas famílias.
— E?
— Tudo parece estar em ordem até o momento. — Ao ouvir a declaração, Alius soltou um suspiro de alívio contido. Ainda existia uma chance… Talvez, como da última vez, as Hermês demorassem a agir. Elas haviam levado cerca de cinquenta anos no ciclo anterior. — Mas…
Imediatamente, o monarca semicerrou os olhos e o coração pesou. Aliviara-se antes da hora.
— O que aconteceu?
— É que… — O ruivo hesitou. Sentia que o assunto que estava prestes a trazer era insignificante e não queria preocupar mais ainda o Imperador com aquilo. No entanto, já que tinha ousado trazê-lo a tona, viu-se obrigado a continuar. — Alguns familiares e conhecidos de nobres de baixa classe desapareceram… — Quando o sobrolho de Alius enrugou-se, o homem silenciou-se de supetão, então gaguejou: — Na-na verdade, todos que desapareceram são conhecidos por esbanjar em festas privadas, mas, como não retornaram ontem, no dia estipulado… B-bem, pelo que soube, não seria a primeira vez que eles somem sem aviso.
Vendo o Alius massagear a testa, o ruivo calou-se mais uma vez.
— Posso preparar uma equipe de busca se for necess… — disse, depois de dois segundos, mas não lhe foi dado tempo de terminar.
— Não precisa — Alius interrompeu, percebendo que, como sempre, o subordinado falava demais para tentar se redimir. — Essas pessoas… — Olhou para os olhos cósmicos do pombo e sua expressão escureceu. — Nunca mais serão vistas.
[Movis: Povoado Latar]
Além da Floresta das Bestas, que dividia o continente humano em quatro grandes províncias, a leste de Kartumz, situava-se Movis. No extremo sudeste dessa região, ficava o pequeno povoado pesqueiro de Latar.
O vilarejo parecia estagnado no tempo, como se a evolução o tivesse ignorado. As moradias espalhadas eram palhotas de madeira e palha, semelhantes às habitações de escravos nas metrópoles.
A terra era fértil e o mar estava próximo, mas era só isso. A juventude abandonava o local continuamente, transformando-o em um reduto de idosos prestes a desaparecer.
Contudo, um jovem ainda se recusava a partir. Ele estava no mar naquele momento, em seu pequeno barco a remo. O rapaz, de cabelos pretos e cacheados, vestia-se com simplicidade extrema, quase como um mendigo, e estava deitado no convés.
Ele era uma figura conhecida no povoado; diziam que a genética de sua linhagem era poderosa, pois ele era a imagem esculpida de seu pai, que por sua vez fora idêntico ao avô.
Ele se remexeu na embarcação após o longo silêncio e abriu as pálpebras. Deparou-se, então, com um pequeno caderno flutuando diante de seu rosto.
O objeto tinha capas enferrujadas e manchas de sangue; era um livreto de bolso. O caderno abriu-se, revelando sua única página útil. Nela, palavras agitavam-se, escritas com o que parecia ser sangue e carne moída.
— Haaa. — Suspirou, após ler a mensagem macabra. — Parece que o meu destino já foi decidido.

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