Índice de Capítulo

    Ao subirem ao topo, Romero sente a ventania fria e cortante bater em seus cabelos, arrepiando sua pele. A cidade abaixo, Nova Tóquio, se estende como um mar de luzes e sombras, pulsando com uma energia inquietante, uma paisagem que estava além do translúcido de sua barreira. Enquanto Milk o observa com olhos penetrantes, avançando lentamente, a admiração por ele e o nojo pelo ato travando uma batalha silenciosa em sua expressão.

    — Ah… este lugar — murmura Romero, sua voz carregada de uma amargura gélida. Ele se agacha, seus olhos fixos nas ruas movimentadas abaixo, onde sombras parecem dançar entre os becos, espreitando os incautos.

    Ele sente o peso da melancolia e do ódio nas costas do rapaz, e segura em seu ombro com firmeza, tentando transmitir sua reciprocidade no laço que os unia.

    — Romero… — sussurra, sua voz quebrando o silêncio da noite, enquanto a escuridão os envolve como um manto opressivo. 

    — Lembro-me de quando cheguei aqui… era tão jovem… pensei que iria mudar o mundo… mal sabia que por debaixo destes arranha-céus, há tantos esgotos apodrecidos! — Sua voz está carregada de uma amargura antiga. — Se olhar daqui, até dá para se iludir… ou fingir que as coisas são boas… — continua, a voz tingida de ironia e melancolia.

    Para Milk, é o mesmo. Ambos sabem que o que veem é uma farsa, tingida por seus sonhos, uma pintura de sua agonia.

    — Pena que tudo isso seja um teatro… — murmura o rapaz, quase um sussurro. — A plateia é o povo, os atores são imperadores, políticos e nobres… — No mesmo instante, ele se agacha ao lado de Romero, trocando um olhar de compreensão silenciosa.

    — Está pronto? — pergunta.

    — Estou… e você? — A ansiedade está presente em suas palavras.

    — Com medo… Mas faz parte, não é? — admite com um suspiro resignado.

    — Faz… bem, acho bom prepararmos nossos feitiços… — Milk então tira uma faca do bolso, segurando-a firmemente na mão direita enquanto sua aura começa a se elevar. — Não falei para eles… mas para o pacto valer, tenho que derramar meu sangue… após uma hora, creio que já estarei morto! — Ao pronunciar essas palavras, Romero solta um suspiro pesado, ecoando o ambiente carregado de tensão.

    — Você não está fazendo isso pela causa, não é?

    — É por você! Só faria por ti, Romero. Já não sou mais crente o suficiente para me prender a uma causa… gostoo de coisas reais… — Milk o encara, um sorriso irônico brincando em seus lábios, como se estivesse contando uma piada sombria que arranca uma risada sincera de Romero. — Queria ter vivido mais… mas se, no final, isso ajudar o mundo de alguma forma e te fizer feliz, então estou dentro! — ele conclui com determinação.

    A ventania ao redor deles parece ecoar suas palavras, como se o próprio vento compreendesse a gravidade do que está prestes a acontecer.

    — É… coisas reais — fecha os olhos e dobra os joelhos como se estivesse em uma prece silenciosa. — Ao menos, se eu ver um mundo caótico, talvez alguém o coloque em ordem! — Ele abre a mão direita, revelando novamente a ferida que o marca profundamente.

    — O messias? — fecha os olhos em concentração.

    — Te invoco, Tragoedia, conjunge mihi, ex corpore in vitam dona fac, et da mihi facultatem has animas hac nocte salvandi. Meam animam, cum ceteris, pro his commuto! — Enquanto Romero entoa essas palavras, ignorando sua pergunta, Milk se surpreende com a intensidade do ritual.

    — Você… vai nos s-salvar? — Milk pergunta, gaguejando, buscando respostas em meio ao turbilhão de emoções.

    — Ao menos… quero deixar meus seis cavaleiros a salvo! E Rasen precisará de aliados, você entende? — Romero responde, com seu tom sério, revelando o peso das responsabilidades que carrega e que estava tentando assumir naquela altura. De seu plano.

    — Mas e você? Droga… — Milk diz, irritado, frustração misturada com preocupação. — Vai mesmo se sacrificar?

    — Assim o pacto será mais forte! A entidade da tragédia verá como um sinal de boa-fé!

    — Não é justo!

    — Nada neste mundo é! Bem, se apresse, Milk!

    A urgência na voz de Romero é evidente, carregada com a pressão do tempo e das circunstâncias.

