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    Na manhã do dia seguinte, às margens de Cahjia, uma barricada já está armada. Erguida em pedras grandes empilhadas e firmadas por troncos. Ela separa a floresta da clareira em um trecho que circunda o acampamento dos orcs.

    A tribo, majoritariamente, se divide entre trazer os materiais da barreira, prepará-los para construção e empilhá-los, aumentando o muro cada vez mais tanto em extensão quanto em altura. 

    Pelo lado mais à direita, Brok e Mindinho caminham juntos e devagar, avaliando o andamento da construção. Atentos, eles medem as rochas e testam a integridade da barreira, empurrando-a em algumas partes.

    “Está indo bem rápido”, comenta o chefe.

    “As pedras aqui são boas. O tamanho já é o suficiente. Só temos que separá-las e montá-las”, pontua Mindinho.

    Brok acena, concordando. “São materiais adequados para nós. Os que… vieram antes de nós já deixaram uma parte do caminho pronta”, diz ele.

    Mindinho encara uma das pedras que está sendo transportada à barreira nas mãos de um orc. Momentaneamente seu foco é perdido e ele fica absorto e distante. “É… Acho que todos eles pensaram que iria durar para sempre. Assim como nós”, fala ele.

    Diante do comentário, o olhar de Brok sutilmente se franze, mas não diz nada. Ele apenas respira ruidosamente, tão audível que toma a atenção de Mindinho na mesma hora.

    “Vamos seguir…”, diz o chefe. “Temos que ver como estão as coisas do outro lado.” 

    “Tudo bem”, diz Mindinho.

    Os dois seguem andando, continuando sua avaliação. 

    Momentos depois, um outro orc se aproxima deles correndo. 

    “Chefe! Chefe!”, grita ele, ofegante. 

    Todos os orcs, incluindo Mindinho e o próprio Brok, param suas atividades e olham para ele.  

    O corredor para diante do chefe, com olhos arregalados e os braços tremendo. 

    “Pequeno… o que aconteceu?”, pergunta Brok.

    “Chefe… tem outros orcs ali atrás! No pedaço da esquerda que estamos levantando”, diz ele, assustado.

    Na mesma hora, Brok bufa pesado e sua feição se enruga. Outros?, ele se pergunta. A imagem clara de Ferrão, Pulapedra e os outros dois de seu grupo é a primeira coisa que vem à mente. Será que… são eles de novo?

    “Quem e quantos são?!”, pergunta Mindinho.

    “Parecem os Ma’Al. E eu vi três deles chegando”, responde Pequeno, e em seguida, ele olha para Brok. “Querem falar com você.”

    O chefe desprende o machado da cintura e o segura firmemente com os dedos. “Vou ver o que querem comigo”, diz ele. 

    E Brok começa a andar na direção de onde veio Pequeno, com passos calmos e sem pressa. 

    Os orcs ao redor o acompanham em uma multidão, carregada de olhares irritados e incomodados. 

    Do outro lado das ruínas, onde a outra ponta da barreira é erguida, há uma outra aglomeração da tribo. 

    Aqueles que estão nas bordas, ao perceberem Brok aproximando-se, abrem espaço. Na sequência, os orcs no meio da multidão fazem o mesmo e, antes da chegada do chefe, o grupo naturalmente se divide em duas partes como uma cortina, revelando no meio três orcs distintas. 

    Eles usam armaduras de couro negro como pixe e seguram espadas de metal pontiagudas, semelhantes a lanças. 

    Dois são guerreiros mais jovens, em que um possui uma arma mais polida e nova, enquanto o outro segura uma espada mais comum, porém empunha um escudo de madeira na outra mão. 

    O terceiro, ao centro, é mais velho, com sobrancelhas grisalhas e dezenas de arranhões cicatrizados nos braços. 

    Quando veem o chefe se aproximando, o orc com a arma mais polida leva a mão ao mais velho e cochicha algo baixo. 

    “Não”, responde o orc com sobrancelhas brancas, na mesma hora. 

    O orc com a arma polida rosna baixo, frustrado com a refusão. 

    Momentos depois, Brok para diante deles. Por um longo segundo, os quatro orcs se avaliam. 

    “O que querem aqui?”, Brok pergunta.

