Capítulo 11: A Viagem
“Enquanto os reis dormem e o mundo descansa, permaneço em Vigília.”
— Tenho certeza de que estamos prontos! — Alucaria bateu as palmas das mãos. Num solavanco, quase perdeu o equilíbrio e caiu.
Roderic, que ajeitava a sela da princesa, suspirou:
— Senhorita, tem certeza de sua decisão? — Tinha as rédeas nas mãos, hesitante de entregá-las.
— Tenho certeza de que estamos prontos! — repetiu, e tomou as tiras de couro do criado. — Treinei o bastante na arte da montaria!
Seu cavalo, num salto, relinchou. O chapéu que tinha na cabeça quase caiu, junto de todo seu corpo. Corou de leve, olhando para os irmãos, e riu.
Logo após a confirmação de sua aliança, Alucaria revelou-lhes que vendera sua carruagem. Seu mordomo, claro, quase arrancou os cabelos. No fim, arranjaram alguém disposto a pagar o bastante.
A vampira ergueu uma enorme bolsa, com os braços tremidos. Diversos círculos de metal negro jaziam ali, forjados com marcas de coroas e torres de castelos; Coroas de Cinza, a velha moeda, advinda dos reis antigos de Rosenthal e suas tentativas de unificar os reinos de Vespera.
— Isto nos ajudará durante a viagem! — Empinou o nariz, sorrindo tal qual uma criança. Roderic grunhiu.
— A senhorita terá de viver na estrada, sem um bom lugar para dormir.
— Não me importo de deixá-la com meu saco de dormir — Hansel declarou, dando de ombros. A princesa agradeceu, e Roderic calou-se.
Mantiveram seus cavalos, sem nome e sem a linhagem que Velora e Fellwind. Teriam utilizado a carruagem pessoal da princesa, se suas condições permitissem; contudo, Roderic insistiu que usassem de um veículo simples e discreto.
— Não foi o suficiente, de qualquer forma — disse ele, numa voz rouca e com o rosto caído.
Saíram não muito tempo depois, enquanto os raios de luz começavam a dominar a noite desvanecente. Os cascos batiam na terra, mas nenhum grão de poeira ergueu-se diante deles.
Redbrook não era a única floresta próxima de Apple Hollow. Nas regiões fronteiriças entre Eisenwald, o Reino Montanhoso, e Rosenthal, O Reino das Flores, encontrava-se a grande Thornhollow, que se estendia entre esses reinos e circundava o segundo até chegar ao Leste. Entre seus altos e densos pinheiros, escondiam-se Leshies antigos e Espectros assombrados, que impedia explorações maiores da mata de se expandirem.
De fato, existiam apenas duas trilhas em que o tráfego se fazia constante: a Trilha da Noite, que atravessava as Montanhas Negras e levava a Nocturnia, e a Trilha de Rosewick, que levava a Rosenthal, onde viviam tribos de fadas. Poucos lenhadores e caçadores trabalhavam por essas estradas, usando madeira dos pinheiros de Elderwood e as peles e carnes dos animais como fontes de sustento.
— Viemos pelas Montanhas Negras, no Noroeste. A mata é menos densa nessa região, e monstros menores não avançam contra vampiros. — Roderic apontou, sua voz distante entre as correntes de ar.
Era o terceiro da pequena caravana, na frente apenas de Gretel. Hansel ia na frente, com a princesa logo atrás. Essa amarrara o chapéu no queixo com um lenço, quando esse voou na hora de partirem. Deixava os dentes à mostra, e fitava ora a estrada, ora os campos e montes pelos quais passavam.
Sua estratégia consistia em passar pelo menor número de vilarejos possíveis, Eisenhafen, Kaltbrand e Raucherz, para reabastecer os suprimentos. Em três dias, alcançariam a floresta. E Roderic pensara que seguiriam a estrada de Rosewick, mas Hansel logo o corrigiu; os Caçadores da Ordem conheciam e guardavam caminhos ocultos.
A floresta dividia-se em duas em seu lado oeste, marcada pela cicatriz espumante do Rio Fosco. E era impossível chegar em Rosenthal sem o transpassar. A grande trilha permanecia a mais famosa, mas nem de longe a mai eficiente.
Duas noites faziam-se necessárias para atravessar a mata e alcançar o País das Rosas por Rosewick; pela trilha de Hansel, apenas uma. Rouge Grimm, sua mestra, ensinou-lhes essa passagem quando ainda eram crianças, e a nomeou de “Trilha da Viúva”.
E assim o fizeram, seguindo a estrada. Após Redbrook, atravessaram diversas planícies, cobertas de arbustos que se remexiam com vento gelado. Mais ao fundo, viam poucas casas de fazenda, e montanhas mais além.
Ao meio-dia, alcançaram conjuntos de morros, pelos quais a estrada passava, subindo e descendo. Logo depois, o caminho afundou num pequeno vale por entre os montes, substituindo a terra batida por sulcos de rocha e musgo.
Esconderam-se por entre alguns olmos para comer, e Alucaria sentou-se nos poucos resquícios de sombra que as árvores e os corpos de terra, agora inclinados para dentro, proviam com o Sol em seu ponto mais alto. Ali esperaram por algumas horas, até seguirem para sua primeira parada: Eisenhafen .
Ao cair da noite, alcançaram a vila. Era quase um ponto alaranjado por entre as trevas, como uma vela, circundadas por ranchos e seus celeiros. Correntes de fumaça alçavam os céus em vários pontos; suas forjas e fornalhas de minérios e pedras.
