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    Caminhando para seu trono, Asmael sentia o peso de milênios em seus ombros. A cada passo, o eco de suas botas ressoava no vasto salão, retornando para si como um lembrete de sua solidão. O ar era denso, carregado de algo indescritível, como se a própria escuridão observasse seu caminhar com um sorriso zombeteiro.

    À sua esquerda, apenas o vazio. À sua direita, a mesma ausência absoluta. O silêncio eterno o envolvia, sufocante.

    Até quando…?

    O pensamento sussurrou em sua mente como uma corrente fria, deslizando por sua consciência como veneno lento. Tudo ali era uma grande encenação, um teatro em que ele interpretava o mesmo papel, vez após vez. Um rei sem plateia, um ator que não podia abandonar seu palco.

    Até quando?

    Seus olhos se voltaram para o teto abobadado, onde sua serpente o observava do alto. Azul como o veneno que mata sem dor. Azul como o terno que cobria sua figura esguia. Ela se movia em círculos, deslizante, paciente, aguardando. Sempre aguardando.

    E você… até quando me seguirá?

    Os olhos escarlates do réptil refletiam os seus próprios. Um espelho vivo, mudo, eterno.

    Me pergunto se Beel e você viverão…

    Era um pensamento amargo. Um lamento inocente, talvez. No final, tudo era amor — ou sua ruína. O altruísmo, o egoísmo, duas faces da mesma moeda. Racionalidade era a morte do amor, e ele sabia disso melhor do que ninguém.

    Se permitiu imaginar um mundo diferente, um onde… sim.

    Fechou os olhos. Recostou-se, sentindo o trono moldar-se à sua presença.

    Mas a paz… era pífia.

    O eco de passos interrompeu seus devaneios.

    Ao abrir os olhos, viu uma silhueta familiar cruzar o limiar do salão. Um vulto de vestes austeras, ombros rígidos e olhos carregados de fúria contida.

    — Astael?

    O líder do Principado permanecia ali, o olhar queimando com algo entre raiva e hesitação.

    — Está pronto, rei? — Sua voz, sempre firme, vacilou por um instante. — O Imperador deseja me enviar com um exército de demônios… e quer que você nos acompanhe.

    O rei demônio arqueou uma sobrancelha.

    — Eu? — A surpresa era genuína. — O Imperador não faria isso sozinho?

    O silêncio se alongou antes que baixasse a cabeça.

    — Ehr… — ele hesitou, então, para surpresa do rei, caiu de joelhos. — Perdoe-me pelo que direi, mas… quem és tu para questionar isso?

    Um arrepio percorreu a mente do coitado, como uma lâmina fria rasgando sua consciência.

    — Ehr…

    Seus olhos demoníacos deslizaram lentamente até a figura ajoelhada à sua frente, vermelhos como brasas que queimavam em um abismo sem fim.

    — O que disse? — Sua voz era fria, vazia de emoção.

    O príncipe engoliu em seco, mas não recuou.

    — Não tome raiva de mim… ehr… mas… — Ele ergueu os olhos, desafiador, encarando o rei diretamente. — Talvez devêssemos apenas obedecer. Não é isso que sempre fizemos?

    A serpente moveu-se lentamente no teto.

    O salão pareceu menor.

    — É… tens razão! — murmurou, endireitando a postura.

    Um suspiro escapou-lhe, pesado, como se o peso de suas próprias dúvidas o esmagasse.

    Estou vacilando… ehr… perder você foi um golpe baixo, garota…

    Seu olhar se perdeu por um instante, navegando em um mar de lembranças que preferia manter afundadas. A cicatriz invisível ardia. Ele mordia o lábio, um gesto involuntário de frustração, antes de se aproximar.

    Com um movimento brusco, pousou a mão no ombro do subordinado, seus dedos apertando levemente a armadura.

    — Mas… que fique claro, garoto… — Sua voz carregava um tom ríspido, mas vazio de verdadeira ameaça. — Fale assim de novo, e eu arranco sua cabeça!

    Era um aviso… ou pelo menos deveria ser. Mas a força que outrora sustentava suas palavras parecia ter evaporado. Nem ele mesmo acreditava nisso.

    Será que havia amolecido?

    E, ainda ajoelhado, não desviou o olhar. Ele conhecia bem aquele tom. Conhecia bem aquele rei.

    O silêncio se alongou entre os dois.

    E acima deles, a serpente continuava a observar, imóvel.

    — Desculpe…

    Enfim, se ergueu rapidamente, mantendo o olhar fixo nele. De perto, o rei era ainda mais intimidador. Sua presença eclipsava qualquer um dos demônios, sua aura algo entre o caos e o controle absoluto.

    — Há um exército de bestiais… então, iremos atacar com toda a força… o que acha?

    Ele arqueou uma sobrancelha, o canto dos lábios se curvando em algo que beirava o desprezo.

    — Eu? Achar algo?

    Seu tom foi encharcado de ironia, como se a simples ideia de sua opinião importar fosse risível.

    — Sim, senhor.

    O rei suspirou.

    — Se é assim que meu irmão, o Imperador, deseja… então é assim que é o certo.

    Suas palavras soaram quase como um deboche velado, mas ninguém ousaria questioná-lo. Então, piscou.

    E no instante seguinte, seu corpo dissolveu-se no ar, como se nunca tivesse estado ali.

    O príncipe sentiu o coração acelerar. Mesmo esperando por isso, nunca se acostumaria com o modo como desaparecia—como um fantasma, uma sombra que não obedecia às leis da existência comum.

    E logo em seguida, seu servo também desapareceu, atravessando um portal de sombras que se abriu. O salão, antes carregado pelo peso da presença deles, mergulhou novamente no silêncio absoluto.

    E somente Astael permaneceu, seus olhos presos ao trono vazio à sua frente. Ele apertou os punhos. Não era o trono que ele via ali, mas sim o que, um dia, deveria ter pertencido a ela.

    Liliel.

    A lembrança de sua rival queimava em sua mente como brasas acesas. Forte, impetuosa, arrogante… e agora nada além de poeira no vento. Ele deu um passo à frente, sentindo um peso no peito que não deveria estar ali.

    — Idiota… — sua voz ecoou, carregada de rancor e algo mais profundo, mais amargo. — Você morreu e me deixou esse inferno!

    Seus dentes rangeram, sua garganta apertou. Ele queria acreditar que a odiava.

    Queria acreditar…

    — Posso, enfim, dizer que te odeio!

    Mas será que era verdade? Ou apenas mais uma mentira que contava a si para seguir em frente?

    Ele fechou os olhos por um instante, permitindo-se afundar na tempestade de sentimentos que sempre tentava ignorar.

    Ele a invejava.

    Ele a amava.

    Mas odiá-la? Nunca.

    O que odiava, na verdade, era o fato de não ser ela.

    Porque, no fundo, nunca se amou. Sempre se viu como um rei sem coroa, um príncipe sem realeza. Um pária dentro da própria existência, um fantoche cujos fios eram puxados por aqueles que ditavam seu valor.

    Mas Liliel… nunca.

    Ela nunca precisou da aprovação de ninguém. Nunca permitiu que lhe dissessem quem era, ou o que valia. Caminhava pelo mundo como se ele fosse dela por direito, e talvez fosse.

    Essa era a verdadeira razão do seu ódio.

    Não por ela.

    Mas por si.

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