Capítulo 097 - As katares no bosque!
Capítulo 097 – As katares no bosque!
Os três algozes chegaram finalmente ao Bosque das Folhas Densas ao entardecer, após um certo tempo de caminhada. Lavish estava na frente, seu corpo estava imponente mesmo após horas de marcha.
Todo o império de Sihêon é tão extenso que de algumas guildas para outras pareciam extensas expedições.
Dalila e Megitsune vinham logo atrás, todos com as mochilas carregadas e com as suas katares na cintura.
O sol descia entre as copas e tingia o ar com um dourado esverdeado, os algozes viram a entrada do bosque e pararam por poucos instantes.
Diferente da última vez em que o lugar fora visitado por alguém de Maut Ka Mandir, o bosque não parecia ser mais um grande emaranhado impenetrável. Daquela vez, havia um caminho.
Não um atalho improvisado, mas uma trilha clara e nítida, aberta por entre as árvores, que levava adiante. O chão estava limpo de galhos grossos, existiam pedras pequenas que marcavam as bordas. Alguém cuidou daquele acesso.
Lavish trocou um olhar com Dalila, a jovem de pele caramelo inclinou a cabeça, curiosa.
— Interessante como ficou aqui. — Dalila soltou o comentário pelo ar. — Quem está cuidando do bosque?
— A Mãe Verde, como sugerem. — Respondera o Solanki.
— Mãe Verde?
— Politicagem do Conselho dos Nobres, um intermédio entre a rusga de Milo Verde-folha e Ivan Láparo, seu nome é Chiara.
Lavish, mesmo banido como todos os outros algozes, ainda conseguia se manter atualizado com o que acontecia no reino, tanto por conta dos contatos que ainda o familiarizavam com a guilda, quanto às visitas ao mercado na praça central, que sempre rendia escutar histórias do que ocorria no momento.
Seguiram o caminho, tanto à esquerda quanto à direita, o verde fechava-se como se fossem paredes de folhas, o bosque ganhava vida à medida que o trio avançava, a luz do fim da tarde filtrava as folhas em algumas camadas, variava os tons esverdeados com fios dourados.
O caminho, por fim, desembocou em uma clareira bastante ampla. No centro dela, havia uma árvore gigante que dominava todo o espaço, o seu tronco era tão largo que vários homens de braços bem abertos não seriam capazes de cercá-la.
Os galhos se estendiam desproporcionalmente e as raízes expostas criavam nichos enormes ao redor.
Entretanto, aquela árvore fora adornada com diversas trepadeiras floridas que subiam pelo tronco. Existiam também pequenas lanternas de vidro com velas protegidas que pendiam dos galhos mais baixos.
À volta dessa base havia bancos de madeira bem rústica e vasos com algumas ervas, os algozes repararam em uma abertura no tronco, formando um arco.
Revelava o interior bastante iluminado, dentro daquela árvore existia a casa da guardiã.
A larga e espessa porta abrira de forma calma e Chiara surgiu na entrada, ela mantinha o seu manto verde que a cobria quase que por completo, ele também estava adornado: raízes vivas e folhas preenchiam o tecido, os cabelos da druida permaneciam tingidos com extratos de ervas, verde como as folhas.
— Vocês devem ser o trio que o mestre Mudamir me informou… Por favor, entrem. A caminhada de Maut Ka Mandir até aqui é bastante longa.
A Mãe Verde dissera, ela tinha apenas dezessete anos, mas o seu olhar era sereno e bastante detalhista.
Em sua simplicidade, ela carregava muita beleza. Enquanto eles passavam pelo batente, ela sorriu, estendendo as mãos em sinal de boas-vindas.
— Obrigado por nos receber. — Dissera Lavish, sua voz parecia áspera do cansaço.
Eles atravessaram a clareira e o interior do tronco era bem mais amplo: paredes suavemente curvadas, prateleiras com frutos e ervas, potes de barro.
Havia um pequeno fogão de pedra e esteiras no chão, cheirava bastante a madeira antiga, chá… Talvez seja pão fresco.
Chiara indicou os bancos e os cantis pendurados na parede.
