Capítulo 7 - A Isca Se Agita
Ding Songyan tinha acabado de dar um passo largo quando seus olhos, que habitualmente examinavam os arredores, de repente avistaram um rosto com expressões mutáveis. O rosto pertencia a um homem de aproximadamente trinta anos, usando um lenço na cabeça, com o queixo barbeado e a ponta do nariz visivelmente vermelha, sugerindo um caso de rosácea.
Ele encarou Ding Songyan como se tivesse visto um monstro que não deveria estar ali; seu espanto e terror estavam estampados em seu rosto. Ao ver Ding Songyan fixar o olhar nele, o homem virou-se abruptamente e se espremeu na multidão do mercado, desaparecendo num instante no mar de pessoas.
O primeiro instinto de Ding Songyan foi perseguir e agarrar o homem, mas, por não ter nenhuma habilidade em artes marciais, sua reação foi um pouco lenta. Quando ele finalmente quis agir, o homem já havia desaparecido.
“Ele descobriu que um homem que deveria estar morto no Templo Dangkang agora vaga por aí, descaradamente, e ficou tão assustado que não conseguiu controlar a expressão? Esse método de ‘bater na grama para assustar a cobra’ é realmente bastante eficaz… Bem, mudanças certamente virão, então não há necessidade de persegui-lo agora. Espero que o Sr. Yu já esteja preparado…” Ding Songyan olhou fixamente na direção para onde o homem de nariz vermelho havia fugido, perdido em pensamentos.
— Irmão Ding, o que você está olhando? — perguntou Xu Chang’an, curioso.
Ding Songyan interrompeu seus pensamentos, apenas para perceber que o tenente da cavalaria sem cabeça de antes já havia desaparecido e não estava em lugar nenhum.
— Parece que um ladrão foi pego. — disse Ding Songyan, inventando uma mentira para se livrar de Xu Chang’an.
Não existe final feliz para um ladrão!
O primeiro celular que ele havia comprado com suas próprias economias foi roubado, deixando-o arrasado por meses. O rosto de Xu Chang’an empalideceu ao ouvir a notícia. Ele ficou na ponta dos pés, olhando repetidamente naquela direção.
— Eu não vi. Não vi nada. Onde…
— Ele já foi levado embora. — disse Ding Songyan, com desdém.
Ele se virou para o lugar de outro contador de histórias, aparentando estar relaxado por fora, enquanto permanecia tenso e extremamente vigilante por dentro. Xu Chang’an seguiu em frente, com a mente claramente em outro lugar, sem mais procurar “ovelhas gordas” para furtar.
“Parece que ele nunca foi pego antes… Quem frequenta o gabinete do magistrado já é veterano; não teria medo nenhum…” Ding Songyan olhou para o amigo, parando no meio da multidão para ouvir as lendas do contador de histórias enquanto observava o ambiente ao redor com indiferença.
Talvez porque o folclore das artes marciais e as anedotas dos rios e lagos1 já fossem consideradas lendárias o suficiente, os livros de histórias aqui se concentravam principalmente em mitos e assuntos mundanos. Estes últimos eram coisas que o povo comum podia realmente tocar, então não faltavam ouvintes, lotando a área a tal ponto que nem uma gota d’água conseguia passar.
De repente, Xu Chang’an cutucou o braço de Ding Songyan. O coração de Ding Songyan apertou quando ele se virou para olhá-lo. O homem, de feições decentes, mas cujos olhos tinham um brilho furtivo e malicioso, apontou para o outro lado e baixou a voz.
— Irmão Ding, olhe para lá. Olha alí.
A multidão era tão densa que Ding Songyan não conseguia enxergar, então ele teve que dar dois passos para trás para mudar de posição. Sem precisar que Xu Chang’an dissesse mais nenhuma palavra, ele sabia exatamente para quem o outro estava apontando.
