Capítulo 291 - O melhor utilizador da própria técnica inata
Antes de o golpe o atingir, seu corpo reagiu antes mesmo de sua mente processar o perigo iminente.
Droga… estou sem minha runa energizada…
A lâmina se aproximava em um arco feroz, rasgando o ar com um chiado metálico ensurdecedor. O brilho do fio refletia em seus olhos, anunciando sua sentença. Cada milissegundo se alongava, como se o tempo quisesse testemunhar sua queda.
Calma…
Uma faísca surgiu, tênue, mas suficiente. Ele não era um gênio como um celeste, não possuía poderes quase divinos ou dons inatos além do óbvio. Mas era formidável, moldado pelo instinto e pela sobrevivência. Sua mente trabalhava a pleno vapor, cada possibilidade se desenrolando em um mosaico de cálculos. Não venceria — mas talvez pudesse, ao menos, evitar a morte.
A lâmina enfim o atingiu.
Sem tempo para esquivar, ergueu os pulsos, cruzando-os à frente do corpo. O impacto foi como ser atingido por uma muralha de aço em movimento. A dor explodiu por seus braços, uma onda ardente percorrendo cada fibra muscular. Seu corpo foi lançado para trás, os pés arrastando-se pelo solo, deixando sulcos profundos na terra.
O corte não parou.
A lâmina seguiu em sua trajetória avassaladora, dissolvendo-se no horizonte em um rastro de energia, varrendo tudo em seu caminho — montanhas, árvores, poeira. Ele forçou os joelhos contra o chão, tentando recuperar o equilíbrio, enquanto o eco do golpe ainda vibrava em seus ossos.
— Magnus? — indagou, saltando das mãos do gigante com a leveza de um ser angelical. Seus olhos castanhos percorreram o campo de batalha devastado, buscando qualquer sinal de vida entre a poeira que dançava no ar. Então, o viu. Com os olhos do oráculo.
Entre os destroços e o chão marcado pelos cortes, ainda estava de pé — ou quase. Seu corpo oscilava, movido apenas pelo resquício de vontade que ainda o mantinha consciente. Seus antebraços, no entanto, haviam sido arrancados, transformados em meros rastros de carne rasgada e sangue jorrando em filetes escarlates.
O cavaleiro negro estava ajoelhado, os ombros tremendo, o peito exposto onde as vestes foram rasgadas pelo impacto. Ele arfava, respirando com dificuldade, mas os olhos permaneciam fixos na silhueta do adversário, não em desespero, mas em absoluta determinação.
Calma… calma!
E então, sua aura brilhou.
Não era apenas um reflexo de energia desperdiçada ou um lampejo de resistência passageira. Sua essência irradiava luz, cintilava com intensidade, como se sua alma se recusasse a aceitar a derrota. Mesmo sem braços, mesmo ajoelhado em meio à destruição, não havia caído completamente.
— Vai mesmo tentar uma regeneração tão arriscada?
Seu olhar era afiado como uma lâmina, observando cada mínima vibração na aura do rapaz.
Mas não precisou de mais do que um instante.
Um feixe de energia percorreu seu corpo, refinado, reconstruindo-o átomo por átomo. A dor foi lancinante, queimando seus nervos como fogo líquido, mas ele a suportou, rangendo os dentes. Quando o processo terminou, seus braços estavam de volta — não perfeitamente, mas o suficiente. Seus dedos estavam rígidos, sua carne pulsava como se ainda estivesse sendo costurada por fios, mas ele podia senti-los, podia movê-los.
E mais importante: podia lutar novamente.
Ele ergueu-se com os membros recém-reformados, ofegante, mas com a mesma intensidade em seus olhos.
— Você não me deu escolha… mas mesmo agora, ainda está se segurando. Me dando chances… — Um sorriso torto surgiu em seus lábios ensanguentados. — Está com pena de mim?
O silêncio entre os dois caiu, pesado como a atmosfera antes da tempestade.