— Sentem-se. Tenho água e comida… Vocês podem descansar aqui esta noite.
Dalila olhara em volta, a jovem da pele caramelo não conseguiu disfarçar a curiosidade.
— Você mora aqui… Sozinha? No meio do bosque?
— Sim — dissera Chiara. — Esta árvore é minha casa desde que fui nomeada guardiã…
— E não teme a isso? — Megitsune indagou.
A algoz de Eikõ falou com a voz um pouco mais suave. — Ficar sozinha em um lugar assim… Longe de tudo.
A Mãe Verde acenou com a cabeça, o sorriso não havia saído do seu rosto.
— Ah… Não. Os animais me protegem… Os que vivem nesta mata conhecem meu cheiro e a minha voz… Eu conheço os sons deles. Se algo estranho se aproximar, sei que me avisariam… Além disso, não fico sempre sozinha.
Dalila encarava o interior da casa da guardiã enquanto a escutava. Assim que ela mencionou não ficar sozinha, a algoz continuou curiosa — Como assim?
— Eventualmente, eu recebo visitas, alguns outros druidas, xamãs e patrulheiros andarilhos… Gente que atravessa o império e precisa de um teto. Eu ofereço abrigo e comida, em troca, eles me ajudam com algum trabalho.
Ela respirou fundo, observando os seus novos visitantes.
— Eles buscam águas nos poços e alguns chegam a caçar para repor as provisões… Assim, o bosque continua vivo e eu não carrego tudo sozinha.
Lavish assentiu, o algoz da pele negra conhecia o valor de uma troca justa. — Faz bastante sentido. — Dissera.
Não tardou muito, Chiara serviu chá e pão e colocara na mesa uma tigela com frutos secos e mel.
Enquanto os três comiam, ela falava do bosque.
Carregava um carinho ímpar pelo bosque, a forma na qual ela detalhava como era viver por lá, ficava visível que não era apenas um lugar para ela, era seu lar, Mãe Verde se orgulhava.
— De Maut Ka Mandir até aqui… a caminhada é mesmo cansativa, mesmo estando no mesmo império, as pernas pesam…
Dalila reclamou, com um tom mais baixo, quase como um sussurro.
— Por isso eu ofereço abrigo. Descansem… — Chiara interviu. — Amanhã vocês podem seguir com mais força. Podem dormir aqui dentro, há espaço o suficiente, nada ou ninguém irá incomodá-los.
Os algozes aceitaram, após comerem e beberem, fora quando o cansaço verdadeiramente bateu.
Mas antes de se deitarem, ou até da Chiara ir para os seus aposentos, a conversa continuou.
Lavish mantinha a rigidez de quem comandava treinos e acreditava na ordem.
— Acredito que seja a primeira vez que vocês tenham saído de Maut Ka Mandir para um contrato tão longe.
Megitsune estranhou a fala vinda do Lavish.
— Um contrato? Não precisaremos ceifar ninguém.
— Isso não significa que Maut não precisa da nossa força em ação para algo. Um contrato é um serviço nosso em prol de todos os algozes e do império.
Ele sorriu, mas com pouca emoção.
— Nossa honra é cumprir a palavra dada, e nosso poder é fazer o que precisa ser feito sem hesitar, por isso estamos aqui. — Disse o algoz da pele negra.
— Honra também é sobre não abandonar os seus… — Complementou Dalila.
Ela confiava na irmandade de Maut Ka Mandir, com toda a razão, os algozes eram muito unidos, e a quarentena que partiu do imperador os uniu ainda mais.
Megitsune ouviu tudo isso em silêncio. Ela estava aprendendo bastante com os algozes de Sihêon.
— Em Eikõ não era assim… — Megitsune cortou seu silêncio.
Todos o encararam, até mesmo Chiara.
— O poder dos ninjas eikianos era medido pela precisão e pela discrição… Quem fazia barulho, falhava.
— Aqui é diferente.
Chiara havia escutado tudo com calma, quando acreditou que fosse sua vez, sua voz saiu suave.
