Índice de Capítulo

    — Caramba, a Ordem estava ferrada! — comentou Yami, saindo do banho e secando os cabelos rapidamente com o calor de sua aura.

    Normalmente, um exorcista emitia um calor de 45°, à temperatura de uma estrela. Houve casos em que alguns, pouco sortudos, mataram pessoas só por estarem próximas demais.

    Continuando…

    Já vestido com o sobretudo, caminhou até a cozinha com o smartphone na mão. As notícias recentes estavam estampadas em todas as manchetes: a síndrome da escuridão ultrapassava mil infectados, o assassinato do velho, o terremoto e a destruição em Hiragana. Tudo o que havia ocorrido nos últimos dias… e ele estava lá, com mais uma missão mal falada.

    Mal se importando… como de costume, deixou o aparelho sobre a bancada de mármore enquanto as notificações continuavam pipocando na tela. Com um olhar cansado, pegou a frigideira abandonada há dias e a jogou na pia. Em seguida, puxou uma jarra do armário sob a bancada e a encheu com água da torneira, ajustando a força ao máximo.

    Calma! Murmurou em pensamento, enquanto o aparelho insistia em vibrar com mensagens incessantes.

    Azar o dele se continuasse…

    Ligou o fogão, girando o botão da primeira boca, que acendeu com um clique. Colocou a jarra sobre o fogo e mergulhou dois ovos na água, esperando que ela fervesse.

    Ambos, ele apanhou de uma bandeja que resgatara há dois dias, prestes a vencer.

    O que não estava para vencer, aliás, já vencera.

    — Faz dois dias que não como nada! Tudo por sua culpa… essa sua pressa em fazer tudo!

    Frustrado, encarou o movimento circular da água, que começava a ferver como um redemoinho.

    — Faz dois dias que nós não comemos nada… você quis dizer! — resmungou Azaael, surgindo de repente e arranhando as garras no mármore. Sua forma sombria se materializou diante dele, exalando uma aura metafísica quase palpável no ambiente. Era como se estivesse ali, inteiramente, não apenas como uma projeção da mente perturbada do rapaz. — Ehr, que mentiroso! Quem estava com pressa era você!

    — Claro… você fode com meu ânimo para tudo, seu otário!

    O jovem estendeu a mão para pegar o smartphone novamente, mas hesitou. Seus dedos permaneceram suspensos no ar por um momento antes de ele se endireitar e soltar um sorriso enviesado.

    — Por que você está assim? Dessa forma? É a falta dos meus remédios?

    — A matéria não está mais em harmonia com a metamatéria… O desequilíbrio é tão intenso que nossos corpos parecem estar em colapso. Eu creio! — respondeu, como se degustasse cada palavra, misturando a provocação inerente ao seu ser com a análise cuidadosa da situação.

    Esse jogo tinha sua graça para ele. Oh, deidade sombria, com tempo de sobra para gastar…

    — Talvez seja só efeito colateral da bagunça que você causa — rebateu, abrindo a geladeira e puxando uma bebida energética. Tomou um gole rápido, ignorando o gosto artificial de morango. Neste mundo, já não existiam mais pés ou mudas. — Pelo visto, você já está se recuperando bem, não é?

    — Ah, pode ser…

    O tédio bateu à porta.

    Então, pegou o smartphone pela terceira vez, mas, ao ver o mar de notificações, desistiu de abrir qualquer mensagem e o devolveu à bancada.

    Sem paciência…

    — Querendo mais energia? — comentou, lendo a embalagem. — Essa garota está mexendo com você mais do que devia… — acrescentou, enquanto caminhava até a janela do apartamento.

    Ele entreabriu a cortina, permitindo que a luz da aurora iluminasse seu rosto sombrio.

    A fumaça foi expelida… Aqueles que vivem nas sombras não são bem-vindos a caminhar na luz!

    — Pode ser… Não sei ao certo. Faz tanto tempo que não interajo com outro ser humano… — disse, desviando o olhar para a água que fervia no fogão.

