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    Um táxi chega em frente ao prédio, palco dos planos sombrios dos iluminados, no distrito de Gou. Apesar das nuvens espessas, a luz da aurora surge pelas pequenas aberturas no firmamento. Dele, descem Jarves e Antônio, cobertos de lama após mais uma exaustiva bateria de treinos, preparando-se para o grande dia. Suas roupas estão sujas, mas há uma esperança viva e clara em seus rostos.

    Antônio parece encontrar alívio naquele lugar. Animado, dá alguns passos à frente, seus olhos reluzindo com uma energia renovada. Jarves, por sua vez, caminha à sombra do amigo, coçando o ombro com ansiedade, uma distração para sua mente agitada.

    — Vê se descansa um pouco, garoto… — murmura Antônio, passando a mão entre os cabelos, um brilho no olhar.

    Ele sobe a escadaria, que range a cada passo ao entrar, enquanto o jovem encara a entrada do apartamento no primeiro andar, onde passou a noite anterior. O cômodo é imerso em poeira, escuro, com um único sofá de couro, velho e desgastado, ocupando o centro.

    Apesar da aparência sombria e nada confortável, se sente em casa. Nem o cheiro de mofo o afasta. Sem pensar demais, caminha sobre o assoalho que range até se sentar, levantando uma cortina de poeira à altura da cintura.

    “Um dia…”

    Ecoa em sua mente enquanto joga os braços para trás, deitando-se no sofá e encarando o teto mofado. Suspira, ouvindo os passos de Antônio no andar de cima.

    — E aí? Ainda tá de pé a gente beber até cair? — pergunta.

    — Claro! Entra aí, vamos falar um pouco de mulheres… — responde Kwawe, seguido de risadas. Enquanto o rapaz fecha os olhos, tentando dormir, certo de que sua inquietação só irá cessar quando se deixar transportar para seus sonhos, assim vive desde que viu seus pais falecerem.

    Horas se passam… risos e palavrões são audíveis do andar de cima, instantes levados pelo álcool, já não são mais três, mas até o loiro se juntou, suas piadas ecoam. Mas são os passos pesados que o despertam; não há mais luz alguma atravessando as frestas das madeiras que lacram as janelas.

    — E aí… — diz uma voz suave.

    Interrompendo seu descanso, Jarves se ergue, ombros baixos, e ao olhar de lado, vê Halyna, que encara suas pernas antes de erguer a cabeça para encontrá-lo nos olhos.

    — Você…

    — É, eu. Como tá a cabeça? — pergunta ela, dando passos adiante e olhando para o exterior pelas frestas, onde pessoas circulam como sempre.

    — Como?

    — Você e o Antônio… vão matar pessoas… é amanhã! Não te pesa a mente? — ela o olha de lado ao perguntar.

    — Ah, sobre isso… não sei. Estou ansioso pelo momento, mas o que farei, sei lá, não consigo explicar! — ele diz, soltando um suspiro — Só sei que nenhuma bebida me faria esquecer… só sei disso — brinca, arrancando uma risada cúmplice da garota.

    — Entendo… Você é um homem raro, encara seus atos sem se desconectar da realidade!

    — Meio isso, mas, você deve saber mais do que eu. Você matou um homem, não foi?

    Ela sente um arrepio, no mesmo instante, a atingir.

    — Pois é, matei… mas não foi exatamente como será com vocês. Farão a sangue-frio, por mais que o valor da vida não mude, independentemente do humor em que estamos… — murmura, envergonhada.

    — E te conforta?

    — O quê? — ela o encara, e então, toma conta do que diz, — Não… o que fiz foi errado… por mais que ele fosse um desgraçado, havia outro meio…

    — Por que ele era um desgraçado?

    — Era uma missão de nível fantasma. Fui escolhida por morar no bairro onde foi o chamado. Era um quarto infantil. As meninas relatavam sussurros, suas coisas sendo movidas de lugar, derrubadas… — Halyna se escora na parede empoeirada, sem se preocupar. — Quando cheguei, me deparei com um homem de olhar preocupado. Ele me guiou até o quarto onde três meninas brincavam. As roupas delas eram longas até o pescoço… não bastou muito tempo para eu notar os olhares medrosos, sempre o encarando a cada pergunta. Quando ergui o vestido da mais nova, entendi… ele batia nelas, sem piedade…

    Enquanto fala, uma lágrima escorre, caindo a seus pés.

    — Um abusador… o próprio pai… — comenta, sentindo o peso de seus sentimentos e atos, como se fosse um gatilho que impulsionava suas incertezas, distorcendo sua percepção.

    — Não aguentei… minha mão penetrou o peito dele, quando ele começou a recuar e se explicar! — enquanto fala, ergue o braço direito, movendo os dedos suavemente — ainda me lembro do sangue quente, escorrendo entre meus braços, me manchando… a cor do pecado… foi… horrível… — sussurra.

    Ela faz uma pausa, o olhar perdido nas lembranças dolorosas. Jarves permanece em silêncio, a tensão entre os dois se acumulando.

    — É, eu… — começa ele, mas é interrompido.

    — Não diga nada. Eu sei. — Ela enxuga a lágrima, recompondo-se após um suspiro profundo, vindo de sua alma. — Vamos acabar com isso. E depois, quem sabe, possamos encontrar um pouco de paz… ou salvação, como dizem nossos guias? — ri, com amargura.

    — Eu ia dizer que não acho que ele merecia viver… A Ordem peca nisso. Lidamos com o mal do homem, mas o homem? Esperamos que aquele que não tem conhecimento algum os puna, enquanto nós, que temos poderes, nada fazemos! É irônico: você é expulsa por matar um abusador, mas teria sido recompensada se ele ainda estivesse vivo! — Ele ri, um som seco e frio, e no mesmo instante em que diz essas palavras, ela tem a certeza de que o remorso não o atingirá, mesmo que mate. Está envolto em um sentimento que o faz entrar em uma espécie de torpor; ele se sente justo.

    — Homens não sabem o que é justiça, Jarves. Só Elum pode determinar o que não é, ou é justo! — Ela diz com firmeza, os olhos fixos na saída, evitando encará-lo. — Bem, vou descansar também… Amanhã será um dia pesado… — murmura, a voz fraquejando a cada palavra.

    Enquanto seus cavaleiros se preparam mental e fisicamente, Romero, andares acima, golpeia a mesa com seus dedos inquietos, seus olhos fixos na localização do alvo no mapa, imerso nos mistérios que o cercam. Recita para si o trecho que o trouxe até ali, um fragmento sagrado do livro de Sekani.

    “Nos tempos imemoriais, quando o firmamento dançava ao ritmo das estrelas… Elum, o Criador, deu, a partir de uma Espiral Infinita, forma ao mundo com sua vontade suprema.

    Ele forjou Crea em espirais de luz e sombra… entrelaçando os destinos dos viventes e das criaturas celestiais.

    E chegou o dia em que um homem vestido de dores, conhecido por sua humildade e compaixão… seria ungido por Elum como Messias, destinado a carregar o fardo da redenção através dos ciclos intermináveis da existência.

    Assim proclama Elum, assim proclama… cuja sabedoria transcende as eras, que aquele que sofre dentre todos será coroado com a luz eterna… guiando os seus filhos ao caminho da paz e da eternidade… da paz e da eternidade.”

    Enquanto as palavras ecoam em sua mente, ele sente o peso da responsabilidade sobre seus ombros, consciente do caos que se desenrolará, como o maestro de toda aquela situação. Sua mente divaga entre a profecia antiga e o presente sombrio que se aproxima rapidamente.

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