    — Droga! — Ele pragueja em voz baixa, os lábios crispados de raiva enquanto seu coração acelera descontroladamente. — Extendite… meam energiam, parate laqueum… aperite expansionem meam… et in sanguinis mei commutationem… renuntio praesentiae meae, pro regalitate clamo, per unam horam durationis! Nec plus… nec minus! Sanguinabo per unam horam ut hoc efficiam! — Uma aura sinistra começa a se formar ao seu redor, distorcendo o próprio tecido da realidade. Com um gesto imperioso, ele invoca a técnica inata Capsa, um poder que lhe permite manipular espaços dimensionais. Sua semi-expansão se materializa lentamente, distorcendo o ambiente ao redor, criando uma cápsula que iria aguardar em um estado de armadilha até dizer que estava finalizada. As regras que ele impõe à cápsula são suas próprias, uma manifestação sombria de sua vontade.

    Enquanto pronunciava essas palavras, cada uma delas é acompanhada por um sangramento, dos olhos, nariz e lábios, sentindo um calor abrasador o envolver. Ele se sacrificará por uma hora, em prol de uma possibilidade.

    Possibilidade… todos estão buscando, e lá embaixo, cinco andares abaixo, Kwawe, Alexander e Halyna finalmente chegam.

    — Finalmente… — murmura após o celular em seu bolso tocar, o grandalhão, despindo sua camisa e suas calças, caminhando até o centro da sala. Era uma espécie de sala de negócios sombria, iluminada apenas por luzes fracas que lançavam sombras distorcidas pelas paredes. Várias mesas de mogno maciço estavam dispostas com cadeiras pesadas ao redor, cada uma equipada com aparelhos de computador antigos e monitores com telas rachadas. O piso, envernizado de maneira irregular, refletia vagamente a luz em um crucifixo antigo esculpido no centro.

    — Sério? Pelado assim? — diz Halyna, incrédula, enquanto observa as costas musculosas do homem.

    — Todos temos nossas peculiaridades… — comenta Alexander, sua voz ecoando ligeiramente na sala silenciosa. — Kwawe, precisa de alguma ajuda? Minha energia está recuperando o fluxo, posso te dar suporte… Não? — Ele olha ao redor, percebendo que estão sozinhos naquele ambiente opressivamente quieto.

    Kwawe pondera por um momento antes de responder:

    — Fazer uma granada de luz é tão difícil assim?

    — Gerar luz, controlar… não é difícil! Mas moldá-la e empregá-la de forma sistemática, como numa granada, isso já é outra história. Requer precisão e um domínio refinado sobre as energias. O que acha? Hein? — ele se vira para Halyna, irônico como sempre.

    — Entendemos… — ri envergonhada, enquanto o homem permanece em silêncio, concentrando suas mãos e sua aura, que brilha translúcida, com tons levemente amarelados nas pontas.

    “Ele está concentrado…”

    Pensa a garota, observando Kwawe manipular sua aura com habilidade. Enquanto isso, Alexander permanece atento, seu olhar vasculhando o ambiente sombrio em busca de qualquer sinal de perigo iminente.

    — Estende energiam, fac ut totum meum in quinque partes dividatur! — Automaticamente, Kwawe cria cinco clones ao seu redor, uma habilidade concedida por sua técnica inata, Imitatio, que lhe permite clonar a si, outras pessoas ou objetos. — Dissipem suas auras! — Ele ordena aos dois, que abaixam suas auras no mesmo instante.

    — Certo! — resmunga o loiro. 

    E no mesmo instante, ambos os Kwawes se abaixam, recebendo consciência primitiva, uma alma artificial, liberando o ar que haviam aprisionado em seus pulmões até uma segunda ordem.

    — Romero tem gente lá fora suficiente para o número de denúncias que irão preocupar a ordem o suficiente, para tentar uma invasão! — ele declara, enquanto observa através das janelas envidraçadas o prédio da ordem no horizonte, erguendo-se acima de todos os outros. — Mas se o feitiço dele falhar, ou se mais exorcistas chegarem… todos teremos que apoiar Romero e Milk! — determina, encarando-os com seriedade.

    Pegando suas roupas que jaziam ao chão, enquanto os dois se encaravam. Cada movimento era calculado, cada respiração uma contagem regressiva para o momento em que as sombras engoliriam tudo ao redor, deixando apenas o eco das decisões sombrias que moldariam seus destinos.

    Ou o destino do mundo!

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