Capítulo 189 - Desilusão ou, Decepção...
Enquanto ambos os titãs colidem em uma batalha que parece afetar a própria realidade, Jacir, nos andares acima, luta para manter a respiração.
Fora dos domínios da criatura ancestral, ele se depara, mais uma vez, com a mesma pedra que insiste em fazê-lo tropeçar.
Seus pulmões queimam sob a pressão esmagadora do confronto, cada respiração tornando-se um esforço hercúleo, como se o próprio ar estivesse envenenado pela aura sufocante que emana da entidade que paira acima, dominando o espaço com sua presença opressora e maligna.
Não apenas isso… A força sombria que a envolve faz o ambiente pulsar, como se o próprio tecido do espaço estivesse à beira de se desfazer. Ondas de calor abrasadoras emanam dela, carregadas de uma energia sufocante que se comprime contra o exorcista, tornando o ar ao redor denso e insuportavelmente pesado.
O golpe descomunal ainda reverbera no ar, seus fragmentos espalhando-se como estilhaços de vidro. A explosão sonora de energia negra cortou o ambiente como uma lâmina invisível, dilacerando tudo em seu caminho. Antes mesmo de esboçar uma tentativa de fuga, ele vê sua arma espiritual, seu arco — símbolo de anos de dedicação, disciplina e fé — desintegrou-se diante de seus olhos, reduzido a pó em um instante cruel.
E ele? Ainda paralisado…
“Maldição… Ele planejou me desarmar?”
A pergunta ecoa em sua mente.
“Minha arma mais poderosa…”
Ele cerra os punhos, sua mente fervilha enquanto analisa cada detalhe, cada escolha. É uma dança entre a sobrevivência e o colapso, um equilíbrio precário entre estratégia e desespero.
E o silêncio breve da entidade após o golpe parece zombar de sua determinação.
“Seus recursos estão acabando!”
A voz interior sussurra, fria e implacável. Ele já perdeu muito: suas flechas, seu fôlego e agora sua arma mais preciosa. Mas o fogo em seus olhos denuncia sua decisão… ele continuará!
— Não vou morrer! — rosna entre os dentes.
Com um gesto firme, bate as palmas com força. A atmosfera ao seu redor muda instantaneamente, como se um véu fosse rasgado. Um brilho translúcido se forma sobre sua cabeça, revelando o portal para seu armazém interdimensional, uma habilidade rara, reservada apenas àqueles que atingiram o equilíbrio perfeito entre espírito e aura.
O baú se abre sobre sua cabeça, e dentro dele despenca outra arma ancestral de seu povo transformada em espiritual, como uma memória esquecida sendo desenterrada.
Além disso, desse espaço além da compreensão humana, repousam outras armas, ferramentas… E manter um armazém assim não é trivial; é um triunfo de estudo e “ciência” sobrenatural, uma aplicação do que muitos consideram impossível.
E ele dedicou anos, e mais anos ao estudo do conceito de inexistência a partir da ausência, buscando minimizar o gasto de energia, explorando a ideia de que um espaço pode existir unicamente como memória e, simultaneamente, ser inexistente sem qualquer vida animada. Esse paradoxo cria um código existencial, permitindo que o armazém permaneça fora da realidade, consumindo energia apenas quando acessado. Ao fechar, desaparece, retornando ao estado de ausência total, como uma sombra no tecido da memória.
Ele puxa essa nova arma após acabar, forjada não apenas de matéria, mas de propósito. Uma onda de determinação renova seu espírito. Ele não é apenas um exorcista lutando contra uma entidade; é um homem desafiando as leis do pecado. Um guerreiro a serviço de seu povo!
— Veremos quem sobreviverá — murmura, ajustando a postura.
Mesmo com as chances contra ele, ainda tem um trunfo. E essa batalha está longe de terminar.
Em um instante, a machadinha cai em sua mão. O toque é frio, quase indiferente, mas o cabo transmite uma firmeza inabalável, como se fosse uma extensão de sua própria vontade. No entanto, há algo mais. Um resquício indesejado, uma lembrança que ele se recusa a confrontar.
Um eco de palavras insidiosas sussurra em sua mente, trazendo um desconforto que ele não pode ignorar:
“Uma muleta? Será?”
O pensamento o assalta como um golpe traiçoeiro, mas ele não tem tempo para se entregar à dúvida. Seus olhos, intensos e cheios de brilho, se fixam na entidade diante dele. Entre a determinação e a hesitação, há algo mais profundo: a consciência de que o tempo está contra ele.
— Será que posso vencer? — murmura, apertando a arma espiritual com força, como se aquilo bastasse para afastar o medo que rasteja por sua mente.
O silêncio é rompido pela voz da criatura, carregada de escárnio, reverberando como mil vozes entrelaçadas, cada uma mais cruel que a outra.
