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    Três passagens atrás… sétima, daquele mesmo ciclo…

    — Yelena, vais fugir por toda a tua vida? — diz um homem, sua voz ecoando na escuridão do aposento, enquanto ele encara a lareira, as chamas projetando sombras dançantes em seu rosto austero. É uma temporada tão fria em Novorossiya, estado-país do sul de Regnum. Suas mãos repousam nos bolsos do terno elegante, o ambiente imerso em um filtro frio, o azul desbotado. O preto de suas vestes cria um contraste gritante entre a escuridão da vestimenta e o brilho mortal de seus sapatos de couro polido. Seus cabelos vermelhos como sangue destacam-se, refletindo um brilho sinistro sob a luz trêmula. — Tu já completaste 16 anos… E és minha única herdeira! — continua, sua voz carregando o peso de seu coração, inquieto.

    — E daí? Caramba… eu não quero seguir teus passos, pai. Não posso escolher o que será da minha vida!? — indaga Yelena, prestes a sair, com os dedos raspando sobre a madeira da porta, fria. Naquela época, seu olhar ainda é jovial e rebelde, os olhos brilhando com a chama da insubordinação. Nem todas as tatuagens percorrem seu corpo, marcas que virão com o tempo e a dor. Seu pai, parado à sua frente, emana uma presença ameaçadora, um contraste aterrorizante contra a vulnerabilidade de sua juventude.

    Aquele é o último dia em que ele a vê, é o dia de sua morte.

    — Eu entendo, você é apenas uma menina ainda, mas o mundo está imerso em um caos sem fim, gostes ou não. Só nós podemos mudar isso! — Ele se vira lentamente, seus olhos azuis refletindo um frio desdém, como gelo inquebrável.

    A tensão no ar é palpável, sufocante, enquanto ambos permanecem imóveis, mergulhados em um abismo de seus sentimentos, dever, viver… onde uma não pode coexistir com a outra, para o coração imaturo da garota.

    Ele então se vira, olhando-a de costas.

    — Por que eu? Sinceramente, não quero viver como você! És feliz? Conquistaste o que sempre quis? — Suas palavras o fazem recuar, seus olhos abaixando instantaneamente, a máscara de indiferença começando a rachar. — Pela tua cara… não, né? — continua Yelena, sua voz carregada de desafio e tristeza, cada palavra cortando como uma lâmina afiada.

    — Tudo é parte de algo maior. Somos apenas fragmentos que se conectam ao todo. Mas é impossível colocar isso em tua cabeça. Precisas sentir que estás pronta para arriscar a tua vida por algo que valha a pena! — Ele então se vira e se senta na poltrona, o couro rangendo sob seu peso, e contempla um quadro de uma mulher de cabelos loiros e olhos verdes que emanam atenção e paixão. — O meu foi uma garotinha… de cabelos vermelhos. Afastei os monstros de seus pesadelos, a criei mesmo após sua mãe falecer… mas segurança, instabilidade e felicidade são apenas uma ilusão à qual devemos nos agarrar! — indaga, sua voz carregando o peso de uma verdade amarga, enquanto seus olhos permanecem fixos no quadro, perdidos em lembranças distantes.

    Ela não responde. Aquelas palavras lhe tiram o ar, e então, sai pela porta, batendo-a forte o suficiente para apagar sua vergonha, sua raiva…

    Aquele instante é como um estalo, e a exorcista retorna de seu inconsciente, onde havia criado aquela visão vívida, ao instante final de seu embate. Sua armadura, que havia sido sua defesa suprema, foi superada; mesmo que as trevas tivessem sido exorcizadas pela veste, as moléculas da água conseguiram ultrapassá-la. A veste dourada cai como cacos de vidro, seu corpo está queimado, sua pele derretida pela intensidade de sua técnica inata; ela havia abraçado a morte no momento em que decidiu ir com tudo.

    — É… será que é isso? — murmura Yelena. Naquele momento, uma clareza toma seu rosto, enquanto sente cada centímetro de seu corpo ser golpeado pelos disparos do demônio. A dor é intensa, mas sua mente está curiosamente focada, os ecos das palavras de seu pai ressoando em sua mente, misturando-se com a violência ao seu redor.

