Capítulo 180 - Dê um Nome a Dor
Yami suspira, fechando o rádio com um movimento quase despreocupado, mas sem esconder o sorriso cínico que se desenha em seu rosto. Ele ignora cada chamada insistente que surge na tela, como se as ligações fossem meros zumbidos, distantes e irrelevantes.
Para o carro, uma rua antes do destino; o caos do estacionamento, com suas buzinas e vozes misturadas, não será um incômodo a mais para ele.
“Essas ligações… alguém realmente acha que pode me segurar?”
Pensa, satisfeito com a pequena desordem que deixa no seu rastro. E antes de descer, puxa uma nota de mil ienes e outra de quinhentos, elevando-as ao nível dos olhos com um toque irônico de veneração.
— Ah, 1500 e um sonho! — murmura, guardando as notas no bolso com um exagero quase teatral, como se fossem ingressos para um destino extraordinário… ou nem tanto. A pergunta paira em sua mente: o que é pior, perder tempo com afazeres banais ou encarar o que querem dele? Ele sabe a resposta, e a falta de vontade de ceder já resolve tudo.
Colocando o telefone no bolso, segue em direção ao mercado, como um foragido numa missão improvável. A perspectiva de se perder entre corredores e prateleiras lhe parece subitamente libertadora, enquanto o mundo lá fora espera, desesperado, por uma resposta — uma que ele, com certeza, não dará.
Ao mesmo tempo… Arthur sai do prédio sombrio que era seu destino, batendo a porta com uma força seca, que ecoa na noite vazia. Seus olhos estão vazios, como se a chama que um dia o moveu tivesse se extinguido, restando apenas um reflexo distante. Ali, onde prometiam respostas, ele só encontra charlatões, videntes baratos que transformam a dor dos outros em dinheiro fácil. A fachada decadente daquele antro de “sabedoria” é tão envelhecida quanto a decepção que agora ele carrega nos ombros.
Com um gosto amargo, rasga o papel com o endereço do lugar, soltando os pedaços ao vento como quem se despede de um fracasso. E qual será o próximo destino?
Um bar! Mas não qualquer um: é o bar de Edward Ashford Lewys, primo de segundo grau, famoso por seus contatos obscuros e por nunca hesitar em sujar as mãos quando necessário. Edward, com seu ar confidente, lhe passou aquele endereço como quem oferece um bilhete de acesso a um submundo obscuro.
— Um lugar assim não é para um cavalheiro… ainda mais um cavalheiro que carrega o símbolo do Senhor ao pescoço, certo? — interrompe uma voz fria e meticulosa.
Um homem de terno negro emerge das sombras de um beco próximo, apenas a mão exposta, ajustando o paletó.
Arthur se vira lentamente, carregando uma expressão de desprezo, mas por dentro sente um calafrio, embora jamais admitisse. A presença daquela figura desperta uma inquietação primitiva e inexplicável… seria um demônio? Já que, calor não sentia vindo dele.
— É… talvez. Mas isso não é da sua conta! — responde com a voz amarga, tentando manter-se firme.
— Talvez seja… — diz o homem, movendo a mão para a luz que escapa de uma janela acima. Suas unhas longas e afiadas brilham por um breve instante, fazendo a espinha dele gelar novamente, desta vez com uma intensidade que ele não pode ignorar.
Sem pensar, o exorcista avança, desferindo um soco poderoso capaz de esmagar astros. Mas, com um único gesto, a entidade segura seu punho, sem qualquer esforço. O impacto faz o ar ao redor vibrar, fazendo janelas tremerem e o chão estremecer. No entanto, a força de Arthur não deixa sequer uma marca na mão sombria que o bloqueia.
— Calma… não estou aqui para brincar de gato e rato. Vim apenas lhe dar um nome. Não é isso que você quer? — diz o estranho, soltando o braço dele, cuja mente ainda processa o peso daquela presença opressiva, como se o próprio ambiente ao redor ficasse mais denso, quase sufocante. — Leviel… — sussurra a entidade, arrancando-o de seu breve transe com uma voz baixa, quase silenciosa.
— Hã?
— Quem tirou sua amada de você foi Leviel! — continua, a voz penetrante como um veneno frio, cravando fundo de seu peito. — Não é isso que quer? Um nome para direcionar sua dor e sua fúria? Pois aí está.
Arthur engole em seco, as palavras ressoando como uma lâmina de gelo.
— L-Leviel… um dos sete demônios reis? — murmura com a voz trêmula, os olhos turvos de ódio e dor. Ele soca a parede ao lado com uma força cega, a superfície fica trincando sob o golpe, sorte que não desabou após. — Então foi um dos grandões? Um dos demônios originais… aquele que se delicia em tirar vidas humanas? — sussurra, como se precisasse reafirmar aquilo para si.
A entidade o observa com um olhar inabalável, como quem testemunha um espetáculo já ensaiado inúmeras vezes.
“Impressionante… então é assim que a impotência humana se manifesta? A raiva que beira a autodestruição, a dor que consome até a última centelha de razão…”
Por um instante, o estranho parece ver alguém no jovem à sua frente — os cabelos loiros, o desejo febril por vingança, o medo reprimido que tenta esconder.
— E como posso ter certeza de que está falando a verdade? — questiona Arthur, a voz um tanto hesitante, mas mantendo os punhos cerrados, mesmo enquanto uma estranha dormência toma conta de seus braços. No fundo, sabe que nada pode aliviar a dor de sua perda, mas uma certeza, verdadeira ou não, parece lhe dar um propósito, algo para seguir.
— Você tem minha palavra… mas não há como saber. A menos que prefira ficar sem resposta, não é? — A figura enigmática o olha, com um meio sorriso nos lábios, enquanto sua sombra parece se unir cada vez mais às trevas.
Arthur baixa os olhos, um misto de raiva e resignação. Não há outra pista.
A vingança não trará de volta o que ele perdeu. Ele sabe disso. Mas é o único fio que lhe resta, e ele se agarra a ele com todas as forças, mesmo que signifique caminhar por um abismo ainda mais profundo.
— Se for verdade, vou caçar esse desgraçado… ele tirou de mim a única pessoa que eu tinha… então me diz, vai me impedir?
— Eu? Por que faria isso se estou lhe oferecendo o nome que tanto quer? — A figura sorri, uma risada rouca escapando de seus lábios, carregada de um humor sombrio e exausto. — Não, garoto… sou apenas um espectador. Um alguém que aprecia o desenrolar do espetáculo, sem nunca interferir. O progresso, afinal, não é feito sem uma pitada de caos… — suas palavras desaparecendo enquanto ele mesmo se dissolve na escuridão adiante.
E Arthur, sem lhe dar a confiança de um último olhar, se vê sozinho novamente, mas com uma razão. Um orgulho amargo surge em sua mente, uma tentativa de manter alguma dignidade frente ao abismo que se abre diante dele.
— Só não desperdice o nome que lhe dei, Arthur Lewys… — A voz ecoa uma última vez, antes de desaparecer.
E então, sendo golpeado por aquelas palavras, ao baixar os olhos, ele vê seu próprio reflexo na poça de água estagnada. A imagem que encara de volta não é a de um homem de fé, mas a de alguém pronto para atravessar um caminho sem volta.
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