Capítulo 98 - Limbo
O tempo avança implacável, sem pausas… E a morte? Ela conta com precisão os visitantes e amantes de sua foice.
Jarves, seu último visitante, se encontra agora em um abismo de completa ausência, onde razão e sentimento se desfazem como névoa ao amanhecer. Ele está no meio de uma floresta negra, um destino cruel para aqueles que vagam sem propósito. Ele sabe que esse dia chegaria, que não desfrutaria dos prazeres do paraíso após nadar nas chamas eternas.
Despertando do choque da morte, ele sente a ausência do coração que um dia pulsava em seu peito. Tornou-se um espectro, um eco sombrio de seu último instante de vida, perdido nas terras do limbo.
— Eu… morri.
Cada instante é um tormento, sua alegria é lentamente consumida pelas sombras. No “firmamento”, não há mais clareza do céu, apenas o limite sombrio de Crea. Ele não é mais uma linha tênue entre a manhã e a noite, mas uma tapeçaria grotesca de raízes de árvores divinas entrelaçadas com a escuridão das profundezas. Árvores mortas e cobertas de neblina cercam-no, e os gritos de lamento ecoam por cada espaço, uma sinfonia de desespero.
Preso à sua perna, uma esfera brilhante pulsa como uma luz estagnada aos seus pés. Essa luz, indiferente e constante, não acende nem se apaga, permanecendo indiferente aos olhos dos outros, mas garantindo que ele continue ali, em uma espera interminável até que sua mente se torne uma sombra bestial…
Por quê? Desde sempre ele fora alguém sem propósito, um fantoche de seus pais, e mesmo agora, no limbo, sua história é marcada pela tragédia. Seus pais, que se suicidaram antes que ele alcançasse a adolescência, o deixaram com uma vida moldada pela dor e pela negação, uma vida que ele tentava justificar com os atos de outros.
Fome? Nunca foi o verdadeiro motivo. Seus pais faleceram porque desistiram de viver, incapazes de enfrentar a realidade que os cercava. Eles o condenaram a ver o mundo por uma ótica irreal, uma distorção criada por um trauma real que nunca o deixou.
Ele sempre foi mais para os outros do que para si. Até o final, foi apenas uma peça no tabuleiro cruel do destino. Não possuía a força em seu espírito que fazia Halyna justa ou a determinação que tornava Kwawe imbatível.
Nenhuma fé, nem mesmo a falsa, pôde salvá-lo em seu leito de morte. Em vez disso, sua habilidade de mentir o condenou ainda mais, unindo-o a uma legião de almas perdidas, que, como ele, estão condenadas a vagar sem redenção.
Ele entrou no barco, movido por uma indiferença total ao destino que o aguardava. Quando se lançou contra as pedras, tornou-se um mero colateral, sua única ação consciente uma tentativa fútil e ingênua de encontrar um propósito. Era um esforço desajeitado, uma última tentativa de ser útil, algo que ele nunca acreditou verdadeiramente que fosse.
Nunca se amou, nunca conheceu o amor-próprio genuíno, e agora se encontra caminhando por um vazio eterno, confrontando a dura realidade de que a morte é uma solidão implacável consigo mesmo. A paz está além de seu alcance? Não! Pois Elum moldou o mundo com ordem e sentimento, mas o caminho é árduo, um fardo que nenhuma alma até então teve o poder de suportar.
Assim, em um teatro de tragédia e morte, o fim parece chegar também para aqueles que se agarram à vida e a um propósito. Em um espaço e tempo que transcendem o físico e o astral, na interseção entre mundos, Antônio e Alexander se encontram presos no domínio inato de Masaru.
A virada do jogo é brutal e implacável. Sobre o palco de um teatro macabro, eles sentem a brisa gélida bater em suas costas como uma advertência sinistra. Atrás deles, uma infinidade de cadeiras se estende até onde a vista não alcança, cada uma delas uma promessa de espectadores que nunca comparecerão. O palco em frente é igualmente vasto, preparado para receber uma multidão de atores, mas não há um só rosto para se ver.
