Capítulo 62 - Pesadelos
— Yami?
Uma voz ecoa na escuridão, como um chamado distante, reverberando nas profundezas do inconsciente. Lentamente, uma mão com belas unhas feitas, pintadas em tons negros, toca sua mão. Seus olhos estão entreabertos, vendo tudo como se estivesse com vertigem.
Uma brisa suave parece invadir aquele lugar, aqueles cabelos escuros como um lago profundo.
— Acorda, meu filho… Seu pai já vai sair para te levar à escola…
Aquela suavidade traz um conforto familiar. O toque delicado sobre as mãos de Yamasaki faz ele se sentir preenchido por um carinho, um apego, um amor genuíno. Seus olhos fecham e se abrem a cada instante, tentando vencer o sono que insiste em dominá-lo.
— Mãe…
Murmura, com a voz fraca.
— Yami… Finalmente acordou, seu dorminhoco?
Ouvir aquela voz pela segunda vez lhe causa um arrepio. Mas, como uma cortina que se abre, a realidade se revela cruelmente diante de seus olhos. Aquelas mãos, antes suaves, começam a apodrecer, as unhas transformam-se em garras, e o belo rosto de sua mãe se metamorfoseia na face de um demônio, o mais terrível de todos, com dentes afiados, pele necrosada e cabelos brancos, que solta um rugido ameaçador. As paredes ao redor dele se dissolvem em sombras líquidas, e o chão parece abrir-se em um abismo infinito.
Seus pecados o perseguem implacavelmente, crescendo a cada dia que passa, como sombras vivas que se alimentam de seu desespero. O abismo, que antes observava suas ações e sentimentos, agora se torna uma presença malevolente, fitando-o de volta com olhos espelhados para sua alma.
Em um instante, o rapaz desperta de seu pesadelo. A máscara de criança cai como cacos de vidro, e sua mão instintivamente vai ao encontro do pescoço da entidade. No mesmo instante, como fumaça, ela desaparece, revelando a figura de Azaael diante de seus olhos.
— Seus fantasmas vieram te buscar? — brinca, irônico, sentando-se em uma cadeira à frente da cama. O quarto está claro, contrastando com a escuridão do pesadelo.
— Merda… Isso… Não tem fim!
Yamasaki murmura, sua respiração ofegante ecoando no silêncio sufocante do quarto. Seus olhos perdidos refletem o tormento recente de seus pesadelos vívidos, que parecem persistir mesmo após acordar. Ele sente que a escuridão está à espreita.
Incomodado, ele percebe a luz, mesmo através das cortinas fechadas. Estreitando os olhos, sente sua pele exsudar vapor, tornando-se cada dia mais sensível ao toque e à luz.
— Não adianta tomar remédios… Elas não vão parar até seu coração parar de arder em vingança! — Azaael sussurra, seu tom convencido ecoando como um sermão. Seus olhos brilham com uma malícia oculta, misturada com um lampejo de piedade distorcida.
— É? — Yamasaki resmunga, seus dedos agarrando os lençóis como se buscassem uma âncora na realidade crescentemente surreal à sua volta. As veias em seu peito pulsam com uma escuridão que se espalha, a síndrome da escuridão corroendo sua mente e seu corpo. — Então acho que dá para viver mais um ano assim…
— Você é engraçado, Yamasaki. Está dizendo isso com tanta convicção que eu quase acredito. Mas lembre-se, eu sou você, pirralho!
— Do que você está falando? Hein, psicólogo? — Yamasaki ironiza, agarrando o smartphone com um gesto nervoso ao lado dos frascos de remédios, uma tentativa vã de se ancorar na normalidade.
— Seu coração quer viver… Não digo ser apenas pela sua vingança. De um tempo para cá, sinto que algo em você está mudando!
Ao abrir a lista de contatos, uma inundação de chamadas para trabalhos pendentes e o nome de Shirasaki no topo, com a última mensagem dela enviada ontem, dominam a tela.
— Você delira…
Azaael ri.
— Posso estar delirando, mas não se esqueça da cláusula do nosso contrato. Depois que sua vingança for feita, seu corpo é meu! — determina, com ferocidade.
Yamasaki suspira pesadamente em resposta.
— Como vou esquecer isso? Idiota…
Ele então olha para a entidade após dizer, notando o sorriso sinistro.
— O que foi, hein? Apaixonou, pirralho?
Ignorando a provocação, Yamasaki fita a tela do telefone, suas mãos sobre o aparelho gélido.
— Nada…
— Como? Nada? Vai chamar aquela ruivinha para fazer missão, é?
— Ruivinha? Tá falando da Shirasaki?
— He! He! — Azaael se ergue da cadeira, mãos na cintura, provocando com um olhar maldoso. — Será que ela está derretendo esse coração frio como gelo? Aquele papinho no parque… café… não parece o Yamasaki de sete dias atrás.
— Hm — ele foca, talvez parasse se não desse mais atenção.
— YA-MA-SA-KI?
A criatura avança alguns passos, tocando em seu ombro, mas ele sacode irritado.
— Você quer atenção, é?
— Qual é, não seja tão pirralho, vamos nos divertir, exorcizar uns demônios! — Azaael apela, tentando espiar o que está sendo digitado. — Hmm… perguntando se vão trabalhar hoje? Você está tão dependente assim? — Recebe apenas um olhar emburrado do rapaz.
— Se quer ver o que tô digitando, veja pelos meus olhos… — Yamasaki murmura. — Qual foi, Azaael? Por que tá tão chato? Caramba… — esbraveja.
— Tô entediado, sinceramente. Mal posso esperar para acabar com aquele maldito exorcista! — Azaael responde, sua voz carregada de raiva genuína. — Ele me fez recuar como um covarde!
— Está frustrado com a luta que teve com o Masaru, é isso? — Yamasaki provoca, colocando o smartphone de lado e erguendo os lençóis do corpo. — Que surpresa.
— O que foi? Hein!? Não posso mais sentir ódio?
— Não… não é isso… O grande Azaael, recuando de um humano! — Yamasaki continua provocando, devolvendo a amargura com um sorriso irônico. — Não parece você… Ops, isso não é gostoso quando acontece contigo, né?
Azaael sorri de lado, uma expressão forçada de superioridade.
— Criança… — Cruza os braços. — Mas de qualquer forma, esse tal Masaru, eu vou acabar com ele! É uma promessa minha! — Afirma com convicção, mas Yamasaki o encara sem fé em suas palavras, levantando-se da cama e mirando suas roupas jogadas no chão.
— Vou tomar um banho, preciso clarear as ideias — ele pega uma toalha dentro de seu armário e a enrola em seu braço, junto às suas vestes, e segue para tomar seu banho… enquanto a entidade, olha para seus remédios, e solta uma risada satisfeita.
Caos… é tudo o que ele almeja. O mundo gira dessa forma, o caos precede o ato, um paradoxo intrínseco. Em um mundo como Crea, nada nasce da Ordem. Mas por quê? Por quem?
Seria o homem? Desde seu pecado, o mal que corrompeu o mundo foi motor para as leis que viriam após, se, livres de suas escolhas, escolheram reger um mundo por leis caóticas. Esse é o pensamento de Luciel, o senhor dos senhores, rei dos reis, o apóstolo do mal e da escuridão, imperador das terras de Maladomus.
Em outro mundo, acessível apenas às almas, ele se assenta novamente em seu trono como observador. Voltando a vigiar o mundo, enquanto Asmael permanece ao seu lado, pronto para testemunhar os resultados de suas ações.
O jogo acaba de começar.
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