Capítulo 185 - Primeira Horda
O garoto observa a cena se desenrolar, fascinado e com um toque de adrenalina, enquanto a criatura grotesca se ergue em meio aos destroços de mesas viradas e paredes rachadas.
É uma visão distorcida de um pesadelo: quatro olhos, dois deles humanos, inquietos e repletos de ódio, enquanto os outros dois, posicionados acima, brilham insensíveis, como os de um inseto ou uma criatura incomum até para os demais demônios. Antenas saem de sua testa, misturando-se ao par de chifres, e seu corpo escamoso, com quatro braços e garras afiadas, revela a essência repulsiva de um verdadeiro demônio.
O sangue púrpura escorre de seus lábios, espesso e brilhante, contrastando com o escarlate pulsante de seus olhos enfurecidos.
— Vadia… — rosna a besta, com uma voz cavernosa, mas antes que possa terminar, Elizabeth já prepara sua próxima investida.
Com um movimento rápido, ela conjura uma torrente de chamas, que avança como uma onda de calor incontrolável. A criatura apenas ergue um dos braços à frente do rosto, enquanto seu corpo é consumido pelas chamas, as escamas estalando sob o calor intenso.
— Como é? — Elizabeth sorri, com um tom ácido, recuperando parte de sua energia. — Quer que eu quebre todos os seus dentes, fofo?
Enquanto ela lida com seu oponente, Jacir tenta manter-se fora do alcance de outro demônio. Ele salta com agilidade surpreendente, desviando-se dos ataques de uma segunda criatura que surge da escuridão, um ser estranho com um corpo dividido entre extremos. Metade é branca como neve, com olhos ameaçadores, enquanto a outra se dissolve em sombras, parecendo uma presença etérea que suga a luz ao redor.
Ele tem pernas fortes, o suficiente para saltar com extrema habilidade, e quando pousa, parece pesar toneladas.
— O garoto é rápido! — o demônio comenta com um sorriso perverso, aproximando-se com velocidade assustadora.
Mas o jovem reage rápido, murmurando um feitiço:
— Transmutatio materiae et status!
Imediatamente, ele cria uma corrente de água que se enrola no braço do demônio, prendendo-o com firmeza.
— Sta firmus et fortis! — ele ordena, endurecendo a água até que se torne tão resistente quanto o aço, imobilizando o inimigo.
Suas mãos ardem com o fluxo da água raspando, mas sua aura lentamente alivia esse efeito colateral.
Elizabeth, por sua vez, mantém seu foco no demônio, que surge entre as chamas com a pele chamuscada e um dos chifres quebrado, mas com um olhar enlouquecido. Ela ergue uma barreira translúcida diante de si, bloqueando com firmeza cada ataque da criatura.
Socos capazes de trazer tempestades fazem os móveis do ambiente voarem janelas afora com a força do impacto.
Mas parece que ele estava socando contra uma parede de aço…
— Então você continua de pé? Hm… que tipo de demônio barato você é? — Ela zomba, com um tom desdenhoso que fere profundamente o orgulho da criatura.
— Barato? — o demônio grita, num misto de raiva e surpresa, recuando com um salto ágil. — Quem você pensa que é, sua imbecil?! — Ele concentra trevas em suas mãos, formando esferas sombrias que lança contra o escudo dela, resultando em explosões que estremecem o chão ao redor.
A proteção se desfaz como vidro, contendo a destruição que os ataques trariam; a intensidade das trevas tem o poder de devorar a alma de qualquer um que fosse atingido.
Enquanto a poeira cobre metade do andar, Jacir luta para manter o controle. A ligação formada pelo feitiço de duas etapas da água que prende seu oponente começa a fraquejar à medida que a distância entre eles aumenta… até que, de repente, surge outra entidade, e ele tenta se esquivar dos golpes. Essa nova criatura também tem metade do corpo imerso em sombras.
— Ei… não pode ser como nos animes? Um de cada vez?
A terceira criatura é uma visão ainda mais aterradora, com cabelo branco desgrenhado, olhos gélidos e dentes afiados que reluzem em um sorriso sádico. Suas asas negras de morcego batem com força enquanto ele plana pouco acima, observando-o com malícia a cada tentativa de golpe. Suas pernas, peludas e com garras afiadas, parecem preparadas para um ataque mortal a qualquer momento.