Era uma jovem de dezesseis ou dezessete anos. Vestia uma blusa branca de gola redonda e abertura frontal sobre uma saia com borda branca, detalhes verdes e várias dobras. Seu cabelo estava preso em um penteado com dois coques, com duas mechas pretas soltas caindo sobre os ombros, dando um toque de delicadeza ao visual.
Os cantos dos seus olhos se inclinavam para cima, seu queixo era fino e delicado, e seu nariz era pequeno e reto, com a ponta carnuda. Sua pele era clara e macia, como se fosse feita de gordura solidificada. Cada olhar que lançava era ao mesmo tempo claro e travesso, irradiando, contudo, um toque de beleza imatura e sedutora. Pureza e charme pareciam coexistir nela sem qualquer contradição. A flor verde no topo do grampo de cabelo prateado ao lado do seu coque balançava suavemente, ecoando os pingentes de jade em sua cintura que se moviam a cada passo.
Ela ficou ali parada, e só se podia imaginar quantos olhares ela havia atraído. Aqueles olhares a tangenciavam e logo se desviavam, apenas para retornar ao ponto de partida.
— Irmão Ding, ela não é linda? — Xu Chang’an suspirou em voz baixa. — Para ser assim nessa idade, temo que ela se tornará uma beleza capaz de derrubar cidades em poucos anos.
Enquanto falava, ao ver Ding Songyan olhando para ele, deixou escapar:
— É claro que ela ainda é um pouquinho inferior à Irmã Qingyan. Só um pouquinho.
“Heh, você sabe como falar. Ela é realmente um pouquinho inferior, um pouquinho em altura… Estilos e temperamentos diferentes, impossíveis de comparar diretamente. Uma é etérea e espirituosa, a outra é pura e encantadora…” Enquanto Ding Songyan murmurava para si mesmo, o contador de histórias terminou um trecho e começou a pedir gorjetas.
A menina jogou um lingote de prata na cesta de bambu; parecia pesar cerca de trinta gramas.
— Oh, a jovem é generosa! — O contador de histórias ficou imediatamente radiante, seus elogios fluindo sem parar.
A garota ergueu levemente o queixo, parecendo bastante satisfeita.
— Voltarei amanhã para ouvir mais detalhes.
“Ela é muito despreocupada com o dinheiro, muito generosa… E tem um toque de inocência; claramente, ela não viu muito do mundo…” Ding Songyan de repente se perguntou se deveria encontrar uma maneira de extorquir alguma prata dessa garota.
“Se eu não merecer, outra pessoa merecerá. Melhor que seja para mim do que para eles!”
Só então ele notou uma criada ao lado da moça, vestida com uma saia de seda verde-ciano, de aparência delicada e bonita. À sombra da beleza da moça, todos ao redor, inconscientemente, ignoravam a empregada.
Enquanto observava, Ding Songyan virou repentinamente a cabeça para olhar para Xu Chang’an.
— Você já viu essa moça antes?
— Nunca a vi. — respondeu Xu Chang’an com uma expressão vazia.
“Se eu a tivesse visto, já teria contado para todo mundo na Rua Chengyu!”
— Ela não parece ser desta cidade? — perguntou Ding Songyan.
Xu Chang’an, que estava de pé com as costas eretas, disse com bastante firmeza:
— Claro que não. Com um rosto desses, saindo sem se cobrir, ao contrário da Irmã Qingyan, que usa véu, se ela fosse desta cidade, já seria tão famosa quanto Zheng Zhuxi, da Seita Xiaoming. E Zheng Zhuxi nem é tão bonita quanto ela.
O desejo de Ding Songyan de ganhar dinheiro desapareceu subitamente, e sua testa se franziu.
Quando chegou e viu Ding Qingyan pela primeira vez, ficou estupefato, mas não achou estranho, presumindo inconscientemente que este mundo era abençoado com pessoas bonitas. Mais tarde, depois de caminhar algumas vezes pelas ruas, percebeu que pessoas como sua irmã eram realmente raras — até mesmo excepcionalmente raras. No mínimo, não tinha visto outra nos últimos dois dias; todos que encontrava eram muito inferiores.
