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    “Às vezes sinto que há alguém dentro de mim… ou talvez seja só eu… fragmentado demais para caber em um único nome.

     

    ✧ ✞ ✧

    Ao despertar por completo, Yamasaki sentiu o corpo vibrar.

    Uma agitação profunda, como se os ecos daquele sonho ainda estivessem pendurados em sua pele.

    A mente, turva, parecia um vidro embaçado: nada entrava, nada saía, tudo apenas se acumulava.

    Lentamente, arrastou-se até a beira da cama. Os pés tocaram o chão frio como se testasse a realidade, e a respiração veio curta, irregular, prisioneira de um peito que insistia em não acreditar no próprio despertar.

    Já pensava no martírio como destino final.

    Sentou-se.

    As mãos, sem comando, tremiam levemente. Os olhos vagavam pelo quarto.

    Tudo ali parecia frágil demais, quase uma ilusão produzida pela mente que, dia após dia, cedia um pouco mais ao peso do seu transtorno.

    — Isso não sou eu… — o sussurro escapou sem intenção,
    como a confissão de alguém que teme ouvir a própria voz.

    Reuniu três comprimidos com as mãos. A textura fria do blister pareceu mais real do que o próprio mundo.

    Levantou-se devagar, caminhando até a cozinha… não por convicção, mas pela necessidade desesperada de se ancorar em qualquer coisa que ainda o mantivesse inteiro.

    A ventania se debatia violentamente nas janelas de seu apartamento.

    Dias bonitos já não existem em Crea.

    ✧ ✞ ✧

    Ainda meio sonolento, embora duas horas já tivessem passado desde que despertara… agarrou um copo e o encheu de água, quase deixando-o cair pela falta de firmeza.

    Glup. Engoliu o medicamento, e em seguida esvaziou o copo de uma só vez, como quem tenta afogar a própria realidade.

    Ao terminar, passou o braço pelos lábios, num gesto automático, quase infantil.

    Seus pulsos e o pescoço exibiam manchas roxas, marcas silenciosas, testemunhas e vítimas dos delírios que o haviam consumido durante o sono.

    Seu olhar carregava um peso estranho, denso como uma cortina de ferro prestes a desabar.

    A boca, outrora seca demais, ainda ardia com a falta de água,
    e ele se movia como um cadáver que teimava em recusar a morte… um zumbi tentando recordar que, em algum tempo distante, já havia sido vivo.

    Ao apoiar o copo sobre a pia, uma sensação ruim o atravessou… seca, súbita, como uma lâmina que se arrasta por dentro.

    O corpo tremeu sob o calafrio, e uma dor aguda latejou no centro da cabeça, um sino rachado.

    Virou-se, levando a mão ao rosto, tentando distrair a mente, sufocá-la, enquanto a esquerda buscava apoio no mármore que dividia a sala da cozinha.

    Entre os dedos, seus olhos recaíram novamente sobre o cheque.

    Droga… Continuo sem smartphone. Será que estou viciado nessa merda?

    O pensamento surgiu como um impulso irresistível, uma fagulha indesejada… mesmo ele não querendo sair de casa, mesmo o mundo lá fora sendo só ruído e peso.

    Sem tomar café, ou sequer pôr algo no estômago, saiu apressado de casa.

    O telefone… que começara a tocar enquanto ainda se preparava, ficou para trás, ecoando pelo apartamento vazio
    como um lamento preso entre paredes.

    Determinado, ou pelo menos tentando acreditar que estava, decidiu sacar o cheque e enfim comprar o tão esperado smartphone.

    Acelerou pela avenida Kiseki, rumo ao BPA, o Banco Popular de Aija, situado entre seu distrito
    e a rua comercial de Sangai, sempre viva, barulhenta, algo que detestava.

    O carro beirava o limite de velocidade, o motor rugindo como se pedisse trégua.

    Cortou o asfalto até a parada final e saiu de lá com o dinheiro nas mãos e a irritação latejando como uma ferida aberta.

    Juros de saque… juros de sei lá o quê. O que esses malditos do Império fazem com todo esse dinheiro?

    A cada vinte metros, um buraco na rua. Ou um morador de rua definhando na escuridão.

    Mas… seguiu adiante.

    Não por placas ou nomes, mas guiado pela memória visual,
    ainda útil, ainda fiel.

    Ao chegar ao destino, estacionou em frente à loja.

    Foi então que percebeu: um carro semelhante ao seu já estava ali, parado à frente.

    A coincidência pesou. E, por algum motivo, o lugar pareceu menor do que deveria ser.

    Será que outro exorcista se deu mal? Ah… tanto faz!

    O pensamento atravessou-lhe a mente com a mesma indiferença de quem observa um cadáver na chuva.

