Capítulo 096 - Atendendo ao chamado!
Capítulo 096 – Atendendo ao chamado!
Nos textos nos quais a necromante estudara, isso tinha um nome.
O plano Etéreo dividia-se em diversas regiões.
Etéreo Limítrofe é a fronteira mais próxima ao plano material… É a faixa onde o mundo físico ainda se reflete, onde a magia pode tornar o invisível muito bem visível.
A paisagem que ela via era o reflexo da cidade selo de Baartzabel tal como existia, ou existira.
No outro lado, as ruínas que via correspondiam a ruínas reais, a geometria mantinha-se reconhecível.
Poucas entidades permanecem ali por muito tempo, a maioria das coisas que habitam o etéreo preferem o Profundo… Onde a caça é mais rara, mas a liberdade é maior.
Limitados na Limítrofe, viajantes e fantasmas ocasionais se cruzam, então, em comparação com as profundezas, era parcialmente seguro.
Mesmo assim, sendo só consciência, qualquer trauma ou encontro indesejado poderia quebrar a sua mente…
Um susto, ou uma visão… Até mesmo um “toque”.
Bastava que a sanidade de Kassandra rachasse e ela ficaria presa naquele lugar para toda a eternidade, ou até algo ou alguém a devorasse.
Era uma preocupação bastante genuína, a necromante poderia enlouquecer se algo a atingisse. A única saída que ela conseguiu recorrer foi seguir em frente, andar por Baartzabel até encontrar alguma coisa que ela pudesse puxá-la de volta ao mundo físico.
Um portal, um objeto que ainda guardasse ligação com o plano material ou até mesmo a própria orbe, se ela estivesse em algum lugar daquele reflexo da cidade-selo.
Em um começo de desespero, Kassandra aceitaria até encontrar alguma criatura que pudesse ouvi-la e ajudá-la, mas as chances disso acontecer eram mínimas.
A cidade-selo em ruínas era o único mapa que ela tinha, estava presa no plano etéreo sem sequer entender em que situação se encontrava o seu corpo físico.
Ao menos ela compreendia: enquanto ela continuasse enxergando pedras e as ruas, estava no Limítrofe… Se a paisagem se dissolvesse em névoa pura, uma escuridão que foge do natural, então ela teria ido longe demais.
Além do Limítrofe, existia o Etéreo Profundo, são névoas caóticas e infinitas, onde a geografia do mundo físico praticamente não existe, ou faz diferença.
Lá era onde as entidades antigas e corrupções dormem e vigiam.
Sem mapas, sem norte ou sul. Apenas uma névoa e o que nela habita. O Plano Etéreo, em um conjunto, coexiste entre diversas dimensões.
Um intervalo.
Um lugar de passagem que, para alguns, é prisão ou até mesmo a própria cova.
Diversos xamãs e místicos descrevem essa travessia como um mergulho. Quem fica no Limítrofe ainda vê o mundo. Quem desce para o Profundo perde o rumo e pode nunca mais encontrar o caminho de volta.
Um lugar de névoas rodopiantes e névoas obscuras, um local onde o tempo e o espaço se dobram.
As direções perdem o seu sentido e o que era perto pode ficar tão longe.
Viajantes que se aventuram no Profundo sem preparo raramente voltam intactos, voltam falando fragmentos, voltam falando sem lembrar quem eram.
A mente humana não foi feita para esse local.
“Que ótimo…”
Kassandra não tinha intenção de se aproximar do Profundo, ficaria apenas na borda, na cidade-selo em ruínas e procuraria qualquer âncora possível para o plano material.
Nos grimórios que a Morta-viva lera, o Limítrofe era comumente chamado de antecâmara dos mortos, em alguns trechos até foi apelidado de espelho quebrado do mundo.
A prodígio da guilda sabia que nomes importavam bem menos do que as regras: não se afastar do que ainda parece corpóreo.
Ela permanecia sua caminhada, as ruas de Baartzabel desenhavam na sua frente em tons escalonados de cinza e o branco sujo, as pedras polidas estavam rachadas e cobertas por uma película que ela queria imaginar que fosse uma poeira muito antiga.
Passando pelas barracas tombadas, observando os restos de tecido de madeira, ela procurava por algo que destoaria, talvez não devesse estar ali.
Em alguns pontos da cidade, degraus levavam a pequenas praças e edifícios que outrora poderiam ter sido templos, talvez armazéns.
Tudo no mais profundo silêncio, nenhum passo além do da jovem de cabelos cobre, embora o som dos seus pés não ecoasse como no mundo material, era como se o ambiente estivesse absorvendo o ruído.
Os vultos continuavam lá, acompanhavam-na à distância, sem se aproximar.
Kassandra mantivera o ritmo lento, o corpo reagia como se ela estivesse submersa, nem se ela pudesse, correria.
Até porque, escolher correr naquele lugar poderia atrair atenção, se isso fosse interpretado como medo…
Ela não sabia dizer se os seus espectadores eram hostis ou apenas almas curiosas e ela definitivamente não desejava descobrir a resposta dessa dúvida da pior forma possível.
Ela passara por um cruzamento onde três ruas se encontravam, no centro havia uma base de pedra que sustentava o que poderia ter sido um dia um mastro ou um poste.
Nenhuma bandeira.
Apenas alguns fragmentos de tecido escuro. À esquerda, no entanto, uma sequência de arcadas levava para um pátio interno. Quando Kassandra passou para o interior, descobriu árvores secas e bastante retorcidas.
Ela permaneceu seguindo em frente, não queria se perder em lugares fechados.