É um lugar elegante em sua opulência, mas a elegância é eclipsada pelo terror que permeia o ambiente. Em um segundo, as cortinas se abrem com um rangido penetrante, revelando Masaru em toda sua glória sombria. Atrás dele, uma entidade monstruosa se ergue às suas costas — uma parede pulsante de olhos e bocas, cujos sorrisos macabros espelham a expressão fria e prazerosa do exorcista. Cada estalo de dedos que ele dá ecoa como uma sentença de morte.
— Bem-vindos ao teatro dos moribundos! — Sua voz corta o silêncio com uma frieza cortante. — Vocês são os novos atores contratados!
O palco está armado, e a peça está prestes a começar.
— Esse cara… — murmura Alexander, dando um passo para trás, o olhar cheio de apreensão. — Você acha que temos alguma chance?
— Não! — retruca Antônio, a voz carregada de um ódio fervente. — Na real, não estou nem aí para chances… Eu só quero arrancar o coração do peito desse cara, mesmo que eu pereça! Ele me irritou muito… — Seu rosto está contorcido em um misto de raiva e determinação, sua boca aberta em um grito de desafio que parece pequeno diante da intensidade de seu ódio. — Ele matou pessoas importantes para mim. Minha vida sempre foi miserável, sim, eu fui miserável, mas quem nunca errou? — Sua voz treme com a fúria e a dor, e seus olhos brilham com uma luz insana.
Ele está cego por seus sentimentos, uma chama de raiva e vingança que o consome por completo. Não há nada mais humano do que isso? A necessidade de justiça, o desejo de retribuição, move os três naquele instante. São três almas perdidas e desesperadas naquele tabuleiro, armadas não só com suas armas, mas com suas verdades e mentiras, cada uma carregando a carga de suas próprias dores e motivações. E assim, com suas crenças e rancores como combustível, eles avançam para enfrentar o que está por vir.
Avançando, Alexander tenta transformar seu medo em uma arma, suas mãos moldando adagas invisíveis que cortam o ar em direção a Masaru. Masaru se esquiva com uma agilidade sobrenatural, antecipando o ataque. Ao recuar, ele vê Antônio aproveitar a abertura e avançar com um soco carregado de energia espiritual. Masaru, no entanto, aceita o golpe de propósito, absorvendo o impacto e sentindo o peso da raiva oponente.
— He! He! Então é assim mesmo… — Masaru ri, sua voz uma mistura de desdém e divertimento.
— O quê? Seu desgraçado?
— Fúria… como o grandão. Seus golpes parecem te machucar mais do que a mim! — Ele se aproxima, agarrando o pulso de Antônio com força desumana e arremessando-o contra Alexander com um movimento brusco.
— Grr… — Antônio ruge, o impacto o fazendo rolar pela madeira polida do palco enquanto o loiro se levanta rapidamente, seus olhos queimando com uma fúria que queimava sua alma enquanto encara Masaru.
— Antônio!? — Alexander grita, sua voz cheia de preocupação e incredulidade.
Ele observa o amigo, que bate no piso com raiva crescente, seu punho não treme com a dor do impacto sem energia espiritual, mas seu corpo treme com a intensidade de sua frustração.
“Esse maldito… ele está levando isso como uma brincadeira!”
Pensa, sentindo um frio na espinha. A percepção de que Masaru vê a situação como um jogo cruel intensifica a desesperança e a determinação dos dois, enquanto eles se preparam para enfrentar o que parece um desafio insuperável.
Apesar de as técnicas do domínio de Masaru não serem claras, o fato de ele ter superado o plano anterior e ainda estar tranquilo é perturbador. Mesmo com a ferida não completamente curada e tentando causar um pouco de dor, ele permanece inabalável. Sua postura, calma e desdenhosa, transmite uma confiança que faz com que seus adversários se sintam ainda mais impotentes diante de sua imponente presença.
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