Capítulo 75 - Luciel, Um Ser Divino ou Humano Demais?
— Não vai assimilá-lo? Pai? — pergunta Gallael, a entidade que, outrora ao lado de Luciel no salão de seu palácio, agora passa pelo mesmo portal, pisando sobre as águas que, mesmo diante da inconsciência de seu mestre, não afundavam.
— Resolvi que não! Gallael, meu filho, acho que ele pode ser muito útil para nós! — responde. Ele então se virou, com um sorriso brincalhão no rosto, um sorriso que causava arrepios em seu primogênito, apesar de ser seu pai. Ninguém sabe o que se passa na mente daquele ser. — Ele e Mael podem ser essenciais para um futuro que nem imaginamos!
— Essenciais? — a palavra não lhe caiu bem. — Os dois podem te trair, como Azaael e Bezeel, não acha? — Gallael questiona, a preocupação evidente em sua voz.
— É… podem… mas Leviel não quer amor, nem é um lunático. Pelo menos dele, sei que, oferecendo uma falsa liberdade, posso manipulá-lo até o assimilar… — A certeza em sua voz era como um martelo, sua soberba inigualável, refletida no brilho cruel de seus olhos. — Estamos brincando com o futuro, passado e presente. Os resultados devem ser apreciados, independente de como sejam! — Sua determinação era sombria e repleta de ganância, ofuscada por seu jeito doce de falar.
— V-você às vezes me assusta com essa confiança, mas enfim, se diz! — o demônio murmura. Ele se aproxima de Leviel, cujas asas haviam se retraído, caído aos pés de Luciel. Com esforço, ele ergueu o demônio desmaiado e jogou-o sobre os ombros. Seus joelhos se contorceram sob o peso esmagador, e seus dentes rangeram com a tensão. — Tão pesado… — resmunga, enquanto dava passos trêmulos.
Os demônios observam as águas no mesmo instante, continuam resilientes, mesmo com seu mestre erguido, elas sentiam a natureza deles como a de seu senhor, a natureza não é tão consciente quanto parece. Então o som de seus passos ecoa sobre as águas paralisadas, criando pequenas ondas em suas pegadas, e seus olhos encaram o portal, era hora da retirada.
— Leviel pesa tanto quanto a inveja que se espalha neste mundo, assim como nossos próprios pecados. Mas não há como saber o peso de cada fragmento… Você é forte, pode erguê-lo… — ele então olhou adiante. — Vamos aproveitar este presente de Asmael, voltar ao palácio e ver o que acontecerá com este pobre mundo!
— Malditos humanos! — reclama, seus passos são incrivelmente lentos, sentindo a criatura ficar mais pesada a cada passo. — A inveja os corrompe… — comenta.
— Hmm… o que esperar dessa raça que mata seus próprios filhos antes mesmo de nascerem? São como primatas, destinados a caminhar como escravos, piores que animais… Assim, os colocarei na pirâmide da vida quando o apocalipse chegar!
— Seria um mundo agradecido!
Quando ambos ultrapassam o portão, ao mesmo tempo, uma porta se fecha distante dali, numa cabana perdida em uma das inúmeras florestas de Aija. Mael, em sua forma real, exibia uma expressão entediada após horas de espera sem nenhum sinal de chegada. Diferente de Leviel, seu alvo não estava onde disseram.
De repente, um portal se abre do lado de fora, no quintal bem em frente à varanda da cabana, e de lá emerge Asmael, exalando uma aura de trevas que fez o ar ao redor vibrar.
— O que foi, hein? Cadê aquele cara? — pergunta Mael, visivelmente intrigado, enquanto abria a porta que outrora fechou, encarando seu irmão.
— Idiota, não tem “aquele cara”! — responde Asmael, rindo em escárnio. — Na verdade, você teve muita sorte. Luciel estava apenas te enganando. Você e Leviel. Parece que vocês ganharam na loteria!
— Droga! sério? Aquele miserável pensou em nos trair?
Seu punho foi imediatamente contra a parede, a rachando, quase derrubando a casa. Uma ventania sobrenatural balançou o gramado, levantando folhas secas e escuras.
— Não seja tão sentimental. Ele planejava assimilar vocês para poder eliminar Bezeel. Não somos tolos! Certamente ele irá escapar de onde o prendi e, mesmo que eu o prenda antes mesmo de o mundo ser criado, ele voltará e voltará! Então, ele reconsiderou como irá lidar com isso, e vocês serão úteis até lá! — resmunga Asmael. — O que você acha?
— É complicado confiar em vocês… Mas droga, Bezeel… Azaael… não parece que tenho muita escolha, não é mesmo? Afinal, estamos apenas jogando o jogo deles, não é, Asmael?
— Exato! — concorda a entidade. Não havia verdade maior que aquela. Mesmo sendo um cão de amarras a Luciel, ele sabe de toda a verdade; já não era um escravo cego há muito tempo. Então, virando-se com convicção, encarou seu portal. — Não há muito o que fazer. Você, eu, Leviel e Beel… temos de tentar preservar o que pudermos com o pouco que temos!
— Você acha que vamos conseguir?
— Temos todas as chances! — ele o encara com um brilho sombrio nos olhos, inclinando-se brevemente de lado. — Mas… não controlamos o futuro, apenas o passado que já se foi. Quanto ao após, apenas Elum sabe, e mais ninguém!
— Ai, ai… tantas certezas que me diz com a filosofia de um dono de bar! — indaga Mael, caminhando em sua direção. — Só queria ser dono de banco… roubar as pessoas, com ajuda do império… é pedir demais?
— Isso é tão… distorcidamente humano… enfim… — riu, enquanto encara seus sapatos de couro. — É irônico que parecemos mais com Azaael do que com Luciel, não?
— Nosso rei é lunático… prefiro a comodidade de um pensamento mundano a me cegar para uma visão divina… — ele então também riu, e coloca sua mão direita no ombro de Asmael. — Cara… falando em Bezeel, ele não irá castigar sua filha se ele fugir?
— Não! — responde com bastante certeza. — E não é nem por bondade dele… ele reunirá os príncipes e princesas do inferno para, juntos, atacarem Crea…
— Sério? E Liliiel topará? Ela não era muito marrenta?
— Isso eu já não sei. Estamos diante dos primeiros passos do dragão dourado. Ele logo afundará o mundo em um abismo do qual nunca sairá. Mesmo que perca, ou seja traído, ele terá dado o próximo passo… e o que vem depois? Mais um mundo, mais um tempo… em que ele tentará usurpar o reino do Criador!
— E não há como parar isso?
— Até há, mas muita gente vai morrer… é como um tabuleiro de xadrez, mas só ganha a última peça. Não há times, por mais que nos enganemos. Para conseguir o que ele quer, ele precisa de nosso poder. Ninguém ganha, a não ser Luciel!
— E Alum… não?
— Alum? Esse nunca conseguirá o que deseja. Nosso irmão não quer destruir a criação, ele quer a reger como seu lugar de direito. Ele acredita que é rei da humanidade e melhor que eles… — Asmael olha para o horizonte, suspirando. — Este mundo está com os dias contados!
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