Índice de Capítulo

    Em outra dimensão, onde a escuridão predomina e o lamento dos condenados ecoa incessantemente, Leviel desperta de um torpor profundo.

    A neblina opaca de um pesadelo distorcido ainda paira sobre sua mente, enquanto a sensação de seu corpo parcialmente restaurado se manifesta, fruto de sua voracidade insaciável inata por inveja, uma força que se espalha como uma praga insidiosa pelo mundo e serve como seu principal catalisador de força e vitalidade.

    Ele se encontra agora em uma cama digna de um monarca dos pesadelos. Lençóis de “seda” negra, adornos de ouro intrincados, como chifres de um dragão maligno, e uma bandeira com o símbolo de sua serpente marinha, seu leviatã, decoram o ambiente.

    E através da janela, com os ombros apoiados na moldura, Mael contempla o horizonte aterrorizante das Terras do Mal — uma extensão interminável de areia negra e cavernas abissais que parecem devorar a própria luz, encarnada no pilar ao centro.

    — Pensei que você não fosse acordar tão cedo! — Mael se vira, exibindo um sorriso predatório, com dentes que reluzem como lâminas afiadas. — Mas, aparentemente, vasos ruins não quebram com facilidade, não é?

    — Ah, Irmão… — Leviel tenta se levantar, mas uma dor aguda percorre cada fibra de seu ser, como se o próprio tecido de sua existência estivesse se contorcendo em resposta ao esforço que teve no embate. — Quanto tempo eu dormi? — Ele perdeu completamente a noção do tempo e dos sentidos.

    — Se estivéssemos em Crea, você teria dormido a manhã toda! — o demônio coloca as mãos nos bolsos de seu manto soberano de monarca, seus olhos brilhando com um brilho frio e nada satisfeito. — Mas deu tudo certo, se é isso que você quer saber…

    — Que alívio! — Leviel comenta, observando o deserto negro do horizonte, um lugar que se assemelha a um campo de tortura eterno. Em sua visão, aquele inferno é abominável, e estar ali é um tanto incômodo. — Seria uma desgraça ter feito isso em vão!

    — Não pensei que você fosse capaz! — Mael se senta à beira da cama, com um olhar desdenhoso. — Asmael e Luciel também devem ter pensado o mesmo… Mas você teve o seu momento de protagonismo, haha!

    — Protagonismo? — range os dentes. — E quanto a você? Imagino que tenha apanhado bastante, não?

    — Nada disso! — Revela com um tom de desprezo, desconsiderando a própria situação. — O sujeito nem apareceu… Fiquei lá, esperando como um mero enfeite! — A entidade olha ao seu redor com uma expressão entediada.

    — Sério? — ri, sentindo seu corpo doer a cada risada. — Deixe-me adivinhar… éramos alvos?

    — Exatamente! — Mael afia o olhar, revelando um brilho maligno nos olhos. — Luciel mudou de ideia… Talvez tenha decidido que somos mais valiosos do que ele pensava!

    — Ele se lembrou de que há males maiores que uma pirralha… Azaael, Bezeel… Eles nunca vão permitir que ele execute seu plano! — indaga, colocando a mão sobre o ombro direito. — E nós, também não… Imagina viver eternamente como servos desse cara?

    — Um mundo onde eu não poderia desfrutar dos luxos… — Mael pensa em voz alta, sentindo um amargo invadir seus lábios. A ideia de viver sob a ótica idealista de seu irmão Luciel, a qual lhe causa tanta repulsa, é desconcertante. — Seria uma verdadeira merda! Mas o que podemos fazer? De qualquer jeito, se tentarmos uma traição, acabamos mortos, não é?

    — Tão poderosos e, ainda assim, impotentes! — zomba. — Mas não estamos totalmente à mercê da morte. Há um momento… quando ele terminar de conjurar a cruz do fim, podemos os três, eu, você e Beel, acabar com tudo! — sussurra, com certa certeza na voz.

    Ele já havia tramado isso, desde que se sentiu incomodado, antes mesmo de emergir das profundezas de Flumem.

    — Mas seria suficiente?

    — Com a dádiva do Beel, Sim! Podemos prever os fracassos e mudar o rumo… seria arriscado, mas que chance temos ao arriscar estar nas mãos do nosso chefinho!? — De repente, ele se cala, balança as orelhas e ouve passos se aproximando.

    Então a criatura mira para a porta, que se abre, revelando Gallael.

    Ele está com a feição de um cão, submisso após fazer todas as exigências de seu dono. Assim, ele se apresenta: o mensageiro e porta-voz.

    — Você…

    — Oi para você também, Leviel… — responde Gallael, aproximando-se com urgência dos dois. — Preciso da ajuda de vocês!

    — É rei Leviel, pirralho! — o demônio praticamente ordena, sua posição na hierarquia demoníaca lhe confere autoridade.

    Mesmo que deteste viver dessa forma, faz valer seu título, trazendo um alívio cômico para os outros dois.

    — Ah, ajuda? — Mael ri com a atitude do irmão. — É para matar uma exorcista? — Ele age provocativamente.

    — Reis… — Gallael diz, quase gritando, cerrando os punhos com impaciência diante das atitudes infantis dos outros. — Preciso da ajuda de vocês para recrutar demônios. Vocês, como reis, têm bastante influência aqui! E, como eu também estive fora até meu pai me chamar, não estou em posição melhor para inspirar confiança nos outros, certo? — clama, sem torcer seu orgulho ou se ajoelhar, mantendo o ego intacto.

    — Recrutar? — Mael troca olhares com seu irmão e então se ergue, emulando uma animação um tanto falsa. — Então estamos preparando as tropas? Que máximo!

    — Cara, eu até te ajudaria, filhote do Luciel, mas estou tão fudido! — o outro suspira. — Melhor eu ficar aqui até estar a todo vapor novamente, certo?

    — Entendo… Foi difícil o embate, não é? As garotas, quando querem, são bem fortes! — zomba, virando-se e dando as costas para o olhar emburrado de Leviel. — Vamos, rei, melhor adiantarmos nossos serviços!

    — He! He! — Mael pisca para Leviel e, em seguida, lança um olhar para as costas do príncipe infernal. — Vamos lá! E depois, escolheremos nossas coleiras e colocaremos nossos nomes nelas! — Sua brincadeira faz o demônio encolher os ombros, uma sombra de exasperação passando por seu rosto.

    — Engraçadinhos… vocês são tão humanos! — Gallael resmunga, enquanto os dois saem, adentrando o corredor sombrio. As paredes parecem respirar com uma malícia viva, o mal está se movendo a cada instante, sem frear, como um predador faminto à caça de seu futuro ideal.

    As peças estão postas para a próxima rodada, e agora, a humanidade, ao menos aquela que deveria estar, está ciente do que está por vir.

    Logo, as cinzas das batalhas passadas se dissipam, apenas para dar lugar às brasas que prenunciam novos conflitos, prontos para arder com ainda mais intensidade.

    No jogo dos demônios e dos homens, cada movimento é uma aposta arriscada do futuro, e o tabuleiro arde com uma tensão que só cresce…

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