Capítulo 184 - Em Busca da Promoção
Elizabeth e Jacir estacionam diante do edifício no Terceiro Distrito, uma das áreas mais cobiçadas da cidade, onde arranha-céus despontam como sentinelas de vidro e aço, cortando o horizonte com uma frieza quase impiedosa. As nuvens, refletidas nas fachadas reluzentes, dão ao prédio uma aura que transcende o mero utilitarismo. Ali não é apenas um centro de negócios; é um monumento de poder e opulência, o tipo de estrutura que faz os mortais comuns sentirem-se insignificantes ao pisarem em sua sombra.
Eles estão ali a serviço do ambicioso D. João, um Regniano nascido nas gélidas terras de Terramar e herdeiro de uma das maiores colônias de Shamo. Ele “os contratou” com uma proposta tentadora: uma recompensa de 23 mil ienes, acompanhada de uma promessa ainda mais sedutora para Jacir — a possibilidade de uma promoção.
No caminho até ali, eles já discutiram os detalhes: Jacir terá que exorcizar duas entidades usando sua habilidade inata, a sorte, que é uma tarefa que ele encara com mais ânimo do que receio.
Ao saírem do carro, Elizabeth demora um segundo a mais, observando o edifício à frente. Ela capta a imponência daquela metrópole, sentindo-se levemente deslocada, mesmo após tantos anos. Ao seu lado, Jacir também mira o prédio com um misto de fascínio e incredulidade.
— Hm… ainda não me acostumo com a grandiosidade desta cidade — murmura ele, como se o peso da paisagem o desconcertasse.
Enquanto ela solta uma risada breve, carregada de nostalgia. Há algo naquele olhar dele que lhe lembra seu próprio passado.
— Nem eu… Quando cheguei aqui, era tão ingênua quanto você. E sabe o que pensei? Que esses caras deviam limpar a bunda com notas de mil ienes.
Jacir ri, mas ambos sabem que, além do humor, há algo mais. Apesar de tudo, a origem dos dois se reflete em pequenas semelhanças. Podem não ter nascido no mesmo mundo, mas compreendem, cada um à sua maneira, o quão significante é a magnitude da desigualdade.
— E não fazem isso?
— Fazem! — Os dois riem, subindo com passos deliberados os vinte e seis degraus que levam até a entrada, interditada há meses. Elizabeth observa a imponência do prédio por mais um momento antes de completar, com um toque de ironia: — É engraçado, não? Alguém gasta uma fortuna para erguer um prédio que rasga o céu, e aí, de repente, boom! Tudo vai por água abaixo, tomado por uma entidade!
Jacir sorri, refletindo por um momento.
— Na minha cultura, dizem que somos nada comparados ao Criador, à Criação… Grãos de areia diante do Senhor.
Ela o olha com uma sobrancelha erguida e ri de leve.
— Sua tribo sofre de uma crise existencial.
— Diria que é mais… conformismo — rebate ele, lançando um olhar à sala de recepção. O espaço é vasto e vazio, limpo, mas com um sutil desgaste no ambiente. Ele observa as escadas e o elevador ao lado, antes de olhar para ela. — Então, como sabe que ele está aqui?
Se não fosse pelas plantas mortas, diriam que nunca foi abandonado.
Ela caminha lentamente pelo saguão, avaliando o lugar com olhos treinados.
— Não há sinais de invasão, nem distorções de energia! Ele é bom em manter os outros afastados, indicando uma espécie de território ativo — explica, dirigindo-se à escada do lado esquerdo.
— Mas se não há distorções, isso não significa que ele quer passar despercebido?
— Terror nem sempre é uma barreira. Às vezes, atrai curiosos… principalmente humanos! — Ela aperta o botão do elevador, mas nada acontece. — Droga… Teremos que subir pelas escadas.