    Bicho masoquista…

    — Hã?

    — Nada…

    — Hm… Sobre minha materialização… Talvez o tempo que estou aqui tenha afetado este lugar. Humanos não criam barreiras sobrenaturais com sua fé? Quem sabe isso não está relacionado… uma espécie de centro de aparição! — sugeriu, com uma ponta de curiosidade. — Aliás, por que isso está te incomodando agora? Quando trocamos, eu pude fazer o mesmo…

    — Foi? Ahn… acho que não me liguei… Talvez eu tenha misturado os pensamentos. Enfim, falando da menina… Talvez ela me tire da rotina ou só me deixe mais irritado e menos entediado… uma troca equivalente, não acha? — respondeu, cortando abruptamente a linha de raciocínio.

    Sua mente sempre dava um nó quando pensava demais.

    Sentou-se, tomando mais um gole, enquanto a criatura o observava, divertida, achando graça na maneira como ele refletia sobre a situação em vez de se exasperar.

    — Quando algum demônio me irritava, eu o matava ou o espancava até ele desistir!

    — Matava até desistir? Se ele morreu…

    Disse isso com tanta sinceridade que a entidade quase deixou o queixo cair.

    — Quê? TDAH atacando?

    Quando percebeu, suspirou, envergonhado.

    — Esquece… Ehr… Quer que eu faça isso? — hesitou, incrédulo por sequer considerar a ideia… Afinal, sempre esperava o pior do demônio. Quer dizer, é um demônio… ué…

    — Não, só estou compartilhando uma curiosidade entre amigos… sabe?

    — Lá vem… — resmungou, emburrado.

    — Vamos lá, Chatosaki, tem tanto medo de fazer um amigo? — sorriu e, enfim, se virou para o exorcista. Sua face, ainda se regenerando dos danos causados pela luz, estava longe de estar completamente recuperada.

    Já que drenava sua energia presa no subconsciente do rapaz, quando fizeram a fusão, sua essência foi repartida em três partes: alma, corpo e mente.

    — Amigo? Você é um demônio encrenqueiro! Qual é, Azaael, torne essa manhã menos irritante. Já basta a Shirasaki… Por que você não fica quieto, hein? — reclamou, revirando os olhos.

    — Ah, que ciúmes! Então ela é a única que pode te incomodar?

    Sendo dramático até demais com algo tão simplório…

    Yami bateu a lata na mesa e se levantou no mesmo instante, indo até o fogão para desligar o fogo. Jogou os ovos cozidos em um escorredor, e o vapor subiu, envolvendo seu rosto em calor.

    — Vá catar coquinho!

    Quem era pior? Esse demônio entediado ou aquela garota? Pensou, olhando para o teto e soltando um suspiro cansado. Tenho certeza de que já aturei Azaael por tempo demais… Talvez Shirasaki não seja tão ruim assim. Pelo menos, é mais agradável de se olhar…

    Mas… hoje ele estava um saco, como um peso cheio de pedras segurando seus pés.

    — Pervertido… — zombou, segurando seus ombros e sussurrando próximo ao seu ouvido, após flutuar como um fantasma.

    O hálito de dragão era inconfundível.

    — Caramba, escove os dentes primeiro! — reclamou, irritado, deixando o escorredor cair no chão ao tentar se desvencilhar.

    Ele chegou a morder os lábios de raiva!

    — Você poderia ser menos invasivo?

    — Ah, droga, lá se foram seus ovos… — desapareceu em uma nuvem de fumaça negra, rindo.

    Mas o vai e vem da rotina o puxava… Não tinha mais tempo para comer, a exorcista estava ligando novamente para ele. Já estava na hora!

    — Merda!

    Em menos de vinte minutos, pegou o aparelho, desligou na cara dela, saiu de casa, ligou o carro e seguiu pela cidade. Enquanto dirigia pela via principal, notou um túmulo no meio da rua, cercado por pessoas que o encaravam com hostilidade, como se ele fosse o inimigo.