    Antes de responder, o mesmo orc volta a cochichar no ouvido do mais velho, que mais uma vez nega, balançando a cabeça, mais uma vez frustrando o orc com a arma polida.

    O grisalho dá um passo à frente. “Sou Beck, chefe dos Ma’Al. Viemos até aqui apenas para confirmar algo”, ele responde, com uma voz encorpada e firme. 

    Brok solta o ar pelas narinas, exibindo um olhar cerrado. “E… o que seria?”, ele questiona.

    “O mensageiro que mandou até a nossa tribo, é verdade o que ele diz?”

    Brok bufa. “Acha que… é mentira eu ter vencido Estoratora?”, ele insinua. 

    “Não”, responde o grisalho na mesma hora. “Isso confirmamos com um grupo de Estoratora que estava patrulhando por aqui…”

    Então… o Ferrão sabia…, conclui Brok. 

    “E só estarmos de pé nessas ruínas já é prova mais do que suficiente para saber que o dragão está morto”, Beck continua. “Vim para ouvir da sua boca se o que ele disse sobre nossa terra é verdade”, continua Beck. 

    “O que ele disse a vocês?”, Brok questiona. 

    O jovem orc com o escudo dá um passo à frente. “Fui eu que o encontrei”, diz ele. “Eles disseram que poderíamos voltar à nossa terra. O único pedido era ficar caçando as garras-brancas por perto.”

    Brok acena, balançando a cabeça. “Essas… são as minhas palavras”, confirma ele. 

    “Por que?”, pergunta o mais velho. “Sua tribo não deve nada aos Ma’Al. Por que nos devolveria assim?”

    A princípio, ninguém fala, apenas a respiração pesada de Brok tem voz. “Não sou Estouratora. Não quero suas terras. Eu… as ganhei no duelo, mas sei que elas são mais úteis nas suas mãos… do que nas nossas”, responde o chefe. “Eu valorizo as minhas coisas… o que é bom e importante para a minha tribo. E se você veio até aqui só para confirmar isso… acho que você também pensa parecido.”

    Beck acena, concordando. “Mais do que você pensa”, acrescenta ele. 

    Em meio à conversa, o orc de arma polida começa a encarar Brok com uma expressão franzida. Pela terceira vez, ele cochicha no ouvido do mais velho. 

    Dessa vez a feição tranquila de Beck se enruga “Não! Eu já disse”, diz ele, como uma bronca. 

    O jovem com a arma polida, descontente, começa a rosnar alto. 

    Tanto o olhar de Brok quanto o da multidão ao redor se fecham para o orc irritado. 

    O jovem de escudo, sentindo a tensão crescer, leva a mão ao ombro do companheiro agitado. “Calma, Rorgn”, ele clama. 

    Em um gesto rápido e abrupto, o orc bravo move o braço e repele a mão daquele com escudo, empurrando-o para trás. 

    “Calma?! “Olha isso!”, exclama ele, logo se voltando para Deck. “Por que você não duela logo com ele?!”

    O mais velho bate o pé no chão, impondo-se. “Não vamos ganhar nada com isso!”, pontua ele, também irritado. 

    “Nada? Se voltarmos para a nossa terra assim, vai ser como antes”, diz Rorgn, inconformado. “Vão achar que somos fracos e que podem fazer com a gente!”

    Ah. Entendi, pensa Brok, vendo-os discutir.

    “Quando você for o chefe, vai poder tomar esse tipo de decisão. Até lá, vamos fazer como eu quiser”, Beck adverte. 

    Rorgn ergue a espada e a aponta ao orc de sobrancelhas grisalhas. “Talvez seja a hora de eu ser o chefe”, insinua ele. 

    O jovem de escudo, surpreso, olha para seu chefe sem saber o que fazer. 

    Assim como a tensão crescente, na multidão, murmúrios paralelos e urros pesados começam no prenúncio de um duelo dos forasteiros. 

    Beck também levanta sua arma, prestes a aceitar o desafio.

    Mas, antes disso, Brok bate forte com seu machado no chão.

    O som abafado da liminar golpeando a grama faz todos ficarem em silêncio. 

    Os olhares arregalados são lançados contra o chefe. 

    Brok aponta sua arma para Rorgn, desafiando-o. “Por que… já não adiantamos as coisas e você duela diretamente comigo?”, questiona ele.

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