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    E enquanto outros ainda planejam meticulosamente seus próximos passos, Sofie e Satoshi recebem alta do hospital. Ao saírem, o vento gelado da manhã os envolve, mas nenhum dos dois parece notar. Em silêncio, entram no táxi, e um peso invisível paira no ar, tornando o ambiente ainda mais opressivo. O motorista, ansioso para romper aquele silêncio constrangedor, ajusta o retrovisor, mas tudo o que vê são duas figuras distantes, quase desconhecidas uma da outra.

    — Sério? Ainda tá mal com a brincadeira? — Satoshi rompe o silêncio, tentando forçar um tom leve, mas a tensão na sua voz é evidente.

    — Não fala comigo… — ela responde com uma frieza cortante.

    Ele ergue a sobrancelha, tentando esconder o incômodo.

    — Garotas… — murmura, como se a justificativa estivesse ali. Mas, por trás de suas palavras, há uma inquietação. Na sua cabeça, o episódio da sopa ainda parece uma piada inofensiva. Ele havia salgado tanto a sopa dela que a situação beirou o cômico; a sopa entornou, sujando a cama e a própria Sofie.

    Para ele, ainda é engraçado. Mas as emoções que preenchem a garota — medo, angústia, preocupação — tornam esse ato um sacrilégio.

    — Garotas!? Você é um imbecil, Satoshi! Caramba, nem parece que é o filho do Kyotaka…

    A resposta dela corta o ar como uma lâmina afiada. As palavras pesam no espaço estreito do carro, cada sílaba dita impregnada de desdém. Enquanto se inclina para frente, a frustração transborda no gesto.

    O motorista, um jovem adulto lidando com os deveres da maior idade, estava nervoso e sente o desconforto e quase perde o controle ao perceber os olhos de Sofie em sua direção.

    — Pode parar aqui? — sua voz é dura, deixando claro que não quer prolongar a viagem com Satoshi.

    Mas Satoshi, sem a encarar diretamente, olha pela janela, fingindo uma indiferença que não sente.

    — Não é necessário… — murmura, seus olhos brevemente recaindo sobre as pernas dela. — Oh, Branca de Neve, para de show… logo chega em sua casa!

    Sofie, percebendo o rubor no rosto dele, recua para o banco com uma expressão de leve surpresa.

    — Hmm… — murmura, intrigada. — Tá corado… tá bem?

    Satoshi, tentando retomar o controle da situação, disfarça a voz mais suave que escapa. 

    — Ótimo… bem…

    Os dois estão agitados, e mesmo tendo recebido o apoio de Gabriel, não conseguem escapar do desânimo do fracasso. Sofie sente o lado ruim, enquanto Satoshi visa enxergar o bom… Essas são as facetas de alguém que só os mais próximos conseguem conhecer.

    Mas o fracasso…

    Kryntt, sentado à beira de seu sofá, sente o peso dele preencher o seu coração.

    A única luz vem da televisão à sua frente, com uma enxurrada de reportagens discutindo o papel dos exorcistas, questionando sua relevância e até sua humanidade. Parece uma acusação constante, uma corrente interminável de críticas contra aqueles que, como ele, arriscam suas vidas para manter o equilíbrio entre o mundo dos vivos e os horrores do além.

    Ele respira fundo, pegando a lata de refrigerante que esvaziara.

    O líquido doce ainda escorre pela garganta, mas o gosto amargo das palavras que ecoam na televisão é o que realmente o incomoda. Com um movimento brusco, atira a lata vazia no chão, onde ela rola, fazendo um barulho oco contra a madeira. Ele se joga para trás, os braços estendidos, os olhos perdidos no teto como se ele fosse o próprio cosmos.

    — Ingratos… — murmura, a voz carregada de desdém e cansaço.

    Tudo parece tão insignificante, mas, ao mesmo tempo imenso.

    As luzes celestes que não consegue ver, as divisões do infinito espaço que se estendem no vazio de sua mente… Ele tenta encontrar algum significado na vastidão que imagina acima de si, mas tudo o que sente é um vazio cortante, uma lembrança distante do que um dia o motivara.

    “Morreu para proteger aqueles que nos massacram com suas palavras e seus medos.”

    Pensa em Hazan, o exorcista que morrera por aqueles que agora os condenam.

    “Maldito seja o homem escravo do próprio pecado! Não deveria ser crime atear fogo nos corações infernais, mas…”

    Esse pensamento se arrasta até desaparecer no cansaço.

    Ele fecha os olhos, navegando entre ideais que não lhe pertencem. Há os princípios de Romero, de Rasen, ambos carregados de um senso de dever herdado, algo que ele deveria ter seguido. Do outro lado, há a paixão caótica de Masaru, sua confiança cega em um destino traçado por violência e desafio.

    Mas não é nenhum deles. Nenhuma dessas verdades ressoa nele. A morte, o trauma, o luto… tudo isso o faz se perder, esquecendo de quem ele realmente é.

    Deitado ali, no escuro, tudo parece desmoronar lentamente.

    A sensação é de afundamento, como se o peso do mundo estivesse se acumulando sobre seu peito, sufocando qualquer faísca de esperança. Cada pensamento, cada lembrança, parece se afogar na escuridão opressiva daquele quarto.

    Mas a verdadeira pergunta que pulsa em sua mente é: quem ele realmente é?

    O “lendário felino”, o apelido que muitos sussurram com reverência e temor, soa vazio agora. Kryntt, outrora um nome que trazia pavor a qualquer criatura das trevas, parece ser uma sombra de si. Quem é o leão que emergiu da morte e se tornou o mais bravo entre todos?

    As memórias distorcidas de batalhas épicas, onde ele liderou exorcistas ou se aliou a seus falecidos colegas contra inimigos imortais, parecem distantes. O orgulho que um dia o fez lutar com fúria inabalável agora se dissipa como fumaça.

    Ele se lembra vagamente do momento em que “morreu”. Não uma morte física, mas a morte de sua essência, quando o mundo virou as costas para ele e seus companheiros. O que antes era sua força, sua crença inabalável na justiça dos exorcistas, começou a ruir. Cada perda, cada derrota, cada amigo que perecia, o corroía por dentro.

    Mas agora, deitado na penumbra de seu próprio quarto, ele não sente mais essa bravura. O lendário, que rasgava o medo com garras afiadas e um olhar flamejante, está perdido em um labirinto de dúvidas e questionamentos. O rugido que antes ecoava e dissipava as trevas agora é um sussurro distante, uma lembrança quase esquecida.

    “Eu não sou mais aquele leão!”

    Ele admite silenciosamente para si, enquanto o teto o encara de volta, imóvel e indiferente.

    “Quem eu sou?”, ele se pergunta. “Um guerreiro quebrado? Um homem sem propósito?” Mas, no fundo, ele sabe que a resposta não é tão simples. Ele é o homem que viu o lado mais sombrio do mundo, que perdeu tanto que já não sabe o que resta para ser salvo.

    Mesmo assim, uma parte dele ainda deseja encontrar uma nova verdade, uma nova razão para lutar, para rugir como o leão que ele um dia foi. Talvez a vingança que jurou… vingança, a motivação que bradou ser a mais pífia, seja a que o mova.

    O ódio, a vingança, seja o lar dos covardes, o caminho para os homens que não sabem o que fazer com a dor.

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