Capítulo 68 - Viagem Interrompida
É a madrugada do dia 36, do ciclo 381, um momento em que o véu entre o mundo dos vivos e dos mortos parece mais fino. A estrada se estende à sua frente, com os faróis do carro cortando apenas um pequeno raio de luz na imensidão.
Yelena mergulha nos sons agitados de uma música que tenta afastá-la da tristeza, absorvendo os ritmos da banda mais recente e famosa de Resonant Stones. O rugido da guitarra e os gritos raivosos do vocalista reverberam no carro, fazendo-o tremer, uma tentativa de abafar as batidas dolorosas de seu coração, que parecem ecoar mais alto.
Os flashes são apenas os carros com vidros fumê, uma série solitária de luzes intermitentes na noite escura, como estrelas distantes brilhando brevemente antes de desaparecerem novamente na escuridão.
A garota, fria e reservada para os outros, esconde seus dramas sob uma casca. Desde a morte de seu pai, a versão de si irresponsável e despreocupada ficou para trás. Agora, ela está determinada a seguir em frente, mais forte e decidida a enfrentar os desafios que a vida lhe lança. E Arthur é seu porto seguro.
Mas como tudo na vida, há altos e baixos, e ela está prestes a enfrentar mais um desafio. Quando seu carro entra na rodovia Hisshi, ela sente uma presença sinistra subir pela espinha, um arrepio que faz seus cabelos se eriçarem. Sua percepção aguçada não pode ignorar aquilo; é como se um radar de submarino captasse uma grande baleia ao redor.
“Que sensação estranha… Será um demônio nesta floresta?”
Vigilante, ela deduz observando os troncos que mal consegue ver através do vidro. Trevas parecem emanar de dentro, mas nada fora do comum. Mantém-se assim até se aproximar da metade da estrada. Quando chega à parte onde há montanhas ao redor e baixa vegetação, vê Leviel emergir no horizonte distante. Suas existências se ligam; ele aparece como uma miragem, sua figura imponente destacando-se do mundo astral, envolta por uma aura negra e abissal que parece encolher a própria noite ao seu redor.
Tenebrae a obscuritate differunt.
Finalmente, eles se encontram. Seus destinos estão traçados desde que Leviel foi lançado em Crea pelas mãos de seus irmãos. Os olhos de Yelena fixam-se nos olhos vermelhos e penetrantes da criatura, que refletem apenas ela e seu veículo. Ela sente uma mistura de fascínio e surpresa diante da entidade demoníaca.
“Um demônio! Mas… que merda está acontecendo!?”
Seus pensamentos são interrompidos por uma buzina estridente; seu carro está no limite do acelerômetro. Ela pisa fundo na surpresa e percebe que está dirigindo acima da velocidade. Antes que possa terminar seu pensamento sobre o demônio, ela freia bruscamente, o carro derrapando violentamente e queimando borracha no asfalto.
O impacto da freada a sacode no veículo, mas ela permanece intacta.
— Yelena Alekseeva, finalmente! — Leviel profere, sua voz um suspiro gélido que corta o ar, cerrando os punhos onde garras afiadas como lâminas se destacam.
Estranhando a situação, ela sai do veículo, enquanto o trânsito ao redor buzina incessantemente. Seu carro bloqueia a rua, criando um caos ensurdecedor naquela madrugada.
“Caralho! Sai da frente!” grita um velho.
“Ela está bem?” comenta uma moça.
“Parece que sim, deve ser uma doida… toda tatuada…” diz um infeliz.
Seus veículos, por sorte, não batem um no outro, ficando enfileirados.
— Você conhece meu nome? Me conhece? — pergunta, sua aura colorida começando a se formar instintivamente ao seu redor. Seus punhos estão cerrados, enquanto as pessoas, cada vez mais impacientes, ousam cortar pelo gramado à esquerda ou mesmo pela contramão.
— Eu conheço! Estou aqui para tirar sua vida, garota! — responde com um tom gélido, arqueando as costas enquanto sua cauda escamosa se move ameaçadoramente de um lado para o outro, como um animal pronto para atacar a qualquer momento.
Antes que ela possa reagir, dos céus rasgados por uma chuva tempestuosa que surge imediatamente, um dragão marinho é gestado e cuspido ao solo de Aija. É uma serpente colossal, sem pernas, com nadadeiras nas costas e pele feita de água, cercada de raios azuis, tão imensa quanto uma montanha.
— Me matar? — Yelena mal consegue articular. Ela não está com medo, mas quando sua aura atinge finalmente o ápice e ela prepara seus punhos à frente do rosto, a criatura desce como um raio, emitindo energia azul que se dissipa em trevas, tremendo o solo com o impacto. Move-se como uma serpente, enquanto raios cortam o céu e gritos ecoam das pessoas diante do espetáculo de horror. Embora não possam ver a criatura, sentem seus impactos. O dragão, como um desastre natural, agarra a garota após circular seu corpo várias vezes e a ergue em sua boca, disparando para os céus como um foguete.
Sua boca não causa danos físicos, mas Yelena sente-se esmagada pela intensa pressão e pela aura envolvente da criatura.
Ela é arrastada no meio do caos, enquanto a criatura lança carros ao redor, abrindo um rombo na estrada e na floresta, derrubando árvores como gravetos. Gritos ecoam, pessoas são arremessadas dos veículos em um terrível acidente. Todos os carros à frente são transformados em caixões, caindo sobre outros ou desaparecendo na densa vegetação da floresta, que oculta os estragos do dragão como um arbusto esconde um corpo.
“Isso é divertido!!”
Pensando rápido, agarra a cauda da entidade que ele convocou. Ele está animado, a toda velocidade, enquanto sente o vento bater em seu rosto.
— Merda… merda!
Yelena tenta reagir, golpeando, mas sua mão afunda na água, deixando-a ainda mais indefesa, enquanto a intensa pressão a puxa com força, impedindo-a de se soltar. Para enfraquecê-la ainda mais, os raios ressoam pelo corpo da criatura que flutua, contorcendo-se como ondas, golpeando-a com eletricidade.
Ela morde a língua a cada descarga, apertando os lábios com força.
Assim, ela é levada para longe, a criatura movendo-se tão rápido que mal consegue distinguir o que está abaixo de seus pés, passando pelas terras gélidas de Regnum e pelo deserto de Shamo, em uma aceleração incrível, como se estivesse em um veículo em alta velocidade, vendo a paisagem passar rapidamente diante de seus olhos.
“Afastei-a do continente… “
Enquanto o dragão segue seu curso, Leviel tem um pensamento fugaz de sucesso. Quando alcançam a altitude máxima, a mais de cinco mil metros de altura, a criatura se desfaz em água e uma explosão de raios faz-a sentir seu corpo enfraquecer ainda mais. Sua mente tem um apagão, preparando-se para a queda inevitável para ambos.
“O que está acontecendo? Quem é esse demônio? Porque…”
Ela pergunta, em pensamento, suas mãos livres, sentindo o ar a golpear enquanto lentamente começa a recuperar a consciência, caindo de costas em direção ao vasto oceano de Flumen.
A garota finalmente mergulha, causando uma explosão de impacto que fez as águas se erguerem metros acima da superfície. Enquanto o ser aterrissava de pé nas águas, estas pareciam balançar como uma cama elástica, mas ele não afundava. Um sorriso sinistro se formou em sua face, mostrando seus dentes, em uma expressão ameaçadora. Ondas surgiram ao seu redor; ele era pesado, e embora alguma força misteriosa o permitisse caminhar sobre as águas, era como se o mundo estivesse desmoronando ali.
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