    Ao deixar o limiar, a luz o atingiu no instante seguinte… um golpe branco e absoluto, como se uma lanterna tivesse sido acesa dentro de seus próprios olhos, rasgando a escuridão onde sua consciência se escondia.

    A mão subiu por instinto, erguendo um escudo inútil contra o brilho.

    Mas não houve surpresa.

    A cada dia que passava, tornava-se menos estranho à entidade que habitava seu ser… e mais distante do humano que um dia acreditara ser.

    A luz já não o faria como antes.

    O que doía era o que ela revelava.

    — Que desgraça…

    Escapou-lhe num sopro, mais como um lamento do que como uma palavra.

    Avançou alguns passos, buscando a sombra como feto que retorna ao útero do mundo.

    Mal havia deixado a claridade para trás e já sentia o velho peso da irritação… não contra Aurora, ou o dia, mas contra a própria existência que insistia em se fazer notar.

    Como se o universo, ao iluminá-lo, estivesse lembrando-o de algo que ele preferia esquecer.
    Era um eonicida, assassino do presente e do futuro que nunca chegaria a existir.
    Não matava pessoas.
    Mas continuações. Encerrava possibilidades antes que ousassem amadurecer, cortando o tempo pela raiz, como quem apaga uma estrada antes mesmo do primeiro passo.
    Sem perceber, deu por si diante da loja.

    Ao baixar a mão, um déjà vu atravessou-lhe a mente: a fachada em tons de azul e cinza — as mesmas cores que vira cerca de um ano antes.

    Na vitrine, os modelos mais recentes reluziam em destaque,
    impecáveis, quase insolentes a sua cômoda mesquinharia.

    Caramba… Essas empresas estão cada vez mais apertando meu bolso, e essa luz só piora a situação…

    Entrou apressado.

    Deslizou entre as mesas de demonstração, olhares refletidos em telas, até encontrar, enfim, o modelo que já trazia em mente.

    Custando mil e duzentos ienes, o mesmo valor do anterior, o arrancou sem pensar duas vezes, puxando-o ainda entre os fios conectados.

    Os vendedores, já acostumados com aquele jeito brusco de agir, mal se importaram.

    Mas alguém, à sua frente, achou a cena tudo, menos comum.

    — Incrível! — comentou uma voz leve — Não fazia ideia de que ainda existiam Varkhûn entre nós.

    Era uma bela garota ruiva.

    Os cabelos, intensos como fogo recém-acesso, balançaram. Quando ela os lançou para trás com um gesto displicente da mão.

    Os olhos cor de mel pousaram sobre o exorcista com uma doçura provocativa, e o sorriso que surgiu em seus lábios brilhou como Aurora no horizonte.

    Ele, por outro lado, sentiu-se deslocado.

    Sem jeito.

    Como uma sombra fora de estação diante daquela confiança luminosa.

    Se ela era o dia mais radiante do verão, ele era o pior dos invernos.

    — Hã!? Varkhûn? Palhaça… — murmurou, soltando um suspiro fundo antes de enfiar a mão no bolso. Retirou o dinheiro e o estendeu, encarando fixamente um dos rapazes no balcão — Pega aqui, rapaz…

    Aos olhos dela, parecia apenas um imbecil mal-humorado.

    E, curiosamente, isso só tornava a cena mais interessante.

    Confuso, o atendente apontou para si, em dúvida.

    Ele assentiu com a cabeça, seco.

    A paciência já havia se esgotado, e a irritação começava a se denunciar no semblante.

    Por isso detesto sair de casa…

    — Além de Varkhûn, é meio idiota. Agora entendi por que nós temos tanta má fama… — comentou, com naturalidade mordaz. Em seguida, estalou os dedos e girou levemente o corpo, lançando o olhar por cima do ombro — Mas quem sou eu, né? Palhaça, como sou! — completou, agora mirando a atendente que organizava os smartphones sobre a mesa.

    As palavras pareceram confundir o rapaz, que, mais uma vez, voltou a atenção para ela.

    — Nós? — estreitou os olhos — Não me diga que você é uma exorcista…

    Observou-a dos pés à cabeça sem qualquer pudor.

    A saia preta plissada descia abaixo dos joelhos; a blusa de lã vermelha contrastava com a pele clara.

    Nas mãos, de unhas pintadas de vermelho, segurava uma bolsa tão cara quanto seu carro.

    — …E está vestida assim?

    Como se aquela combinação, poder e aparência fosse, para ele, uma afronta direta às expectativas do mundo.

    — O que foi, hein? — fitando-o de lado por um instante, antes de devolver o olhar com a mesma intensidade — Desculpe-me, mas não costumo circular por aí usando uniforme.

    O tom era debochado, mas o sorriso jamais deixou seu rosto.

    — Isso te desagrada, senhor?

    Em resposta, surgiu nele apenas um sorriso forçado, duro, nada contente.