— Pare de pular, macaquinho! — o demônio rosna, desferindo golpes que criam ondas de choque violentas ao redor.
Jacir sente o feitiço de água enfraquecer cada vez mais e, em um último movimento, desvia-se para a esquerda, escapando por um fio enquanto um golpe sombrio racha a parede ao seu lado, abrindo uma fenda larga o suficiente para um caminhão passar ali.
“Droga… ele está aumentando o poder das trevas a cada golpe. Maldição, quase fui pulverizado…”
Ele pensa, ofegante e tenso.
Elizabeth percebe a movimentação rápida de outros e lança um olhar incisivo para Jacir, que luta para se manter de pé. Mesmo sob pressão, seu foco é inabalável, e ela se concentra na própria batalha. Agora, está cercada por duas entidades demoníacas, que a observam com um olhar animalesco, famintos e sedentos por sua energia.
— Já era! — um deles resmunga, acumulando breu em sua mão, prestes a desferir um ataque final.
Elizabeth inspira fundo, reunindo as chamas que flutuam ao seu redor, brasas incandescentes que pulsam como um coração em frenesi. Manipulando sua conexão astro-elemental, ela transforma a matéria energética de seu outro feitiço, canalizando um poder abrasador. Em um instante, o espaço explode em uma pequena supernova; o andar inteiro treme com a intensidade. Jacir sente o calor de uma estrela atravessar sua pele e, em um golpe avassalador, ela desintegra três entidades malignas de uma vez.
— Vocês são mesmo um saco… — murmura ela, encarando ambos os demônios remanescentes com um olhar afiado e um leve sorriso de desafio. Os dois mal têm tempo para reagir. A entidade fica paralisada na frente do jovem enquanto a outra não move um músculo, de onde pousa após se libertar. Em um movimento ágil, Elizabeth pisca novamente e se posiciona por trás do demônio, pousando a mão em seu ombro e entoando com firmeza: — Extende energiam, nota infelix.
O toque faz o demônio tremer, arrepiando sua pele e fazendo-o sentir uma onda de energia se expandir como uma rede invisível. Ele dá um passo para trás, encostando-se na parede com os olhos arregalados.
— O que… o que você fez? — murmura o demônio, confuso, sua voz vacilando entre o medo e a surpresa.
— Eu? Ué… tô te dando uma pequena ajuda!
Elizabeth sorri, com uma expressão quase sádica nos lábios, uma amostra de seu poder que causa um frio na espinha até do jovem exorcista, deixando claro que seus níveis são muito diferentes, apesar de ambos serem excelentes. O outro demônio a observa com um sorriso torto, reconhecendo a ameaça que ela representa.
“Merda… deve ter me marcado para alguma feitiçaria… entoa logo após, mas merda, o que será? Azar? O que isso tem a ver?”
Pensa o demônio marcado, enquanto suas unhas roçam na parede, aflito demais para um ser das trevas, enquanto o outro, tenta passar a impressão de alguém confiante o suficiente para ignorar os feitos até então.
— Você eliminou três deles de uma só vez, se moveu com uma velocidade absurda e ainda lançou uma maldição em meu aliado… Vejo que um peixe grande veio se sacrificar no banquete do meu mestre!
“Espera…”
O jovem exorcista, ainda atônito, ergue-se e limpa a poeira do rosto, sentindo a urgência da situação. Ele está ali para se provar, e não para ser ofuscado pela eficiência dela…
— Ei… vou acabar com você!
O demônio esboça um sorriso presunçoso, ignorando o desafio do jovem, mal o encarando.
— Se deseja mesmo, garoto, vá em frente. Sua amiga terá muito tempo até chegar a mim…
Mas ele sente uma segurança ao aceitar o desafio.
“Talvez, ele seja otário demais ao ponto de ser orgulhoso. Se eu matar esse merda, posso desestabilizar a mulher… droga, ela é tão estranha…”
Ao encarar Elizabeth de lado, ele percebe uma calmaria em sua face. Até que…
No momento em que ele cerra os punhos, uma série de sombras começa a emergir do teto acima, caindo pelo rombo que conecta os andares como uma corrente ininterrupta de entidades famintas.
E ela observa a cena com um brilho feroz no olhar, as mãos pousadas nos quadris, em postura desafiadora.
— Assim que eu gosto! — murmura. — Vamos subir esse prédio até não restar mais nenhum!
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