— Ele está lá em cima — murmura ela, forçando a porta de aço, que range em um som alto e metálico, a porta de emergência que levava à escadaria do prédio. O eco reverbera por todo o edifício, ressaltando a profundidade daquele lugar. Para baixo, parecia um calabouço sem fim; para cima, uma torre que se estendia ao céu. — Provavelmente, ele ativou um território de caça alguns andares acima, no centro… E deve reger como rei os demais andares e as coisas devem começar a ficar intensas a partir do sexto… é ali que o verdadeiro evento sobrenatural deve se iniciar!
Jacir ri de nervoso, impressionado pela precisão dela.
— Você calculou mesmo tudo, hein?
— Talvez… Não temos o dia todo. Vamos lá, garoto, atrás dessa sua promoção — provoca ela, antes de subirem juntos em direção aos andares superiores.
— Sim… Vamos!
No quarto andar, sons de passos quebram o silêncio e ambos se preparam, elevando suas auras. Elizabeth toma rapidamente a frente, sentindo a presença de várias entidades, antes mesmo de tocar a porta que levava ao interior do andar.
— Hm… temos seis neste andar e quatro no próximo — diz ela, elevando sua aura logo após, enquanto Jacir faz o mesmo.
— Como você sabe? — ele pergunta, intrigado.
Ela sorri, com um olhar experiente.
— Mesmo sem elevar minha aura, posso sentir energias anormais. Mas é apenas uma percepção vaga, diferente do que acontece quando a energia se intensifica e se eleva como agora, que posso dizer a exata localização de um demônio!
Logo após sua explicação, eles abrem a porta para uma sala sombria. As mesas e cadeiras de um escritório abandonado parecem sombras na penumbra, e, no meio, uma figura os observa — uma criatura das trevas que está em alerta.
— Exorcistas… — ruge a entidade, afiando os olhos em ódio. Coberto de um breu, ele oculta sua forma original em meio à escuridão. — Eu…
Mas Elizabeth não hesita. O espaço entre ela e a criatura se dissolve em um instante, sua postura firme e decidida, enquanto lança um soco com precisão milimétrica. No entanto, seu punho não é destinado a acertar diretamente a face oculta em trevas da criatura — aquilo é apenas uma distração. Cada movimento é calculado; o soco explode com um impacto que não precisa tocar fisicamente seu alvo para produzir um efeito devastador. A pressão acumulada no ar se desfaz em um choque violento, forçando a criatura a ser arremessada para trás, tremendo o solo e arrancando lascas de madeira sob seus pés.
Essa é sua técnica inata, uma habilidade meticulosamente lapidada. Chamado de “ataque de acerto garantido” ou, como ela costuma chamar, aposta ganha, foi projetado para agir em uma área de até vinte metros ao redor do ponto de impacto inicial, mesmo sem expandir energia. Então, mesmo que ela erre o alvo direto, a onda de energia reverbera ao redor, atingindo o alvo como deveria, assumindo a prioridade; se foi um soco, ele irá danificar como um, e com um dano ainda maior. Esse domínio é resultado de anos de treinamento rigoroso e imersão no controle absoluto da própria aura, que agora se estende em torno dela, ativando feitiços com a mesma naturalidade de uma respiração.
Seu primeiro feitiço mantém a técnica em stand by, aguardando o momento em que a adrenalina eleve seus sentidos e seja ativa. Nesse instante, o golpe ganha vida própria, trazendo consigo duas outras ativações: um pacto e uma jura. O pacto garante que, sempre que “errar” o alvo, o golpe será duas vezes mais letal — uma ameaça impossível de se esquivar para qualquer criatura que ouse se aproximar. A jura, por outro lado, é de executar uma técnica não inata logo em seguida, uma espécie de ajuste que otimiza seus recursos, já que só cumprindo o que fora prometido, recebe 80% da energia gasta. Esse truque permite que ela minimize o gasto de energia, equilibrando o custo de cada movimento, em uma manobra digna de uma exorcista celestial.
Mas aquele não é o fim do ser…
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