    Os punhos estavam cerrados, a ponto de quase esmagar o aparelho entre os dedos.

    — Deveria considerar calar-se…

    — E você? — Sem perder o ritmo — Já pensou em usar uma focinheira?

    A ironia veio leve, afiada.

    Os lábios rosados, delicados como pétalas de sakura, brilharam ao pronunciar cada palavra.

    Ao redor, a perplexidade se espalhou.

    Clientes e funcionários trocaram olhares incertos, envolvidos por uma discussão que parecia incompreensível, deslocada —
    algo maior estava em jogo ali, algo que nenhum deles tinha contexto suficiente para entender.

    A necessidade de conversar.

    A típica carência que nos alcança sem aviso.

    — Está bem, está bem… — murmurou, erguendo as sobrancelhas enquanto soltava um suspiro fundo. Virou-se e foi até o balcão — Cobre isso, por favor! — disse, apressado.

    — Claro, senhor… — respondeu o atendente, acomodando o eletrônico na caixa, depois dentro de uma sacola de papel com o logotipo da loja — São mil e duzentos ienes. Como gostaria de pagar?

    Ele deu de ombros e encarou o rapaz, percebendo pelo canto do olho que a garota ainda o observava — o reflexo dela surgia no espelho da mesa da bancada… atenta, curiosa.

    — Vai ser em dinheiro… — respondeu, abrindo a carteira de couro. Retirou duas notas de mil ienes, estendeu-as sem cerimônia e, no instante seguinte, já agarrava a sacola, pronto para sair dali — Fica com o resto!

    A surpresa foi imediata.

    O atendente piscou uma vez, depois sorriu, constrangido, como quem não esperava gentileza de alguém tão áspero.

    Em instantes, avançou.

    Os cabelos voavam às suas costas em movimentos ondulantes, tudo isso diante dos olhos caramelados da garota, que o acompanharam sem piscar.

    Um arrepio percorreu-lhe o corpo e, de súbito, emergiu daquele estado de encanto.

    Riu, nervosa, quase sem perceber, enquanto ouvia os passos de Yamasaki ecoarem pela loja… pesados, ritmados, como o trote distante de um cavalo.

    O som ainda ressoava em seus ouvidos quando, num gesto suave e decidido, se adiantou antes que partisse por completo, lançando a provocação com um meio-sorriso:

    — Oh, zangado… qual é o seu nome?

    — Ah, me chamou de quê? — respondeu, detendo-se por um instante, notando o brilho curioso nos olhos dela.

    — Não enrola!

    Assentiu levemente com a cabeça, os dedos firmes na alça da bolsa, quase ansiosa pela resposta.

    — Yamasaki Yami… — seco — Satisfeita?

    E, sem esperar reação, virou-se e saiu abruptamente, batendo a porta de vidro com força suficiente para fazê-la vibrar, quase ceder.

    Ela ficou ali, imóvel, ainda perplexa, e murmurou para si mesma, com um suspiro misto de frustração e diversão:

    — Nem vai perguntar o meu… Ah…

    A única resposta que recebeu foi o som dos passos dele se apressando para longe, engolidos pelo ruído da rua.

    — Que garoto maldito!

    Da vitrine, o observou entrar apressadamente no carro.

    Antes mesmo de manobrar, ergueu o olhar e a fitou, uma expressão meio irritada, dura, quase defensiva.

    Amargo como café.

    Ainda assim, havia algo ali.
    A essência carrancuda dele parecia tê-la encantado, como se aquele comportamento áspero tivesse acendido uma curiosidade incômoda, irresistível.

    Enfim… homens.

    O rugido do motor ecoou como o bramido de um leão.

    A cena, porém, não passava despercebida: Masaru Jigoku a assistia pela tela do smartphone,
    ainda dentro do elevador.

    Ao seu lado, o “cabeça de ovo”.
    Juntos, completavam a descida até o vigésimo segundo andar — o primeiro de muitos níveis que levavam aos quartos reservados aos exorcistas em busca de abrigo.

    As portas se abriram.

    O corredor se revelou branco demais, asséptico como o de um hospício, ladeado por portas de madeira clara.

    O lugar mais odiado pelos faxineiros.

    — Vai lá! — disse o pentelho, sem tirar os olhos da tela, entretido com um documentário — Eu te encontro na saída, beleza?

    — Certo… — a voz saiu oscilante.

    Ele deu um passo à frente, lançou-lhe um último olhar carregado de ansiedade.

    — Romero… — sussurrou, quase para si, enquanto as portas metálicas se fechavam às suas costas.

    Antes que o silêncio se completasse, Masaru ainda deixou escapar o gracejo final:

    — Boa sorte lá, cabeça de ovo!

    O elevador seguiu seu curso.
    E, com ele, a sensação de que nada dali em diante seria simples.

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