E então, outra garota de beleza incomparável apareceu. Seria muita coincidência?
“Será que toda a beleza está concentrada na Prefeitura de Dingjiang?”
Além disso, essa garota adorava ouvir histórias, mas Xu Chang’an não a tinha visto nem ouvido falar dela fora do Templo Dangkang nos últimos dias. Isso significava que ela devia ter chegado à Prefeitura de Dingjiang apenas nos últimos dois dias.
E nestes últimos dois dias, outra coisa aconteceu: o estranho desaparecimento do Segundo Jovem Mestre da família Ding, que morreu em um templo em ruínas nos arredores da cidade.
“Os dois eventos podem não ter uma ligação direta, mas a coincidência perfeita entre eles me dá a sensação de que algo está se formando na Prefeitura de Dingjiang. Será que os ventos e as chuvas de todas as direções estão se concentrando em Dingjiang?”, ponderou Ding Songyan.
Enquanto isso, Xu Chang’an olhava para a esquerda e para a direita, caminhando na direção da garota de saia branca e sua criada.
Crek.
Ding Songyan agarrou seu ombro.
— Onde você está indo?
Surpreso, Xu Chang’an piscou e disse:
— Aquela garota tem bastante prata consigo e parece não se importar com isso, ela não tem a menor noção de segurança. Pensei que poderia conseguir um emprego com ela.
Ao ver Ding Songyan olhando para ele em silêncio, Xu Chang’an gaguejou:
— Ela é bonita, com certeza, mas eu preciso arranjar dinheiro para comida. Se eu não roubar, outros colegas vão roubar.
— Ela não é a Irmã Qingyan; não tenho nenhuma amizade com ela.
Ding Songyan estalou a língua.
— Uma garota com essa beleza viajando sozinha até a Prefeitura de Dingjiang, parecendo tão inocente e ingênua, sem saber esconder o rosto… você realmente se atreve a roubá-la?
— A estrada é difícil, e viagens de longa distância são ainda mais difíceis. Não há torres de vigia na estrada.
— Se me perguntarem, essa garota ou vem de uma família extraordinária e possui especialistas a protegendo nas sombras, ou ela mesma é bastante formidável em artes marciais. Se você quer cortejar a morte, não precisa escolher justamente hoje.
A expressão de Xu Chang’an mudou.
— Certo!
Ele olhou imediatamente para Ding Songyan, cheio de gratidão.
— Irmão Ding, o que você disse é exatamente o que meu mestre diz. Em nossa profissão, habilidade é importante, mas o mais importante não é a habilidade em si, e sim o faro para as pessoas. Saber de quem se pode roubar e de quem não se pode, quem é fácil e quem não é, tudo isso é algo que você precisa perceber antes de agir.
— Nesse aspecto, sempre fui repreendido pelo meu mestre.
“Não, não, o mais importante é o cérebro, e você está carente disso…”, pensou Ding Songyan, dando um tapinha no ombro de Xu Chang’an.
— E não fique sempre de olho nos vendedores de frutas ou nas vovós que costuram. Um homem que quer ser um mestre ladrão no futuro não deve se rebaixar, ou será alvo de chacotas quando ficar famoso.
Xu Chang’an ficou paralisado por um instante e, depois de alguns segundos, disse:
— Então, como vou ganhar a vida…
“Você é mesmo obcecado por roubar, não é? Não consegue encontrar um emprego decente? Vejo que a economia de consumo neste mundo é bastante desenvolvida; você deveria ser capaz de encontrar algo para fazer…” Ding Songyan suspirou.
— Roube dos ricos para ajudar os pobres, então. Roube apenas daqueles que são ricos, mas não virtuosos.