— Sua resistência é patética, garoto. Essas armas insignificantes não mudarão seu destino. Está preparado para morrer?
Jacir encara o inimigo com um sorriso desafiador, cuspindo no chão, como se desprezasse o peso de suas palavras.
— Nem fodendo! Se eu cair, que seja de pé. Últimas palavras? Não me venha com essa merda! — grita, erguendo a machadinha. Mesmo com o corpo exausto, sente-se como um pilar prestes a resistir à tempestade.
A entidade se move com precisão, sem desperdício de esforço. Apenas uma única palma negra se ergue em sua direção. A energia ao redor se condensa nela, carregando o ambiente com uma densidade sufocante, o gélido ar das trevas devorado pela esfera massiva de energia.
— Morra, então! Maledictio Ancestralis, Destructor Mundi!
A esfera de pura destruição cresce diante de seus olhos, arrancando o ar de seus pulmões. Não há para onde correr; o impacto é inevitável. Em um gesto desesperado, o jovem lança-a. A arma corta o ar com um som agudo e ensurdecedor, girando em direção à entidade.
O impacto é certeiro. A lâmina espiritual perfura o braço da criatura, atravessando-o por completo. O sangue púrpura jorra, respingando em seu rosto. Um som seco é seguido por um gemido gutural da entidade, um trovão contido que reverbera pelo espaço.
Mas a sensação de triunfo dura apenas um instante. Antes que ele possa reagir, a esfera negra diante dele implode, explodindo com uma força avassaladora. O choque é devastador, e o quinto andar inteiro cede sob o impacto, mergulhando tudo em uma tempestade caótica de poeira e escuridão.
Por um momento, tudo fica em silêncio. A criatura, ainda de pé, segura a machadinha cravada em seu braço, soltando um riso baixo e cruel.
— Idiota. Morreu bravamente, mas por nada! — zomba, estendendo a outra mão para arrancar a arma de sua carne.
Então, uma voz rouca corta a fumaça, carregada de uma determinação inquebrável:
— E quem foi que disse que eu morri?!
Jacir emerge das sombras, cambaleando, o corpo coberto de ferimentos e a pele queimada, mas vivo. Em um movimento veloz, agarra a machadinha cravada no braço da entidade e a puxa de volta, arrancando um ranger de dentes. Seus olhos queimam com um brilho quase insano, uma fúria que parece alimentar seu corpo desgastado.
“Ele… se teletransportou? Não fode!”
Pensa a criatura, um lampejo de entendimento cruzando sua mente.
“Essa arma está infundida com um feitiço…”
Jacir recua até os limites do campo, o corpo tenso, mas seus olhos ardendo de forma feroz. Ele gira a machadinha com destreza, seu sorriso está meio sádico.
— Sabe de uma coisa, demônio? — sua voz está cansada, — Eu ainda não terminei!
Mas antes que possa dar o próximo passo, uma pressão de ar corta o ambiente, diante do esbugalhar de seus olhos. O golpe é brutal, lançando-o contra o chão, arremessando-o três andares abaixo.
O impacto faz tudo tremer, arrancando um grito de dor do exorcista e do seu corpo, que pareceu quebrar como um biscoito.
A entidade foi astuta, aproveitando a vantagem da proximidade. Com um movimento ágil, abriu suas asas e bateu com força, criando uma onda de ar que se deslocou com uma velocidade vertiginosa. Jacir sentiu a pressão do vento, cortante e implacável, empurrando-o com força brutal. O ar se moveu a mais de 300 metros por segundo, arrancando-lhe o fôlego e arremessando-o com uma violência que parecia desmantelar tudo.
E agora, novamente no alto, o demônio o observa com um olhar frio e zombeteiro.
— Que barata… — murmura, vendo-o cuspir sangue enquanto tenta se levantar. Foi brutal, e mesmo que não tivesse perdido um dente ou membro, sentia seu corpo duas vezes mais pesado.
“Cada vez mais longe… cada vez mais fundo no poço…”
Pensou, sentindo o peso esmagador da situação.
“Caramba… é sério isso?”
E, quase desmaiando, sentindo o chão duro sob seu corpo enquanto o mundo ao redor gira. Sua visão turva capta a machadinha caída a metros de distância, à sua esquerda, fincada sobre o que restava do piso do quinto andar.
“Será… que eu realmente estou preso a muletas?”
Murmura, baixo o suficiente para parecer um pensamento fugido, seus lábios mal se movendo enquanto encara a escuridão impenetrável que o cerca. A batalha ainda não chegou ao fim, mas o peso da dúvida, com sua força silenciosa, ameaça esmagá-lo mais do que qualquer golpe físico. Ou talvez o demônio, já que agora fora nocauteado pelo acaso.
Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.