Capítulo 107 - É verdade, quer dizer, às vezes não!
Arthur, sentado na escada de sua casa, resmungava para o seu mais “novo” smartphone enquanto o frio da noite começava a se fazer sentir. A cada toque no botão verde de chamada, o tom de ocupado ecoava no aparelho, e ele revirava os olhos em frustração.
— Alekseeva, por que você esqueceu de carregar o celular? Ah, que saco…
Ele repetiu a chamada pela décima vez, cada tentativa sendo mais desanimadora que a anterior. A espera já durava meia hora, e a paciência de Arthur estava se esgotando rapidamente.
E finalmente, a caixa postal teve tempo para se manifestar, ele suspirou, sentindo-se derrotado. Pegou uma respiração profunda antes de deixar uma mensagem:
— Oi, amor, tudo bem? Aqui é o Arthur. Consegui um smartphone com o Yamasaki. Tive que lavar o carro dele, mas… valeu a pena! — Ele sorriu, um pouco bobo. — Eu realmente queria ouvir sua voz agora… Bem, então não se esqueça de me ligar quando puder. Te amo!
Sua voz ecoou pela rua vazia e deserta, e então ele se ergueu, lançando um olhar desanimado para a porta enquanto um sorriso frouxo se formava em seus lábios.
Faltavam poucos minutos para o novo dia, quando as cinzas seriam reveladas diante de seus olhos.
Enquanto Arthur se preparava para dormir, alheio ao que o aguardava além do toque de recolher, seu “amigo” também se deitava do outro lado da cidade. Ele encarava o teto coberto de sombras malditas, que pareciam sorrir como reflexos de sua mente perturbada. Cansado após terminar de responder uma bateria de mensagens de Amai, suspirou.
Talvez fosse o cansaço ou a inevitável confrontação com seu eu fragmentado, mas o sentimento de inquietude e desorientação foi abruptamente interrompido pela brisa gélida da presença etérea de parceiro de contrato. — Ei… Azaael? — Ele chamou, com a voz carregada de cansaço. Havia passado o dia interagindo socialmente e agora recebia apenas uma risada sombria como resposta. Fechando os olhos e buscando refúgio na escuridão do sono, ele perguntou: — Nunca te perguntei novamente, mas, por que você quer meu corpo?
— Sobre isso, sério? Quer que eu tenha uma conversa reflexiva e reveladora assim do nada? — perguntou com um tom que parecia brincar com a situação. — Sem nem me pagar um jantar?
— Ah, vamos lá! Você já sabe tudo sobre mim!
— Bem, já que insiste…
— Já que insiste… vamos lá, um papo de velho contador de histórias! — retrucou ele, bocejando, enquanto o sono começava a envolvê-lo como um manto pesado.
— Xiu! Se quer saber, fique quieto e ouça! — Azaael repreendeu, irritado. — Eu… na verdade, vi uma oportunidade em você. Sempre vivi à mercê do que sou, um demônio. Mas, ao longo do tempo, percebi que, de certa forma, sempre fui mais humano do que os próprios e do que meus irmãos diziam sermos. Mas… o que é realmente a humanidade?
— Como assim? Você era um demônio, emo? Ou é… — Ele riu, genuinamente divertido com a ideia. — Essa crise de identidade não cola com você… poh, Azaael, o assassino de anjos, não?
— Eu me apaixonei… idiota! — respondeu Azaael, com um tom exasperado. — Isso… muda a gente, não é?
— Sério? Você? — Ele jogou a coberta sobre o corpo, vestido a caráter com seu sobretudo e botas, o inimigo da higiene, e observou Azaael com um misto de surpresa e ceticismo.
“Um demônio que ama!? Por que perguntei!?”
— Sim… eu. E fiz desse amor minha ambição! — continuou Azaael, arranhando as paredes com uma expressão de angústia e frustração. Yami ouvia o som angustiante, como se cada arranhadura nas paredes fosse um eco da própria tormenta interna de Azaael. — Diferente dos meus irmãos, eu não trilhei meu caminho apenas para mim. Sendo um demônio, eu viveria à mercê de vocês, exorcistas, e daquele maldito Luciel! Então eu o reneguei!
— Luciel… O chefão… o que há com ele? Não era para estarem do mesmo lado?
“Ele fez tudo por uma garota!? Gadoel…”
— Eu? Não… Luciel acredita que é melhor que vocês. Uma visão absurda. Ele não enxerga que é exatamente igual a vocês! — indagou, com os olhos fixos na fresta da cortina, como se a resposta estivesse escondida nas sombras do ambiente. — Um louco tentando provar que os outros são loucos! Entende?
— Ele fala do que é, um hipócrita, entendo… Mas o que a sua essência tem a ver com meu corpo? Acha que ter a casca humana te torna um de nós?
“Identitarismo barato…”
— Sério? Pensa, Yami! Um demônio pode ser cruel como um homem, pode amar como um homem, odiar como um homem, agir e pensar como um homem. Então, o que nos diferencia? Nossas essências? Somos reflexos da humanidade, então, o que nos resta? A casca! — Azaael o encarou intensamente, e Yami fez o mesmo, um olhar penetrante que buscava entender o enigma que se desenrolava diante dele.
— Mas não é só isso, não é? Se fosse, você teria possuído outro, alguém que não te deixaria preso por um ano e meio, não é?
— Você é esperto. Acontece que cada passo que damos… bem, foi calculado milimetricamente por ele, o cão do Asmael! — disse, enquanto pegava um dos remédios do garoto que estava no chão. — Até nosso encontro, e… Eles já viram isso acontecer milhões e milhões de vezes!
— Então, por que eu?
— Você… é um ressuscitado. Eu não consigo te possuir com algo menos funcional que um contrato! — Algo que estava mais do que claro, afinal, para ser possuído por um demônio, é necessário ser pobre de espírito, não de caráter ou de valores. — E, quando ele fizer o ato final para trazer o apocalipse, seremos ambos afetados. Para eliminarmos nós dois, seria tão fácil!
— Mas você e eu já estaremos acertados até lá, não?
“Ah, se não!”
— Acha que ele é burro? Ele já sabe do nosso contrato e deve ter dado um jeito em Gallael. Estamos caminhando para uma ratoeira, mas ele é um tolo se acha que tudo sairá como planejou. Temos uma cláusula no nosso contrato. Nela, deixei claro que tanto eu quanto você poderíamos ceder ao outro, se necessário. Isso significa que, independente de você matar o assassino dos seus pais ou não, ainda podemos completar nossos objetivos e eu, tentar conter meu irmão!
— Por que faria isso? Tanto eu quanto você… enfrentando-o?
Em suas falas, o que impressionava era que viver sem sua vingança parecia o mesmo que tomar um coquetel da erva mais venenosa que há de nascer, vivendo apenas por um instante.
Assim, Yami sempre viveu.
— Eu o odeio, e mais ainda, odeio como ele age! — Azaael retrucou, uma chama de raiva ardendo em seus olhos. — E você? É um pirralho chato, mas sua vingança vale o fim do mundo?
— Está perguntando a um suicida se ele quer destruir o mundo com ele? — Ele riu friamente, um riso que ecoava a desesperança e o desespero de sua própria existência. — Você realmente não me conhece…
— Depois eu que sou o mal!
Se vistos, não dava para dizer quem era o humano e quem era o demônio… e um dia, deu?
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