— Não penso em controle como vocês, eu penso como se fosse um equilíbrio… A mata não obedece a ninguém, ela apenas cresce do jeito que precisa… O que eu faço é cuidar, regar onde falta água. Podar onde está sufocando e deixar o silêncio apenas existir.
Isso alimentou um pouco mais a sinergia entre eles, os algozes percebiam a paz vinda do bosque e da druida, enquanto a Mãe Verde conseguia perceber como a realidade dentro do templo da morte era ditada por motivos que ela mesma reconhecia como efêmeros, mas compreendia sua necessidade.
— A calmaria faz bem… A paz não é uma fraqueza. É o que permite que as coisas vivam sem se destruírem… Sabe?
Ela sorria, encarando com timidez os três assassinos.
— Amo ser druida… Amo cuidar desta mata, é o que me faz acordar de manhã.
A briga entre o Verde-folha e o Láparo gerou um intermédio que o bosque merecia, afinal.
Lavish não contestou o discurso da jovem do bosque, apenas inclinara a cabeça.
Dalila sorriu de canto.
— No nosso ofício… Silêncio também é uma arma, mas é um silêncio diferente… O seu parece mais leve.
Chiara agradeceu com um aceno o comentário da garota com pele de caramelo. Megitsune voltou ao silêncio como se estivesse apenas absorvendo aquelas palavras.
A diferença entre o mundo dos algozes e o mundo da guardiã era grande, mas naquele momento não existia algum conflito, apenas respeito.
— Viemos parar aqui por um motivo. — dissera Lavish, quando a conversa esfriara. — Precisamos ir até um lugar específico dentro do bosque. O riacho turvo, que fica além da parte que você costuma percorrer… Poderia nos guiar até lá?
A Mãe Verde parou, o seu rosto sereno ganhou uma pequena sombra, ela torcera o nariz.
— O riacho turvo é um lugar muito perigoso… A água é escura, as margens são traiçoeiras e há coisas na mata ao redor que não gostam de ser vistas. Eu soube que viriam, mas o mestre Mudamir não disse necessariamente por quê… Então pergunto, qual o motivo de quererem ir até lá?
Lavish se ajeitou onde estava sentado, encarando a moça da mata.
— Missão em nome do imperador, precisamos confirmar algo… Não vamos entrar na água, só precisamos chegar perto e verificar… algo.
— Ainda assim, é arriscado… Tanto para vocês quanto para quem os guiar.
Dissera Chiara, afastando-se um passo do trio.
Dalila então inclinou-se para frente. Sua ironia habitual deu lugar a um tom muito mais sério em sua voz, ela virou-se para a jovem do bosque:
— Chiara, você mesma disse que ama esse bosque… Que cuida dele… O riacho turvo fica aqui dentro do bosque, se algo lá está ameaçando toda a floresta… Ou, se algo pode ameaçar no futuro, não é melhor sabermos?
Chiara voltou-se para a algoz de pele de caramelo, ainda absorvendo as informações.
Mas Dalila não parou:
— A torre de Crono fica no emaranhado verde, é o que dizem… Com a queda de Crono, nada pode ameaçar o bosque como antes. Mas precisamos confirmar, para a segurança do Bosque das Folhas Densas, para a sua segurança… Vale a pena nos levar até lá.
— Não iremos fazer nada que ponha a mata em risco, só precisamos ver o lugar. Se você nos guiar, voltamos mais rápido e o bosque continua sob os seus cuidados. Sozinha, você não vai conseguir vigiar tudo, nós vamos… Verificamos e partiremos. — Completou Lavish.
Megitsune acenara com a cabeça, concordando com os dois.
A jovem do bosque ficara em silêncio.
Olhou para a entrada do tronco, para a clareira escurecida lá fora, e depois para os três algozes.
A bondade sem precedentes que muitos lhe atribuíram pesou em sua decisão, ela respirou fundo.
— Está tudo certo… Eu guiarei vocês até o início da trilha que leva ao riacho… Mas é uma trilha abandonada. Ninguém a usa há tantos anos… De toda forma, após um certo ponto, vocês seguem sozinhos, eu não irei até a água.
— Combinado — disse Lavish.

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