Capítulo 283 - Esperança, é raro e cintilante
— E como está a mãe?
A pergunta ficou no ar por um momento, como um fio de fumaça prestes a se dissipar.
— Mal consegue te encarar… — suspirou, as palavras saindo pesadas, arrastadas, — Está com vergonha… medo, sabe, e o luto? A consome…
Não foi uma surpresa, mas isso não a tornava menos dolorosa. Ela fechou os olhos por um breve instante, permitindo-se sentir o peso antes de responder.
— Está depressiva… — soou fria, quase mecânica, como se a emoção tivesse sido arrancada à força de seu tom, — Ela não precisa se culpar, sabe, eu entendi… entendi tudo, e Naoto… bem, ele ficaria feliz com tudo isso, com como acabou…
Teu pai a observou em silêncio. Havia algo de errado ali. Algo na forma como falava, como escolhia suas palavras, tentando se convencer do que dizia.
— Você diz isso, mas sua voz… — notou, inclinando ligeiramente a cabeça, — Tristeza é tão difícil de lidar, né?
Ela até hesitou. Um segundo a mais do que deveria.
— Ehr…
— Você não é invencível, não é a garota de ferro. Ninguém é.
Ela o encarou por um momento, e sua máscara caiu. Por um instante, não havia a exorcista destemida, nem a filha que carregava o peso do mundo nos ombros—apenas uma garotinha, despida de sua armadura, exposta à dor crua da realidade.
Mas foi só um instante.
— Eu sei… — murmurou, — Mas queria… ser 1% assim… Como você. Como consegue?
Isso o fez rir, mas sem humor. Virou-se, às costas voltadas para ela, como se encarar aquilo diretamente fosse demais até para ele.
— Não consigo! — Sua voz era baixa, quase um sussurro. — Mesmo para quem já morreu tantas vezes… perder alguém é uma ferida imortal. Nós carregamos até depois da morte. Esse é o fardo de ser um exorcista. Não… de ser um humano!
Seu olhar refletindo algo entre aceitação e amargura.
— No final, ninguém escapa da dor. Nem aqueles que se fingem de frios…
Ela disse, sua voz carregada de uma certeza amarga, encarando da janela o mais hipócrita dentre os “fortes”.
Sentado em meio à penumbra, Yami parecia menor, diante da vastidão do silêncio. Mas a sombra projetada contra a parede não pertencia apenas a ele—era o reflexo de sua outra faceta que ela conhecia só agora, aquela que se escondia sob camadas de indiferença e sarcasmo. O espelho de seu ser.
E nele, ela via-se o inverso.
O lado que ainda sangrava, que ainda carregava as marcas do que perdeu. Ele podia fingir, podia se vestir com a máscara do cínico, do indiferente. Mas no fim, era como ela. Como todos.
Carregava a dor, mesmo que jamais a admitisse.
Continuando naquela madrugada fria e silenciosa, dentro do covil subterrâneo, a atmosfera fervilhava com tensão.
A iluminação fraca das chamas de uma fogueira projetava sombras inquietantes nas paredes úmidas de pedra. O cheiro de poeira misturado ao aroma metálico de sangue ressecado impregnava o ar, e o ruído distante de ratos remexendo entre os destroços só aumentava a sensação de clandestinidade.
Mahmoud, ainda envolto no manto sancro, sentou-se entre eles com uma expressão preocupada. Seu olhar penetrante varreu o círculo de rostos ansiosos.
Zuri, a líder, apertou os punhos sobre a mesa improvisada, seus olhos faiscando de incredulidade pelo que acabara de ouvir.
— O quê? — Engasgou com as próprias palavras, como se fossem veneno. — Aquele filho da puta do lado dos demônios?
Seu tom era imerso em ódio e surpresa, mas também de uma dúvida amarga. Era difícil engolir aquela revelação.
Satoshi inclinou-se para frente, com os olhos semicerrados. A notícia era absurda, ilógica, e ainda assim…
— Tem certeza disso? — Carregava uma mistura de ceticismo e esperança desesperada. — Não faz sentido, mas eu quero… acreditar!
A sala ficou em silêncio por um instante, até que o ex membro do conselho cruzou os braços, seu semblante grave.
— Não sabemos ao certo, jovem, mas há indícios. Diga-me, por que haveria uma guerra entre exorcistas quando há demônios à espreita?
Mas nem todos queriam crer nas intenções por trás das ações questionáveis do líder.
Karoline, sentada sobre uma pilha de caixotes gastos, cruzou as pernas e inclinou levemente a cabeça para o lado, como se estivesse saboreando a ironia da situação. Seus lábios se curvaram em um sorriso torto antes de soltar uma risada curta, seca, carregada de sarcasmo.
— Burrice. Sede de poder. Pode ser tantas coisas…
Mas antes que pudesse continuar, um assobio cortou o ar. Ethan, encostado à parede, ergueu uma sobrancelha, seu olhar afiado se fixando nela. O som foi suficiente para calá-la por um instante.
Para esse, como para Sofie, não precisava de provas. Tudo fazia sentido. Cada peça se encaixava, como se os eventos já tivessem sido planejados muito antes de chegarem até ali.
— Não seja ingênua. — Sua voz era como lâmina deslizando sobre gelo fino. — Ele é um arquiteto da manipulação e do poder. Sua família é um câncer enraizado há gerações. Você acha que ele chegou onde está com sorte e burrice?
Inclinou a cabeça para o lado, os olhos brilhando com um desdém, um julgamento.
— Eu odeio esse tipo…
— Só você? — Zuri arqueou uma sobrancelha.
Por um instante, o silêncio pairou entre eles, pesado, carregado de frustração e da amarga certeza de que estavam diante de algo que poderia facilmente sair do controle. Ela levou a mão até o queixo, os dedos deslizando sobre a pele enquanto soltava o ar preso nos pulmões, como se estivesse tentando organizar os pensamentos em meio ao caos.
— Tá… então o que faremos?
E ele descruzou os braços, sua postura tensa, como se já previsse os desdobramentos inevitáveis.
— Vamos… tentar salvar quem estiver vindo, diminuir os danos e nos preparar para um problema maior!
E fez uma pausa, os olhos sombrios se fechando com intensidade.
— Porque ele virá. E não vai ser por acidente.
Todos se olharam, e naquele instante, uma compreensão silenciosa passou entre eles. Seus olhares se encontraram com uma força inusitada, como se, sem dizer uma palavra, estivessem trocando a mesma conclusão: as coisas não estavam bem para os mocinhos.
Estavam no limite, à beira de algo muito maior do que imaginavam, e o peso de cada escolha era mais pesado do que nunca.
Eles teriam que tentar sobreviver — não só por si mesmos, mas também para manter seus “inimigos vivos”, para não permitir que o abismo os engolisse antes da hora. Mas mesmo sem saber quando ou quem viria, uma chama persistia em seus corações — uma esperança ardente que se recusava a ser apagada.
Porque, no fim, só ela era necessária para o impossível se tornar possível.
Era o que os mantinha de pé até agora, o que os fazia seguir em frente, mesmo com o peso da incerteza sobre seus ombros.
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