Capítulo 191 - Reprises do Caos
A batalha atinge um clímax frenético, os limites da realidade material e imaterial se curvando ao confronto de duas forças descomunais.
— Então, você pensa mais rápido que minha leitura mental? — A entidade debocha, sua voz um gotejar de sarcasmo e ameaça. Ela surge à frente dela como um borrão de trevas, os olhos escarlates ardendo com ódio. Antes que ela possa reagir, a mão monstruosa se crava contra seu abdômen. O sorriso predador cresce em sua face grotesca enquanto libera uma explosão de energia devastadora. — Sobreviva!
O impacto é brutal. A exorcista é lançada como um projétil, colidindo contra a parede de um prédio. Os tijolos se despedaçam ao contato, mas a mulher não permite que a dor a domine. A pressão negra, invisível, mas tangível como o calor de um forno infernal, arde ao seu redor.
Mesmo assim, ela mantém o equilíbrio interno, recusando-se a ceder.
Enquanto recupera o fôlego, um raio letal de energia sai disparado do dedo indicador superior esquerdo da criatura. Mas ela já se moveu. Um giro rápido no chão, calculado, tira do alcance mortal.
— Exatamente! — Sua resposta vem como uma faca, cortante e cheia de fervor. Seus olhos brilham intensos, e a criatura hesita, confusa pela audácia que parece rasgar o próprio ar ao redor.
“Essa garota… ela não é como os outros. Rápida demais… algo mais…”
O pensamento serpenteia em sua mente antes que consiga formular uma estratégia. Quando percebe, ela já está sobre ele, rápida como um relâmpago.
O golpe vem de cima, um chute que deveria ser fácil de bloquear. Ele ergue dois dos seis braços para tentar conter o impacto, mas sente o peso esmagador de algo que parece mais do que força física. É como segurar o próprio mundo. Seus joelhos dobram e uma fenda profunda se abre ao redor deles, o chão flutua como se a gravidade tivesse perdido sua força.
— Transmutatio materiae et status… — murmura ela em seguida, cada palavra reverbera com autoridade. Sobre sua palma, um vórtice de vento começa a girar, uma tempestade em miniatura que logo se torna um ciclone avassalador.
O monstro é arremessado para o chão com uma violência que deforma a rua inteira. Asfalto e concreto são sugados para o centro do turbilhão, e transformam a área em um cenário apocalíptico.
Quando a poeira finalmente baixa, a entidade emerge, três dos seus seis braços arrancados pelo impacto. O vazio em seus olhos dá lugar a algo próximo ao pavor.
“Ela afetou meu corpo físico diretamente… isso é impossível!”
Ele não tem muito tempo para se recuperar. O ambiente treme com a aura dela, mas também com a determinação que exala de cada poro.
“Maldita! Ela está me empurrando para a beira do colapso. Mesmo que eu leia seus movimentos, cada ação dela quebra minhas regras, minhas previsões… ela está me vencendo no meu próprio jogo!”
Com um rugido, ele canaliza energia suficiente para destruir Nova Tóquio. Três esferas negras começam a surgir em suas mãos restantes, pequenas, mas densas o suficiente para distorcer a luz ao redor.
“Ao menos, vingarei meus amigos…”
Ele lança o ataque. As esferas são buracos negros miniaturizados, e o ar se condensa ao redor delas, gritando enquanto a gravidade colapsa.
“Se isso não for o suficiente, nada será!”
Mas ela está pronta.
— Mollis sicut massa — murmura em resposta, a entonação carregada de uma serenidade, enquanto suas mãos desenham no ar um arco de energia. O escudo formado por ondas de estática espiritual envolve as esferas negras com precisão, desacelerando-as até que parecem quase flutuar, presas em um véu de força invisível.
Seus dedos, dotados de força sobre-humana, apertam as esferas, moldando-as como se fossem meras argilas maleáveis. E elas, antes ameaçadoras, cedem à sua vontade, transformando-se em fragmentos envoltos de luz que irradiam calor, mas não queimam.
Com um impulso preciso, um chute pleno de poder, ela lança-as em direção ao céu. O som do impacto é profundo e ressoa no espaço ao redor, como um trovão abafado. As esferas cortam o ar, desaparecem na imensidão, tornando-se traços luminosos que se dissipam além dos limites do firmamento, como fogos de artifício em um céu crepuscular.
Por um momento, fica em silêncio, olhando para o vazio deixado por sua criação. Nenhuma explosão ou clarão indica o destino delas. Talvez tenham sido freadas por uma ilha flutuante, um pedaço errante de terra esquecido entre as nuvens. Ou, quem sabe, consumidas pela gravidade implacável de algum astro distante, abraçadas pela luz que jamais verá o fim.
O ar ao redor vibra leve, carregado de estática e expectativa, como se o universo tivesse prendido a respiração, aguardando o próximo ato.
A única coisa que sabe é que a força do movimento faz seu joelho ceder, o osso estalando com a tensão. Ela grunhe de dor, mas levanta o olhar, feroz como uma leoa ferida.
“Como ela…?”
A entidade tenta formular uma resposta, mas sua linha de pensamento é interrompida pelo golpe. O punho dela atravessa seu peito envolto em aura.
Por um instante, pensa que teria chance contra, vê os flashbacks de batalha em que esteve quase de mãos dadas com a morte, prevaleceu, mas agora, seu fim, falta determinada pelas mãos de uma mensageira do destino.
Viverá mais de oitocentos anos, mas enfim, caiu…
— Como é? — Sua voz é gélida, mas carrega de curiosidade.
— O quê? — Ele tenta rir, mas sua voz vacila. A cor escarlate de seus olhos desbota lentamente, dando lugar a um cinza sem vida. — Minha morte? — Um sorriso irônico dança em seus lábios enquanto seu corpo começa a se desintegrar em pó.
— Isso…
— É apenas o vazio… humana. Nada além do vazio. Assim como… o de vocês.
Ela permanece em silêncio, observando a criatura desaparecer. O crepúsculo pinta o céu de tons avermelhados enquanto o cheiro de destruição impregna o ar.
A preocupação se dissipa por um momento ao sentir a presença de Jacir, alguns andares acima. Ele está vivo. Essa certeza deveria trazer alívio, mas o peso do mundo ao seu redor não permite que o sentimento floresça por completo.
— Merda… como vou explicar isso? — murmura, olhando para suas mãos, que agora tremem levemente.
O espelho negro e abissal havia caído há muito tempo, deixando para trás apenas sua lembrança. Mas agora, sem o inimigo para ofuscar seu foco, o caos reina absoluto, escancarando a realidade devastadora que antes permanecia à sombra da batalha.
O mundo real a puxa de volta, trazendo consigo um sorriso discreto, mas breve. A vitória tem um gosto amargo. O custo é alto demais, e ela sabe que esse fardo se acomoda em suas costas como uma sombra. Mesmo que o governo invente a desculpa que fosse, os estragos são evidentes.
Os prédios desmoronados, as ruas e carros destruídos, corpos feridos e mortos espalhados pelos destroços… aquilo a atinge como uma lâmina invisível. Diferente de Masaru, ela não pode ignorar o caos que fica para trás. Ser um exorcista, lutar contra o mal, é enfrentar uma verdade cruel: o mundo é como uma caixa de vidro, absurdamente frágil, sua beleza tão efêmera quanto um grafite que se desgasta com o tempo.
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