Ele não queria se aprofundar muito no assunto com um mero conhecido. Não tentou persuadir Xu Chang’an enquanto este mergulhava em profunda reflexão, e em vez disso, despediu-se dele. Continuou a vagar pelos arredores do Templo Dangkang, na esperança de que o homem que se assustara tanto ao vê-lo provocasse alguma mudança, permitindo-lhe resolver o perigo oculto que espreitava dentro de si o mais rápido possível.
— Segundo Jovem Mestre Ding, Segundo Jovem Mestre Ding! — Alguém ao longe chamava seu nome.
Ding Songyan ficou tenso, virou o corpo e sorriu na direção da origem do som. Era um homem que vendia pomada dourada para feridas, ainda não tinha trinta anos, com um pano preto enrolado na cabeça e um pedaço da pomada que vendia grudado no rosto, parecendo bastante cômico.
A faixa de tecido que ele segurava tinha duas frases escritas nela:
Garantia de cura para hematomas e lesões,
Uma folha custa apenas uma moeda.
“Sem nenhum floreio literário, mas conciso…” Ding Songyan não disse nada, esperando que o outro declarasse seu propósito. O homem com a pomada no rosto parecia animado.
— Segundo Jovem Mestre Ding, por que você não contou histórias hoje?
Ele apontou para o espaço vazio ao seu lado.
“Ah, então esta é a barraca que “eu” consegui da guilda de contadores de histórias através das conexões da Mansão Zhen? Será que posso transferi-la para outra pessoa em troca de dinheiro? Eu não tenho habilidade para contar histórias… Embora eu tenha escutado por um bom tempo agora e percebido que a arte de contar histórias aqui não tem as técnicas, frases prontas ou ritmo característico do mundo de onde eu vim, contanto que você consiga falar claramente e contar uma história, já é o suficiente. Mas meu objetivo é aprender artes marciais, não me tornar um tagarela…” Antes que Ding Songyan pudesse falar, o vendedor de pomadas continuou a tagarelar.
— Uma jovem esteve aqui perguntando por você! Ela parecia um ser celestial!
“Hã?” Uma figura surgiu de repente na mente de Ding Songyan.
— Senhorita, senhorita! — gritou o vendedor de pomadas. — O Segundo Jovem Mestre Ding está aqui! Em nossa Prefeitura de Dingjiang, sua habilidade em contar histórias está entre as três melhores!
“Obrigada pelo elogio. A essência dos negócios é o elogio mútuo…” Ding Songyan, sem surpresa, viu a garota de saia branca de antes e sua empregada. A garota aproximou-se rapidamente e perguntou alegremente, sem se comportar como uma estranha:
— Segundo Jovem Mestre Ding, quando o senhor vai contar histórias hoje? Quero ouvir.
Ding Songyan piscou, com pensamentos a mil, e juntou as mãos em sinal de saudação.
— Para responder à sua pergunta, senhorita, não tenho me sentido bem nos últimos dias e pretendia descansar. Mas, se a senhora quiser ouvir, posso narrar um trecho. Não contarei lendas antigas, mas um conto lendário que aprendi recentemente. Se eu não a contar bem, não precisa me dar nenhuma recompensa.
Ele certamente não saberia contar lendas antigas, mas, quanto a histórias, tinha uma pilha inteira de protótipos dos quais poderia se inspirar.
Seu objetivo era claro: ele não queria o dinheiro da garota, nem a pessoa em si. Ele só queria estabelecer uma conexão e criar um vínculo de favor. Considerando o histórico provável da garota, se a situação realmente exigisse, aquele pequeno favor valeria mais do que mil peças de ouro.
- Apenas relembrando, este termo se refere ao mundo dos artistas marciais, onde a força dita as regras.[↩]
Pix da equipe:
Vento Leste (tradutor) – cd257395-b041-4a84-ac90-7489444b88cd
Porta (revisor) – ccb30f8a-8453-4908-a0c5-955a825ec93f

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