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    Acordando na mesma ilha em que desmaiou de exaustão, Arthur abre os olhos com dificuldade. Seus lábios ressecados, partidos, sentem o sal penetrar, enquanto a água do mar molha seus pés.

    O céu acima está pesado, encoberto por nuvens carregadas, e o ar parece estagnado, abafado pela presença da tempestade que se forma ao longe.

    O cheiro da maresia se mistura ao odor pútrido que invade suas narinas.

    E com os dedos enfiados na areia úmida, ele toca uma face fria, rígida. O corpo, antes cheio de vida de Yelena, agora é um lar para larvas que a devoram lentamente. Arthur mal reconhece o cadáver ao seu lado.

    A energia que mantinha sua aparência foi arrancada, sugada por completo. E a natureza finalmente tomou sua parte, alimentando-se de tudo o que restou, e Arthur é o catalisador desse processo.

    Sua estrela em terra consumiu os restos de uma estrela que se apagou…

    Um líquido viscoso, espesso, escorre sob o corpo, uma mistura de cores escuras que lembram o sangue impuro e sujo. Ele sente o tempo se distorcer ao seu redor, como se o próprio universo o estivesse arrastando para fora de seus domínios, um abismo além das barreiras que sua mente sequer pode compreender.

    Tudo está desmoronando em uma espiral caótica… ou ao menos, em sua mente, o mundo está definhando.

    Seus olhos, vazios de qualquer emoção, já não contêm lágrimas. Ele se levanta com esforço, cada movimento pesado, e olha para o horizonte. Não há nada ali além de incerteza. Seus lábios rachados murmuram um suspiro de pura exaustão e desesperança.

    Poderia ser o caminho de volta à sua casa, mas era o caminho para o teatro de suas dores.

    — O que farei? — Sua voz ecoa no ar espesso, tentando romper a tempestade que ruge dentro de sua mente. Cada pensamento é um redemoinho de dúvidas, cada possibilidade parece uma ilha distante, isolada por uma densa névoa que nublava seu julgamento. Ele se sente preso, como se qualquer decisão que tomasse fosse insignificante, tragada pelo turbilhão que o cerca. — Droga! — pragueja, mas sua voz é rapidamente engolida pelo vento crescente, como se até o mundo ao seu redor se recusasse a ouvir suas súplicas.

    Insignificante… Tal qual era para o universo e o acaso.

    Essa tal morte, que sempre presente e implacável, tornou-se uma velha conhecida para todos que vivem em Crea. Mas para Rasen, a centenas de quilômetros dali, ela é seu maior alvo de culto, e enquanto a esperança foge de todos os outros, ele ousa viver uma manhã que, para ele, poderia ser considerada calma, mesmo em um cenário de horror.

    Sentado em uma mesa de metal gasta e enferrujada, ele desembrulha um hambúrguer com uma calma perturbadora. Ao seu lado, uma garrafa de refrigerante condensa em gotas sob o calor sufocante do ambiente. No entanto, o verdadeiro problema não é o simples ato de comer diante do fúnebre — não quando o que o acompanha não é apenas a solidão, mas a presença insidiosa da morte.

    Seu corpo está encharcado de sangue. O vermelho vívido mancha sua face, escorrendo sobre suas mãos, enquanto ele morde o lanche com uma indiferença. O cheiro metálico do sangue fresco, misturado ao aroma gorduroso da carne frita, invade o ar, transformando o galpão deserto em um lugar que já não pertence ao mundo dos vivos ou somente ao abandono. Cada mordida ecoa sua frieza, como se a vida que acabou de tirar fosse apenas mais um detalhe, uma nota de rodapé em sua história.

    Vinte minutos. Esse é o tempo exato desde que “abriu” a realidade à sua volta — o suficiente para arrastar o corpo mutilado do desafortunado pelo chão de concreto áspero até àquele domínio. A trilha de sangue e vísceras marca o caminho, desenhando uma linha grotesca da entrada até o fundo do galpão.

    Ali, ele mantém seus pés confortavelmente apoiados no rosto desfigurado de sua vítima. O cadáver, com a barriga aberta e os intestinos expostos, jaz como um tapete, seu corpo inerte servindo de mero apoio para o conforto para o messias.

    Com os lábios sujos de sangue, ele lambe os dedos após cada mordida, limpando ocasionalmente os dentes com a língua para se livrar dos pedaços de carne que ficam presos. Seus olhos, frios e sem emoção, encaram o vazio com uma mistura de desprezo e superioridade.

    A carne humana, porém, não foi tocada por qualquer manifestação de seu poder espiritual — foi pura força física, brutal e primitiva.

    A vítima, um homem magro e esguio, teve sua face destroçada pelos dentes de Rasen, e seu abdômen rasgado pela força de seus braços.

    E o único que vê cada ato de suas ações, desde o tremor doentio de seus olhos até este exato momento, é Hazan, seu fantasma…

    — Você é nojento… e deprimente — diz, sentado do outro lado da mesa. Sua voz é carregada de desprezo, os dedos tamborilando levemente sobre a superfície desgastada. Seus olhos observam cada movimento dele com asco, enquanto ouve os estalos grotescos de prazer que ele faz ao mastigar.

    — É? — responde, com um sorriso torto e maníaco, cuspindo um pedaço de pele que ficou preso entre os dentes. Ele tosse, rindo em seguida, um riso macabro que ecoa pelas paredes vazias daquele lugar.

    — O que te assusta, Hazan? Somos como lobos. Depois que você se acostuma com a ideia da cadeia alimentar, para de ver as pessoas como pessoas… — Ele faz uma pausa, mastigando mais um pedaço do hambúrguer, os olhos brilhando com um sadismo perturbador. — Talvez como animais. Animais difíceis, incompreensíveis… é, essa é uma boa forma de ver.

    — Cadeia alimentar? — o fantasma pergunta, em tom seco, enquanto seu desprezo pelo homem à sua frente cresce.

    Ele só pode dar palco à sua insanidade.

    — Isso mesmo… — chuta o corpo sob seus pés com desdém, o olhar maníaco cravado nos olhos de seu julgador, enquanto mastiga com mais desprezo pela vida alheia. Ele toma um longo gole de refrigerante, a bebida escorrendo por seu queixo e manchando suas roupas ensanguentadas. Ri mais uma vez alto, um som que reverbera como um eco de insanidade pelo recinto. — Demônios comem humanos, Hazan. Eles são maiores… são melhores.

    Mesmo inerte de físico, dado aos outros atos, ele se surpreende e o observa com olhos sombrios, seus dedos agora imóveis sobre a mesa, acusando que salvação jamais terá. O nojo que sente pela natureza corrupta dele cresce, com a certeza de que, por trás daquela perversidade, há um abismo ainda mais profundo.

    De messias a psicótico, ou… sempre foi o psicótico que vestia o manto de salvador?

    — E você se vê como um? — pergunta, sua voz carregada de uma calma glacial, como se quisesse entender até onde vai à loucura daquele homem.

    Um dia, foi seu amigo…

    — Serei um! — Rasen grita, o olhar de fanático brilhando enquanto mastiga com um prazer animalesco, os dentes ainda manchados pelo sangue da vítima.

    Mas, para chegar naquele ponto, algo deve ter mudado drasticamente, alguma coisa… deve ter ocorrido no curto espaço de tempo, e de fato… ocorreu…

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