Índice de Capítulo

    — SENHOR! SENHOR!

    Um jovem rapaz entra às pressas, vestido com uma camisa polo branca, levemente amassada, sua gravata desarrumada e os cabelos desgrenhados. Seus olhos castanhos, arregalados e marejados de pavor, refletem o terror que sente ao invadir a sala de Kyotaka sem pedir permissão ou bater.

    Ele estava lendo mais um dos inúmeros papéis que o governador lhe enviara, protocolos detalhando “ações e medidas” que ele deveria implementar.

    — Sasori… acalme-se, o que houve? — Interrompe.

    — D-desculpe… S-senhor… Mas os terroristas… — ofega, recostando-se contra a parede, com vários papéis tremendo em suas mãos trêmulas. — Parece que o prédio administrativo de Katakana foi atacado. Os Iluminados mataram todos… segundo as testemunhas — Sua voz falha, entrecortada pelo medo. 

    — Prossiga!

    — E agora estão interditando o prédio… Devem estar planejando algo t-te-errível! — gagueja, o desespero evidente em cada palavra sussurrada sala.

    — Algo terrível eles já fizeram! — Kyotaka bate a mão na mesa com força, o som ecoando pela sala escura. — Isso foi minha culpa… merda… se eu tivesse ouvido Seiji e Hugo. Mas, se mataram todos, por que estão interditando o prédio? — Ele alisa a barba, arrancando alguns pelos acinzentados em frustração.

    — Não sabemos… mas há uma movimentação estranha. Parece que eles estão em seis ou oito! — Sasori coloca os papéis sobre a mesa, tentando se recompor. — Não acredito que Romero tenha feito… tenha feito isso!

    — Eles devem contar com a imprevisibilidade. Katakana tem poucos exorcistas na ativa… — Kyotaka se ergue, fechando os olhos e encarando a janela que dá para a cidade, enegrecida pela noite. — Não há tempo para surpresas ou lamentações, chame os Celestiais! Se não há reféns… não há por que nos contermos! — exclamou, sua voz carregada de uma determinação sombria.

    — Ah, os Celestes? Bem, certo! Certo! — Sasori agarra o smartphone, respirando pesadamente.

    — Diga que é um estado de emergência. Não sabemos o quão fortes eles podem ser. Exorcistas de grau cinco para baixo estão dispensados até segunda ordem. Os Celestes devem contê-los e, se necessário, matar! — O olhar de Kyotaka está tão severo que Sasori nunca o havia visto assim. Ele confirma com a cabeça imediatamente e sai desesperado, ligando para o departamento de emergência.

    Não bastam cinco minutos.

    A notícia logo alcança os Celestes. Gabriel, um dos primeiros a ser perturbado, está jantando com Zahira em um restaurante próximo, uma noite romântica do casal, no mais refinado em comidas típicas de Zafirat, um estado-país de Shamo.

    Os dois estão saboreando um Kabuli Pulao, um prato de arroz saboroso e aromático, preparado com carne de cordeiro, cenouras, passas e uma mistura de temperos. Mas quando Gabriel dá sua segunda garfada, sentindo aquele aroma temperado e o perfume da carne, seu smartphone toca e vibra em seu bolso, fazendo-o se assustar.

    O garfo cai no prato com um leve clangor.

    — Quem poderia estar ligando a essa hora? — murmura, tirando o telefone do bolso com uma expressão de irritação.

    — Trabalho? Masaru? Quem sabe? — brinca a garota.

    — Ah, merda… — ele fica sem graça, e logo o dela também toca na bolsa. — Será? — os dois trocam olhares e simultaneamente olham para seus telefones.

    — Caramba… Gabriel… — Zahira o encara, seus olhos refletindo decepção, e dá um suspiro, perdendo a pose inabalável. — Sinto muito… — ela se levanta imediatamente.

    — Eu já… estava preparado… mas não sabia que quando acontecesse é sempre um choque! — Gabriel também se ergue rapidamente, deixando uma bolada de 8 mil ienes na mesa, arrancando de sua carteira sem se importar. — Amanhã? — ele a encara, e ela assente. Não há tempo para trocar de roupa. Ele está de terno e gravata, com o paletó acinzentado, enquanto ela usa um vestido vermelho provocador, escolhido para seduzir seu parceiro naquela noite.

    Os dois passam a vida, mais uma vez por seu dever e, próximo de onde o caos se desenrola, um telefone toca.