O brilho branco ainda não aparecera, o mesmo brilho que ela havia conjurado pela orbe, então ela continuava procurando.
Ela precisava pelo menos de um ponto de referência, algo que a ligasse ao caminho de volta.
Encontrara uma bacia rachada e vazia, era uma fonte seca, rodeada por pedras desalinhadas de forma caótica, seguindo o arco quebrado, guiada por restos de relevos que lembravam símbolos dos quais ela desconhecia, Kassandra encontrou uma fileira de casas que exibiam portas arrombadas e janelas escuras ou quebradas.
“T A V E R N A D O S E L O”
Ela deduziu, pelo pouco que estava borrado nos relevos.
Ela não conseguia ler com clareza, as formas volta e meia se dissolviam em uma névoa fina.
O céu, se é que aquilo poderia ter sido chamado de céu, era apenas uma mancha escura e contínua na penumbra. Sem sol, sem lua.
Apenas aquele crepúsculo fixo, a Morta-viva não sabia há quanto tempo ela estava caminhando.
O tempo ali parecia não seguir nenhuma ordem conhecida.
Em um beco lateral, a garota viu o que restava de uma carroça, rodas quebradas e madeira apodrecida.
Nenhum animal.
Apenas o esqueleto do veículo como mais um dos vestígios de destruição.
Ela seguiu pela rua principal, em certos trechos as pedras brancas estavam enegrecidas, como se tivessem sido embebidas por fogo ou trevas, já outros pontos mais adiante, rachaduras profundas cortavam o chão, ela evitava pisar nas fendas.
Não sabia se poderia cair, se era possível cair.
Enquanto tudo isso acontecia, os vultos permaneciam à distância. Às vezes, um deles parecia chegar um pouco mais perto.
Kassandra reparava, olhava discretamente, preferia manter todos eles no seu campo visual, sem desafiá-los.
Era uma mortal, embora apenas em consciência, não existia força de se defender em um lugar como esse.
Ao fundo de todo aquele largo, um edifício maior conseguiu se destacar.
Mais alto que as casas em volta. Colunas sustentavam um frontão completamente desgastado, existiam diversas inscrições e relevos na pedra, claramente ilegíveis.
Mas a arquitetura era reconhecida, definitivamente aquilo era um templo.
Kassandra atravessara o largo, os pés não faziam ruído. O brilho que cortava a escuridão parecia vir de baixo, em algum ponto atrás ou sob o templo, isso atraiu completamente a atenção da necromante.
Ela contornara a construção e viu… Uma escada descia para as profundezas. A entrada era bastante estreita e os primeiros degraus já mergulhavam na sombra.
Ela recuaria, mas conseguia ver mais abaixo: o branco pulsava.
Era o mesmo branco da orbe.
Associando essa luz ao caminho de casa, completamente atraída por aquela cor, começou a sua descida.
Os degraus eram muitos e a descida era longa e bastante íngreme, cada passo a levava para mais fundo, para o subterrâneo da cidade. As paredes laterais estavam se fechando com uma pedra escura e, à medida em que ela descia, a luz do largo sumia nas suas costas. Na sua frente, o único ponto que ditava o seu caminho era o brilho branco da orbe.
Kassandra não sabia o que encontraria no fim. Sabia apenas que precisava seguir aquele clarão se quisesse uma chance de voltar.
Essa escadaria não tinha corrimão, de tempo em tempo, ela encostava a mão na parede.
Uma parede fria e levemente úmida.
Kassandra não tremia. O corpo de consciência não reagia ao frio como o de carne. Mesmo assim, uma sensação de profundidade e de isolamento crescia. Os vultos pareciam não acompanhá-la na descida. Nenhuma sombra nos degraus atrás dela.
Ela estava sozinha naquela rampa que mergulhava no subsolo de Baartzabel.
Assim que a escada terminou, o chão nivelou-se prontamente, ela avistou um corredor curto que a levava para uma abertura um pouco mais ampla.
Seguindo esse caminho, percebera a pedra nos seus pés ficando cada vez mais lisa.
Quando o corredor se abriu em uma câmara ou galeria mal iluminada, o brilho branco vinha de algum ponto à frente, ainda invisível. Então, uma voz soou. Não vinha de nenhum ponto que ela pudesse ver. Parecia vir de todo o espaço ao redor. Das paredes. Do chão. Do ar que não era ar. O som não tinha direção. Tinha apenas força.
— Kassandra…
Fora uma voz muito imponente, muito poderosa.
Carregava um eco praticamente sobrenatural que se espalhava pelas paredes e pelo chão.
Era longe de ser apenas um sussurro, nem a voz de um dos vultos.
Era algo pesado, antigo, poderoso.
Dentro do plano etéreo, onde todos os sentidos enganam e o tempo não segue sempre as mesmas regras, aquela voz foi, definitivamente, a primeira coisa totalmente clara e objetiva desde o clarão da orbe que havia arrancado ela do salão real.
A necromante parara.
Os olhos do Exício fitaram a penumbra que se estendia na sua frente.
O nome havia sido dito para ele, alguém ou algo a conhecia e a chamava.
No plano etéreo, onde uma mortal era apenas uma fragrância, uma consciência e um alimento em potencial, aquela voz parecia, por mais estranho que fosse, o fim de um caminho.
Ou o começo de outro.
A Kassandra sequer se moveu assim que escutou.
Esperou.
O eco do seu nome ainda estava reverberando nas pedras.
Ela nunca havia sentido tanto medo quanto naquele instante.

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