— Partimos pela manhã. — Hansel puxou as rédeas de Velora, e o trio que o seguia se interrompeu.
Desceram de suas montarias e seguiram à pé. O vento nortense urgiu por entre as alamedas, e as correntes nos lampiões gemeram. Dezenas de pedestres passavam, em especial homens, que carregavam ferramentas encobertas por tecidos. Duas ou três carruagens trafegavam pelo meio da rua, puxadas por burrinhos, e o bater de seus cascos eram martelos sobre a terra. Entre todos esses, passavam soldados, trajados com cotas de malha e tabardos laranjas e pretos.
Davam olhadas no quarteto, em especial nos irmãos Vonwyll. Hansy empurrou para baixo o chapéu da irmã, que grunhiu o acertou na perna, e fez o mesmo com o seu.
Alucaria observou o gesto e virou-se para Roderic. Ele balançou a cabeça, e, com a cabeça abaixada e a mão sobre o ombro de sua mestra, sussurrou:
— Caçadores não são bem vistos em todos os lugares, senhorita. Especialmente aos olhos dos exércitos locais, que os vêem como um exército paralelo.
A princesa acenou, com os olhos caídos.
— O que é toda essa fumaça? — Alucaria apontou para o alto, espremendo-se entre os irmãos.
— Eisenhafen trabalha com a forja — disse Hansel, num suspiro. Desceu a mão da vampira, que não resistiu. — Esses homens caminhando são entregadores do turno da noite.
— É por isso que há tantos soldados por aqui — Gretel prosseguiu, revirando os olhos. — Azar o nosso, mano.
Hansy deu de ombros. Alucaria alternou o olhar entre os dois, cujos tons de voz e expressões assemelhavam-se a água e vinho. Suas bochechas inflaram, e então agarrou-os pelos braços.
— Como parte do nosso contrato, quero que me dêem um tour pela cidade! — Sua voz desafinou.
— Senhorita Alucaria, isso não faz parte…
A vampira, num solavanco, os arrastou para frente. Gritou para que Roderic tomasse conta dos cavalos, e ziguezagueou pelos pedestres como se fossem uma folha fina de papel.
O mordomo vampiro observou sua mestra subjugar e guiar os irmãos Vonwyll. Com a mão erguida e as quatro guias dos equinos em mãos, encheu os pulmões de ar.
— Bem, vamos? — questionou os animais, e Velora e Fellwind olharam-no em silêncio.
[…]
— Senhorita Alucaria? — Hansel puxava a própria mão, mas o braço e o torso da princesa, do mesmo lado em que se ferira em Redbrook, não cedia. — Onde a senhorita pretende ir?
— Ela quer que apresentemos a cidade, mano.
— Sim, maninha — riu ele, de sobrancelhas erguidas —, mas por que a senhorita que está nos levando, se não sabe nada sobre a vila?
A pouca força que exercia não era o suficiente, pois quase caiu no chão. Curvado e de olhos arregalados, tornou a face para sua direita. Alucaria imobilizou-se, ainda agarrada nos irmãos e com o rosto baixo.
Hansy viu um rubor nas suas bochechas de porcelana. Seria efeito do fogo das lanternas?
— Mestre Hansel e a senhorita Gretel deveriam mostrar o caminho — cochichou com uma voz quase de criança.
Deixou que os braços dos Vonwyll escapassem, e uniu os seus sobre o peito. Fez beicinho e olhou para um, depois para a outra, e os rubis que usava para enxergar rebrilhavam com a luz dourada que encobria a rua.
Hansy e Grety engoliram o riso, e a segunda logo disse:
— Tudo bem, princesa. Vamos ajudar em seu passeio. — Segurou-a pela mão, como uma mãe que guia sua criança. — Certo, Hansy?
Ele fez que sim com o rosto. Alucaria ofereceu-lhe a mão, os olhos arregalados e os lábios apertados. Hansy, porém, recusou. Explicou que não seria apropriado. A princesa então encobriu-se numa nuvem escura; Gretel não sabia se deveria rir ou alfinetar o irmão com os olhos.
— Fico feliz que queira tanto nossa ajuda, senhorita, mas escoltas geralmente não—
Uma corrente elétrica invadiu seu corpo da cabeça aos pés. O coração disparou, batendo na constância e fúria de um cavalo em alta velocidade. Uma única pontada de lança de gelo recaiu sobre sua coluna.
Num instante, os poucos murmúrios noturnos de famílias preparando seus jantares e comerciantes fechando suas lojas transmutaram-se em gritos. Ecoavam no fundo dos ouvidos, embora corressem e se aproximassem a cada novo pedido de socorro.
Hansel fitou a irmã por um milissegundo, que tinha os olhos de cobalto arregalados como os seus, e girou para o lado sul da cidade. Encontrou lá uma sombra. Não as sombras da noite, naturais dos escuros períodos noturnos de toda Vespera; mas uma sombra viva, que alçou pelos céus e fez as telhas das casas saltaram em milhares de fragmentos.
Não pôde compreender o que via com tamanha distância os separando; as luzes da cidade eram incapazes de alcançar a sombra, tão alta no céu. Dela, contudo, pareciam cair feixes de fumaça, fumos verde-escuro que estouravam no chão e aumentavam os gritos.
— Wyvern! — Gretel agarrou o ombro do irmão, que voltou a si. Seus olhos ardiam de leve. — Está se escondendo entre as sombras e nuvens de veneno!
Hansy cerrou os dentes, e Grety retrucou com um olhar receoso.
Sua viagem para Rosenthal teria que esperar.

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