Capítulo 154 – Sobreposição Consciencial
Várias ramificações do tempo-espaço se entrelaçam, criando múltiplos cenários possíveis, como rios divergindo em infinitas direções. O que para os seres é invisível — uma simples sequência linear de eventos — para Luciel e seu fiel cão, Asmael, é um emaranhado de realidades coexistentes.
Eles são os únicos que compreendem verdadeiramente o que está acontecendo, o que estão fazendo.
Mas por quê? Como conseguem tal consciência?
A resposta reside em um fenômeno complexo e enigmático, conhecido como sobreposição consciencial.
Esse efeito permite que um indivíduo, ao tomar consciência de uma variação no tempo-espaço, transcenda as limitações de sua própria linha temporal. Se Luciel ou Asmael são projetados para o passado ou futuro, eles não simplesmente coexistem com suas versões mais antigas ou futuras; eles as sobrepõem. Ao contrário de seus irmãos, filhos, inimigos e aliados, que se fragmentam e se multiplicam nas infinitas variações temporais, o dragão dourado e a serpente permanecem os mesmos, invariáveis desde que o primeiro fracasso do imperador foi abandonado. O primeiro mundo, o original, onde ele foi derrotado e quase extinto, foi quando ele decidiu manipular o tecido da realidade, através do poder de seu irmão, e criar esse caos…
Entretanto, a sobreposição consciencial não é sem custos. E os efeitos colaterais, como sombras de pesadelos, ressoam nos outros seres ao redor. A insanidade de Bezeel, cujas múltiplas existências corroem sua mente, o abandono deliberado de Beel à sua natureza demoníaca, e o advento do nascimento de Masaru, uma vacina da ordem para parar os demônios.
Estes são apenas alguns dos colapsos psíquicos que surgem devido à conexão entre várias existências em uma única linha de tempo.
Cada vez que Luciel ou Asmael viajam por meio de uma dessas dimensões temporais, criam-se novas variáveis, novos universos paralelos, onde finais e inícios coexistem infinitamente. Cada decisão tomada, cada desvio do caminho, gera novas ramificações, como veias pulsantes de um corpo temporal que nunca cessa de se multiplicar.
Ainda assim, por mais que dominem o conhecimento do tempo-espaço, eles não estão imunes às consequências de suas escolhas. Cada viagem, cada sobreposição traz consigo um fardo, não apenas físico, mas psicológico.
Luciel e Asmael ignoram essa carga crescente, como se a dor e as consequências fossem detalhes insignificantes em sua missão maior. A sensação é de que, se houvesse um poço no fundo do qual eles estivessem presos, não só teriam começado a cavar de lá, como jamais parariam.
Essa vastidão e complexidade é o que mantém o grandioso imperador acordado em seu trono, os olhos focados no horizonte, como se pudesse enxergar cada uma dessas ramificações dançando ao redor de seu destino. Ele está sentado, a postura relaxada, mas os pensamentos pesados como uma montanha, e, diante dele, Asmael, seu irmão mais leal, aguarda silenciosamente.
— O pirralho… ele está indo bem? — pergunta o imperador, sua voz grave cortando o ar.
— O Gallael está indo bem, sim. Ele é um bom líder e, acima de tudo, está focado em fazer o certo, meu senhor — responde com um meio sorriso, uma confiança suave na voz. — Ele acabou de chegar, por falar nisso… devo chamá-lo?
O imperador levanta a mão, cortando a oferta abruptamente. Seu cotovelo descansa no apoio do trono, a mão segura a face com desdém.
— Não… — murmura, o olhar distante. — Antes, quero que me responda uma coisa. Você acha que estou fazendo o certo?
Asmael endireita-se, surpreso pela pergunta inesperada.
— Eu acho, senhor. — Sua resposta é firme, a voz sem vacilar. — Com o ataque dos meninos e a ajuda do humano, iríamos começar esse jogo com um xeque!
O imperador, no entanto, permanece imóvel, a voz baixa como um murmúrio:
— Não falo disso…
A sala parece esfriar, como se as próprias paredes prendessem a respiração. Ele continua, mais para si do que para Asmael:
— Falo do plano de iniciar o apocalipse dessa forma. Já tentamos tanto… Exterminar os exorcistas com uma guerra, nos unir aos iluminados… Agora estamos dando palco para um lunático. Estou agindo corretamente?
Asmael, pela primeira vez em eras, hesita. Ele tenta formular uma resposta, mas as palavras lhe escapam, perdidas no peso do dilema que o irmão lhe apresenta.
— Ehr… senhor… eu acho…
Antes que ele possa concluir, o imperador o interrompe com uma risada inesperada, carregada de um tom brincalhão que destoa do momento anterior.
— Consegui te deixar surpreso! — Ele ri mais alto, os olhos brilhando com uma excitação incomum. — Acha mesmo que eu teria dúvidas?
Asmael, desconcertado, solta uma risada sem graça.
— Está brincando comigo? — pergunta, tentando recuperar sua compostura.
— Claro que estou! — O imperador se inclina à frente, sua voz tomando um tom mais leve, quase divertido. — Você me conhece, irmão. A humanidade, em todas as realidades que criamos, sempre foi a mesma: podre, ignorante, pecadora…
Ele suspira profundamente, a expressão mudando para uma seriedade amarga.
— E Elum? Ele sempre deu esperança a eles, sempre lhes ofereceu uma saída. Nunca de fato os puniu. O homem deturpa a criação e, diferente de nosso senhor Alum, eles nunca sofrem as punições que merecem. Sempre há uma saída, uma misericórdia que os mantém intactos.
O imperador parece afundar ainda mais em seus pensamentos, como se a vastidão das realidades que criaram ao longo das eras o oprimisse. Asmael, no entanto, conhece bem esse lado de seu irmão. Sabia que, por trás do sarcasmo e da confiança inabalável, há uma dúvida silenciosa que cresce a cada nova ramificação temporal.
Será que dará certo? A pergunta ecoa na mente do dragão como uma onda persistente. Será apenas mais um passo adiante? Ou, finalmente, a vitória tão aguardada?
Por mais que ele mantenha a fé em seu irmão e em seu destino, ou dê a entender isso, há algo que o incomoda ao ponto de parecer nítido, uma sutil incerteza que nunca consegue afastar por completo, por mais que ouça discurso após discurso. A única dúvida que Asmael guarda em sua mente, algo que ele jamais ousaria compartilhar com o imperador, é sobre a verdadeira origem dos desejos dele. E se os anseios de seu irmão não forem apenas seus?
Uma sombra de inquietação passa pelos olhos. Serão os planos de Luciel fruto realmente de sua vontade inquebrantável, ou poderiam ser vislumbres da influência de Alum, o senhor verdadeiro das trevas, corroendo sua mente coroada de ambição?
Asmael sabe que a linha entre a independência de Luciel e a manipulação divina é tênue. Ele se pergunta, em segredo de todos, se tudo o que têm feito até agora não passa de um jogo cruel, onde o livre arbítrio não existe realmente… Até onde Alum estende sua influência? Essa é a questão que ele nunca pode responder, e talvez seja o único temor que ele não admite a si.
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