    Trim-trim

    Ele está sobre a mesa de Zuri Mukanda, tirando o foco da mulher e fazendo-a errar sua assinatura em mais uma das dezenas de fichas para aprovação. Ela está prestes a recusar Megumi Watanabe, um dos herdeiros de Seiji. O rapaz é um fracasso total aos olhos de seu próprio clã, uma vítima da severidade de seu pai. Talvez fosse seu destino, destinado a ser privado da alegria. 

    Zuri suspira, seu olhar se desviando para o telefone que insiste em tocar. Cada toque parece a retirar da monotonia de seu trabalho, e a frustração com a pilha interminável de documentos à sua frente.

    Então, ela atende, colocando contra seu rosto, mas mal ouvindo as primeiras palavras antes de se erguer abruptamente, arrancando o telefone do fio com tamanha brutalidade da notícia.

    — Por Elum… que porra!

    A mulher não contém a língua e, rapidamente, pega seu casaco sobre a mesa, dirigindo-se à saída do prédio. Seus passos ecoam pelos corredores vazios, até alcançar a saída. Descendo a escadaria com pressa, ela larga seus saltos, o som ecoando pelo hall vazio. A noite lá fora está fria e silenciosa, e ela se apressa em entrar em seu veículo, rumo também, a seu dever.

    Enquanto isso, os smartphones de Daniel Lopez e Masaru ainda não haviam alcançado seus donos. O mais novo celeste havia esquecido o aparelho no bolso, que, junto à metade das suas calças, derreteu devido a sua extrema velocidade. Agora, suas calças mais parecem bermudas, uma visão cômica em contraste com a seriedade da situação.

    Daniel, por outro lado, está fora de alcance, ocupado com uma de suas missões fora de Aija, nas terras gélidas de Regnum.

    — Tá… Tá… já ouvi… — Masaru diz, dando as costas a uma das vítimas. O local está um caos, com ambulâncias, carros de polícia e até equipes de repórteres. — Que saco… — Ele caminha até a beira da estrada, colocando as mãos sobre a grama e percebendo que a energia negra ainda paira no ar.

    “Energia negativa… seja lá o que era, era grande… forte… Para causar um estrago e deixar a sua energia como pegada por tanto tempo… será que aquela pirralha deu conta?”

    Enquanto pensa, ele encara a montanha, que parece ter sido partida ao meio por um raio poderoso. Pedregulhos enormes enfeitam a selva a seus pés, dando uma impressão de destruição que só poderia ser causada por uma força titânica. A paisagem desolada, com árvores retorcidas e raízes expostas, parece contar a história de um cataclisma.

    A escuridão se espalha entre as árvores, como se a própria noite tivesse devorado a luz.

    “Caiu do céu…”

    Ele suspira frustrado.

    “Tenho que ir atrás de uma garota e limpar essa bagunça, caramba, isso é missão para um exorcista tão bom como eu? Meh, esse velho tá gaga para caralho!”

    Ele ri, mas o som parece deslocado naquele ambiente sombrio, ecoando perturbadoramente. Então, fita o horizonte às suas costas, onde o oceano de Flumen se estende como uma vastidão negra. Um rastro de energia maligna paira nos céus, levando a um horizonte distante demais até mesmo para seus olhos, que podem ver de cem a duzentas vezes mais que um humano comum.

    “Acho melhor eu voltar para Nova Tóquio… posso descolar um espetinho de frango… hehe… estragar a noite do Gabriel…”, sua mão vai ao queixo junto a um sorriso. “Amanhã eu vejo um barquinho para resgatar o defunto!”

    Ele coça os cabelos, encarando a estrada que parece se alongar infinitamente na escuridão. A velocidade de seus pés havia deixado uma brecha na estrada. O silêncio da noite é quebrado apenas pelo som distante das ondas quebrando contra a costa e pelo pânico humano, com a dor, morte e o desconhecido reverberando no ar. Gritos de desespero e murmúrios angustiados se misturam ao vento, criando uma sinfonia que faz a noite parecer ainda mais interminável e opressiva.

    Mas ele não se importa com suas dores, ele nunca se importou. Masaru é alguém distante, até mesmo dos outros exorcistas. Alguém que está além da morte, do bem e do mal, além do mundo. Seus olhos, frios e impenetráveis, refletem um vazio que ninguém consegue compreender

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