    Ao dissipar da luz, tudo se acalma.

    “Mesmo com medo… eu não fugi… será que finalmente encontrei algo para defender?”

    Sobre as águas, a realidade lentamente se despe como uma cortina. Seu peito, abdômen, braços e pernas estão perfurados pelos ataques da entidade demoníaca. Seu sangue escorre até os pés, tingindo a superfície ao seu redor, enquanto seus olhos se turvam, vendo sua mão perder a força.

    Mas uma determinação feroz brilha em seu olhar, refletindo a chama de um propósito recém-descoberto. A morte significa apenas o fim de sua existência naquele mundo, uma certeza que ecoa de seu eu interior.

    “Pai… será que era isso? Proteger algo que valha mais a pena do que minha própria vida!?”

    Ela sorri fracamente, seus lábios trêmulos pronunciando as palavras quase inaudíveis enquanto o peso da realização se assenta sobre ela.

    As trevas se dissipam junto aos resquícios de luz, enquanto sua aura lentamente se eleva aos céus.

    “Pelo menos acabei com esse maldito… fiz algo em prol do mundo, não fui só uma garota egoísta… Me pergunto se, depois de tudo, está orgulhoso? Pai? Arthur?”

    Quando olha adiante, vê o vapor emergir das águas e, nos céus, a aurora surge, trazendo finalmente o dia à humanidade. As águas lentamente tomadas pela luz, os pássaros voando aos céus, e o silêncio após a detonação, e a chuva fina que cai após o golpe demoníaco se dissipar, caindo em seu corpo, a levando ao gélido da morte, em meio a um vislumbre do paraíso.

    “Este mundo… ele é tão bonito. Eu… nunca percebi isso. Será que é isso que dizem? Quando você morre, a flor começa a se colorir em seu rosto e até o frio, que um dia me incomodou, agora me dá saudade…” 

    Seus lábios estão dormentes, sem sentir o sabor do metal, as sensações se tornando cada vez menos tangíveis diante de seus olhos.

    “Só me arrependo de não ter dito ‘eu te amo’ para você, velhote… será que nós veremos quando minha alma perder seu brilho nos céus?”

    Essas reflexões finais surgem enquanto Yelena sente sua consciência se dissolver lentamente, os últimos suspiros escapando de seus lábios enquanto a vida abandona seu corpo. Ela tomba imediatamente na água, e o último nome que sua mente consegue sussurrar, envolto em lágrimas ocultadas pelo mar que a consome, é “Arthur…”

    Yelena Alekseeva foi ceifada nessa manhã. Sua vida termina em meio à solidão das águas, e seu corpo finalmente afunda, para nunca mais emergir. Enquanto, das profundezas do abismo das águas, Leviel se ergue.

    — M-maldição… — murmura ele, sua voz quase inaudível. Restam apenas sua cabeça e seu busto; o restante de seu corpo foi obliterado pelo golpe da garota. Ele se mantém de pé graças ao seu servo, a água, que o auxilia como uma prótese.

    E diante de seus olhos, um portal se abre e, das profundezas da escuridão que o forma, Luciel emerge, com um sorriso soberbo nos lábios.

    — Ela quase te exorcizou! — diz ele, sua voz calma enquanto suas asas repeliam a luz da aurora às suas costas. Caminhando sobre as águas em direção a Leviel, continua: — Mas vejo que você não é tão fácil assim de eliminar! — A ironia em sua voz faz a criatura ranger os dentes.

    — Maldito… você está rindo? — O pouco de sangue púrpura que resta cai de seu corpo. — Essa garota… se não fosfosse meu tempo de vida acumulando trevas… eu teria perdido! — Sentindo a mão de Luciel sobre seu ombro, Leviel percebe a emanação de trevas e, antes de desmaiar, seu corpo se regenera. A última fagulha de consciência se apaga enquanto ouve um baque logo após.

    — Ué… E não há graça em ver meus peões morrendo por mim? — diz Luciel, enquanto o demônio cai aos seus pés. Seus olhos perdem o brilho no mesmo instante, sua expressão de brincadeira muda para uma seriedade fria. — Como sou generoso, não vou acabar com você agora, irmão. Bons cães merecem mais um instante antes que a foice leve suas vidas…

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