Capítulo 176 – Divagações, Filosofia…
— Então, você quer… que busquemos redenção? — A voz de Gallael sai como um murmúrio de desalento, cada palavra pesada como se carregasse o peso de séculos de uma verdade que já não existe. Ele mantém o olhar fixo em Asmael, buscando ali respostas para angústias que nunca ousou confessar.
A proposta que o demônio rei acaba de fazer parece um paradoxo cruel: redenção para aqueles que nunca conheceram a verdadeira luz.
Ele ergue o rosto e seu semblante exibe uma rigidez quase espectral, mas em seus olhos há uma chama de convicção que parece inquebrantável, como se, de alguma forma, ele já tivesse aceitado o fardo de um destino sombrio… o autossacrifício.
— E existe algo diferente que possamos buscar? — Sua voz soa como o aço cortando a penumbra. — Há eras, nossos corações foram arrancados das utopias, despedaçados e jogados ao abismo. Hoje, não restam senão fragmentos, sombras do que éramos, carregados de dor e escuridão… Como crer que há futuro nisso? — Ele pausa, deixando o silêncio sublinhar a profundidade de cada sílaba.
E então…
— Redenção talvez nunca nos purifique, Gallael. Mas pode, ao menos, interromper este ciclo. Essa espiral infindável de caça e caçador, de violência e perda… Se você não caça, é caçado. Essa é a única lógica que conhecemos. E, honestamente, não há mais nada para nós, exceto essa brutalidade!
Isso faz o príncipe apertar os punhos, seus olhos espelhando uma luta interna, como se sua própria essência estivesse sendo dilacerada entre a aceitação e a negação do que ele propõe. A ideia de redenção soa, ao mesmo tempo, como uma piada amarga e uma tentação inalcançável… seria possível?
— Loucura… é o que parece. — Sua voz carrega o peso da angústia. — Confesso que nunca acreditei em paz. A única coisa que sempre me sustentou, que me deu alguma forma de propósito, foram meus irmãos, os laços frágeis de nossa existência. Mas esses laços, Asmael, foram corroídos, distorcidos, perdidos nas sombras! — Ele suspira, a frustração quase transbordando.
Não são suas últimas palavras…
— Redenção… você acredita mesmo que existe algo assim para criaturas como nós? Para demônios cujas mãos estão manchadas de tanto sangue?
— Se desistirmos de acreditar, Gallael, então o que resta? — A resposta dele vem firme, mas suave, com um toque de compaixão e esperança. — A luz, em sua essência, é compassiva. Ela acolhe até aqueles que, como nós, renegaram seu brilho. E sim, a redenção pode parecer uma ilusão infantil, um jogo de tolos. Mas sem ela… o que ainda nos mantém em pé? — Ele o fita intensamente, as palavras sussurradas com uma leveza que contradiz o peso de sua mensagem.
— Somos tolos, não?
— Sim, talvez sejamos tolos. Talvez seja tolice acreditar em esperança. Mas diga-me, Gallael, quem, em meio a essa guerra interminável, não carrega um pouco de loucura e esperança ingênua?
O príncipe fecha os olhos por um instante, sentindo cada palavra dele como lâminas cortando profundamente em sua relutância. Ele sabe que esse caminho exige mais do que coragem; exige aceitar que sua existência, suas falhas e suas ambições são meros grãos de poeira em um ciclo imortal e indiferente… E sua existência, no final, será mera engrenagem do futuro.
— Então, devo acreditar que… que este sacrifício será mais do que uma nota dissonante na melodia do tempo? — Sua voz quase se perde em um sussurro. — Mas, ao mesmo tempo, há uma amargura em saber que nunca verei o fruto desse gesto. Que essa redenção, se é que existe, ficará como uma promessa vazia, perdida nas marés do tempo, inalcançável!
Asmael o observa, seu olhar afiado como uma lâmina, mas há também uma sombra de compaixão que suaviza seu semblante. Ele, que sempre esteve à sombra da mesma redenção inalcançável, entende profundamente o desespero e a ironia daquela busca interminável.
Ele sabe que, no fim, a redenção é “apenas” um mito, algo inalcançável, mas necessário.
— Gallael, redenção é um sonho distante, talvez até impossível — sua voz soa quase amarga, uma bebida que cai em seus lábios fermentada pela sabedoria nascida do desespero. — O universo não se importa com nossos dramas, não se importa com nossa dor. Tudo o que nos resta é o gesto. A escolha. O grito silencioso contra o vazio. Queremos mais do que sermos peças manipuladas? Queremos existir por nós mesmos, nem que seja por um momento fugaz. Não se trata de buscar o perdão, mas de afirmar que, por mais insignificante que nossa existência possa parecer, por um instante… escolhemos ser mais do que a escuridão que nos cerca!
Isso o faz refletir, sentindo o peso esmagador daquelas palavras, mais uma vez caindo contra si. Ele é um reflexo de seu pai, uma sombra projetada por escolhas que nunca foram suas. Mas, ironicamente, ele vê, talvez pela primeira vez, que apenas no momento de sua queda ele terá a chance de se erguer como alguém que vive por si, que desafia o destino imposto.
— E você, Asmael? — A voz dele soa fraca, quase hesitante. — Esse conformismo que você carrega… é suficiente para você? Ou é apenas outra forma de resignação?
A entidade ergue o olhar para o vazio, um sorriso irônico brincando em seus lábios, carregado de um amargor quase cínico.
— Suficiente? Talvez, Gallael. Mas resignação, nunca! — Ele exala profundamente, como alguém que finalmente aceita o peso de seu próprio fardo. — Meu destino é como o teu; somos peças quebradas em um tabuleiro implacável. Mas cada um de nós, ao decidir como cair, pode definir o próprio eco. No fim, a satisfação é apenas uma ilusão que damos a nós mesmos. O que resta é propósito, uma fagulha de existência em meio ao caos!
— Entendi… por isso você veio atrás de mim — Seus olhos fixos na figura à sua frente. — Esse entendimento, essa insatisfação… mas, chega de rodeios. Há um trabalho a ser feito, não é? É isso que você também queria me dizer? Que faz parte da tal redenção? — Sua voz se eleva sutilmente, quebrando o silêncio tenso que os envolve, como um grito abafado que finalmente escapa. A figura imponente, a entidade rei, apenas fecha os punhos, um brilho sombrio em seu olhar.
Ele assente, seus olhos, que parecem carregar as profundezas de eras incontáveis, mantêm-se impassíveis.
— Sim… e também, enfim, chegou a hora de fazer as coisas se encaixarem! — Sua voz é grave, soando como trovões distantes. — Antes de buscarmos qualquer redenção na luz, precisamos confrontar as trevas que carregamos. Pois nada nos será perdoado enquanto formos escravos de nossa própria escuridão! — pausa a entidade, enquanto um leve estalo de seus dedos quebra o clima. Com esse simples gesto, um portal se abre ao seu lado, revelando uma paisagem de montanhas cobertas de neve, desoladas e majestosas, e uma cabana solitária no topo, enquanto a tempestade gélida a atinge.
— Vamos — diz, um sutil desafio em sua expressão. — É hora de vestir você com os trajes do personagem. Está pronto para enfrentar o que te espera?
Ele o encara, um sorriso de desdém estampado em seus lábios.
— Quando não estou?
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