Capítulo 58 - Psicopatia, Parte Final
Quando Hazan derruba o homem, ele não hesita. Monta sobre ele e continua, sem piedade. Não adianta mais tentar se defender; nos olhos dele, brilha a determinação de fazer justiça, um golpe após o outro com seu único braço restante, fazendo-o cuspir seu próprio sangue no asfalto. O sangue escorre livremente da ferida aberta, manchando o pavimento com a brutalidade do embate.
— Você não vai mais profanar a memória da minha filha, minha esposa, meus amigos! — sua voz é carregada de emoção, cada golpe uma explosão de raiva contida, um homem tomado pela fúria que não dá sinais de dissipar. Seus punhos tentam apagar a consciência do homem, cuja visão já começa a escurecer…
O gosto metálico do próprio sangue já impregna seus lábios e língua; em breve, quase engasgará com ele. O som das pancadas ecoa pela rua deserta, enquanto ele se banha no sangue do maldito, mais e mais sangue.
— Morre, desgraçado! Filho da puta!
A adrenalina corre selvagem por suas veias, até que seu último golpe faz o homem virar de lado, encerrando aquele espetáculo de horror, a vitória pulsando em seus punhos…
Ou assim ele pensava. Quando Hazan se prepara para se erguer, mal tem tempo de reagir. Rasen impulsiona da cintura para baixo e, agarra sua garganta com os dentes, transportando-os à selvageria primordial da vida, onde o valor se perde em meio ao caos.
Os olhos de Hazan se arregalam em surpresa.
— Você… não é um homem…
Ele murmura com sua boca moribunda, enquanto o brilho do medo se esvai, dando lugar ao cinza do vazio. Suas palavras são fracas, quase inaudíveis, perdidas na escuridão que o envolve. A vida parece escapar de seus olhos, deixando apenas uma sombra da presença que outrora fora.
Com mandíbulas como navalhas, Rasen arranca sua vida, dilacerando sua traqueia e rompendo suas veias em um instante visceral. O sangue espirra em seu rosto quase desfigurado enquanto ele segura os ombros do agonizante, testemunhando a vida fugir dele, desfalecendo, enquanto o maldito abre os lábios para beber de seu sangue, saboreando a essência da vida.
— Eu sou… o Messias! — ele murmura, soltando o corpo que cai no chão com um baque seco e nada glorioso. Seus olhos se voltam para os céus, agora cinzentos e distantes. A vida se esvai sem qualquer beleza, enquanto instantes calmos se tornam pesados e opressivos. Embora a chuva tenha cessado, seu olhar permanece nublado, como se a própria alma esteja envolta em nevoeiro. Ele ultrapassou aquele que chamava de escada, apenas para encarar a morte mais uma vez.
Seus dedos roçam o asfalto, enquanto a pouca energia que lhe resta mal consegue aquecê-lo naquele frio. Ele se sente humano pela primeira vez em sua vida, despido do manto que o fazia enganar-se sobre seu destino. A dor e a vulnerabilidade o atravessam, cruas e inexoráveis, revelando uma verdade que ele sempre evitara. Cada suspiro, cada batida lenta de seu coração o aproxima mais de sua fragilidade, desnudando a ilusão de grandiosidade que sempre carregara.
Mas sangue foi derramado, carne foi consumida. Novamente, aquele sabor humano em seus lábios; ele se torna uno com a morte, inevitável, violenta, sem remorso.
E razão? É um fruto que surge em sua árvore, de ramos lotados de serpentes, um aval de sua psicopatia.
— Te vocavit, mors… ne me derelinquas, tolle vitam et reliquias eius… ero famulus cupiditatibus tuis… da mihi praemium quod vehementer opto… — suas palavras, parte de um ritual que já conhece tão bem, evocam as trevas ao seu redor.
O ar parece vibrar com uma energia sinistra, enquanto ele clama pelas garras das sombras para mudar seu destino. O chão treme ligeiramente sob seu corpo fraco, como se a própria terra respondesse ao seu chamado. Ele está à beira do abismo, entre a vida e a morte, mas sua voz não vacila, mergulhando mais fundo na escuridão que sempre o acompanhou.
Ela penetra seu ser. O silêncio é cortado apenas pelo gotejar do sangue, que se encerra instantaneamente, enquanto ele fecha os olhos, respirando com dificuldade. Enquanto, em outro lugar, alguém caminha pelos corredores de um prédio, a lateral de vistas abertas que o deixam ver um parque infantil lá fora.
É Hugo Moreau, atrás de seu dever. Ele segura um papel em mãos, com o número 99 rabiscado. Cada passo ecoa nos corredores vazios, seus pensamentos um turbilhão de ansiedade e expectativa. Quando alcança a porta, para por um momento, respira fundo antes de girar finalmente a maçaneta.
Toc! Toc!
E imediatamente, uma jovem garota abre a porta. Deve estar na adolescência, vestindo uma roupa colegial, e tem um olhar cansado.
— Senhor Tamashiro! — ela quase grita, e então encara aquele homem nada carismático, de feição carrancuda, uma cara de bunda.
— Ah, n-não… Sou o senhor Hugo Moreau. Por acaso, aqui é a casa do Hideki?
Ele diz, seu olhar sondando lá dentro, percebendo Amane sentada no sofá, abalada. Já fazia um dia que não via o pai, o único que a pequena tinha. A casa está uma bagunça, e a garotinha o encara, meio desolada. Seus cabelos pretos e lábios suaves lembram muito sua irmã, que há tanto tempo os deixou.
“Amane…”
— Quem é você? O tio, ele não veio para casa faz dois dias! Aquele safado… deve estar bebendo por aí… nem lembra que tem uma filha… — ela reclama, recuando, emburrada.
— Sou o tio dela… O Hideki era esposo da minha irmã. Bem, eu vim buscar a Amane.
Ele diz, guardando o pequeno licor em sua mão esquerda e jogando-o no bolso do sobretudo, caminhando até a sala.
— Quê? Você… é o moço extravagante de que ele tanto falava? — diz curiosa, seguindo-o. — O que aconteceu com o Hideki?
— Ele viajou… — responde ele, fitando a garotinha e sentindo o peso do pesar em seus ombros, uma ironia para alguém que só se importava em beber. — Lembra de mim? Do tio Hugo?
Ela apenas assente com a cabeça, enquanto ele sorri meio forçado.
— Ela está muito mal, tio… Nem quis comer! — diz, apoiando-se na bancada que dava para a cozinha.
— Tô vendo… bem, isso não é culpa minha, tá? Eu também não sei por que ele partiu tão rápido e sem avisar… mas conhecendo seu pai, ele deve ter feito isso pensando em você! — Ele fala enquanto acaricia o rosto da garotinha, soltando um sorriso genuíno. — E você, garota? O que está fazendo aqui?
— Eu? Sou a babá dela, o Hideki me paga para cuidar dela quando não está. Por que será, né, tio?
— Não me chame de tio!
— Por que não gosta de ser chamado de tio? Tio?
Ele revira os olhos no mesmo instante, derrotado por aquela garotinha que mal alcança a altura de seu peito.
“Odeio crianças…”
Então, ele a pega no colo, levanta-se instantaneamente e encara a garota com um sorriso irônico no rosto.
— Você me lembra uma pessoa que sinceramente odeio… enfim, faça as malas dela, certo? Vou pagar pelo dia em que ficou com ela — ele diz, determinado, sentindo o amargo sabor da responsabilidade em sua boca.
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