    Os opositores à Ordem, que há muito tempo exigiam sua regulamentação e a intervenção do Império em suas atividades, já erguiam faixas e placas de protesto com a assinatura dos Iluminados… uma espiral.

    Mal-agradecidos…

    Ele ajustou as mãos no volante, estacionou o carro e tirou o aparelho do bolso, tentando responder a Amai. Antes que conseguisse, percebeu a garota parada bem à frente do veículo, sorrindo brilhantemente.

    Por pouco tempo…

    — Olha o smartphone, poxa! — exclamou, irritada, contornando o veículo. Abriu a porta do passageiro com a força de um ogro e se sentou ao lado dele, mal-encarada.

    Caramba… então assim é a Shirasaki irritada?

    Ela vestia uma blusa preta colada, uma saia vermelha plissada acima dos joelhos e um crucifixo pendurado no pescoço.

    — Ah, eu estava prestes a responder agora mesmo… — Ele se olhou no retrovisor enquanto falava. — Bebi tanto que fiquei lesado… Por sua culpa! — tentou se justificar, algo incomum.

    — Estava, é? Sei… Mas não vamos discutir isso agora, azedinho! — rebateu, mandona, batendo a porta com tanta força que fez o carro sacudir. — Tudo pronto, parceiro? — questionou, percebendo o olhar fixo dele.

    — Estou falando sério…

    — O que foi? — Ela cruzou as pernas.

    — O quê? Nada… Ehr, e essa roupa?

    — O que foi? Não gostou? — provocou, aguardando o momento certo para atacá-lo com uma resposta afiada.

    — Não é isso. E seu uniforme? Não é obrigatório usá-lo em serviço?

    — E daí?

    Isso o fez recuar. Onde estava o valente e desbocado agora?

    — Chata…

    Ele percebeu a bolsa dela, cheia e exalando um aroma de cereja. Só então notou como o cheiro estava impregnado em todos os cantos do carro.

    Que cheiro bom…

    Desviou o olhar rapidamente.

    — Gostou do perfume, ao menos?

    Uma risada suave e atraente ecoou enquanto ela cobria a boca com a mão.

    — É bom… — murmurou, desconcertado com o clima e, enfim, acelerou o carro.

    Não se passaram muitos minutos até que ela voltasse a falar, após um suspiro profundo… A garota de cabelos vermelhos não deixaria nada esfriar, nem o clima.

    — Bem, aceitei uma missão de nível quatro… Íamos lidar com uma entidade Calamidade na Floresta da Morte. Estava pendente há anos. Ninguém se atrevera a aceitá-la… — comentou. — Até tentaram fazer uma região de campi lá, mas em vão… Muitas mortes em semanas…

    — Devia ser porque havia uma legião de demônios… não?

    — E isso não era bom? — Eles se olharam quando ela falou sem pensar. — Quero dizer… Um exorcista de verdade deveria querer exorcizar o máximo de demônios possível! Não? — retrucou, dando um leve cotovelo no braço dele, o que ele odiava.

    — Talvez… Mas parece complicado para uma única pessoa, não acha?

    — Para mim, é tranquilo. E para você?

    — Convencida… Bem, não sei. Nunca estive tão encurralado ou… — Ele parou, lembrando-se de Azaael quase tirando sua vida há mais de um ano.

    Um arrepio genuíno o percorreu… Mas a verdade era que nunca sentira, antes ou depois, estar tão encurralado.

    — O que foi?

    — Nada! Só… Vamos logo para essa tal Floresta da Morte! — Determinado, já estava fora de Nova Tóquio em minutos, algo que raramente fazia.

    — É assim que se fala! Vamos chutar umas bundas demoníacas!

    Ele revira os olhos.

    — Só não morre no processo, “exorcista de verdade”…

    O carro acelera pela estrada deserta, deixando para trás a civilização e mergulhando no limiar entre o mundo humano e o sobrenatural.

    E assim, a primeira missão da dupla começava ali, naquele momento!

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