— Não! — A resposta veio sem hesitação.
Mas era mentira.
O celeste sentiu o peso da própria voz ao dizê-la. Sua lâmina deveria ter encerrado tudo ali. Sabia disso. Mas, por algum motivo, hesitou. Algo o impedia de desferir o golpe final. Algo que não queria admitir.
— Não minta! — Sua voz cortou o ar. — Você está sendo um verdadeiro babaca. Já não expandiu energia para não me matar cruelmente. O que custa me enfrentar com o auge de sua extensão?
Sentiu o arrepio que percorreu sua.
Ele sabia que até assim estava se segurando.
— Não me vença como se eu fosse uma criança… — riu, seu peito arfando com a dor da regeneração. — Eu não sou adorável, e bem cabeça dura!
O celeste franziu o cenho.
— Por que não desiste?
Não ouviria.
— Se você não vai pegar pesado, então terei que forçar…
Ele cruzou os dedos. Algo mudou.
O ar ficou denso, carregado de eletricidade. A poeira ao redor começou a se elevar, girando, como se a própria realidade estivesse reagindo à sua presença.
— Está preparado?
— Merda…
Uma pressão esmagadora se formou contra seu peito, como se mãos invisíveis tentassem arrancar seu coração. Seus olhos se arregalaram. Que poder todo é esse?!
O mundo ao seu redor começou a se deformar.
— Tentará disputar uma expansão comigo?!
Não…
Aquele instante… foi seu adeus àquela realidade.
O espaço ao redor dele se rasgou. Sua energia se estendeu, criando um lapso no tecido da existência. Mas não era uma simples expansão — não havia barreiras, não havia uma terceira dimensão se abrindo. Era algo além.
Suas veias pulsavam, brilhante escarlate, que queimava sua pele de dentro para fora. Ali, ele era o arquiteto do destino.
— Extensio Energiae, Incantatio Divina, Intangibilitas Absoluta!
As palavras ecoaram como um decreto dos céus. Não tinha certeza se sairia vivo daquilo, após…
Mas… era incrível.
Esse é o meu ápice!
Sussurrava em sua mente enquanto a besta de Gabriel, sem necessidade de ordens mentais, movia-se instintivamente para protegê-lo, colocando-se à frente.
Era lindo… e ameaçador.
Ver alguém atingir o absoluto domínio sobre seus talentos inatos era como presenciar a própria grandeza da existência se dobrando perante a vontade de um único indivíduo.
E, em uma fração de 0,5 segundos, ativou esse pulsar, sacrificando mais de oitenta por cento de seus atributos vitais e não vitais. Esse poder iria reverberar por exatos 8 minutos e 30 segundos, o tempo limite para suas habilidades permanecerem ativas.
Mas… o que, de fato, havia feito?
Através de um lapso — uma ferida dimensional — conjurou seu domínio e o reivindicou no limite de Crea.
Após isso, poderia forçar a conjuração de qualquer uma de suas técnicas. E escolheu a mais poderosa.
Suspendia até mesmo todas as punições por ultrapassar seus limites — sequelas ou não —, tornando-se intangível a elas, até mesmo diante de conceitos mais elevados.
Era como tornar-se imortal apenas para, mais tarde, sofrer com as consequências. Sua vida se esvaía como se cuspisse a própria vitalidade, mas a secura não o incomodava antes da hora.
O timer comandaria sua vida.
Ciente disso — como poderia não estar? —, colocou as mãos contra o chão, sorrindo com confiança, embora a angústia lhe apertasse o coração. O elefante foi soterrado, enterrado como se pertencer ao solo fosse seu destino inevitável.
— Cuidado por onde pisa! — zombou.
A criatura, no entanto, mesmo presa, lançou-lhe cortes que passaram por seu corpo sem efeito algum.
Então, avançou — intangível ao atrito. Sua velocidade era impossível de medir.
O celeste só percebeu que fora lançado para longe quando sentiu os pés raspando contra a terra…
— Como?
Ele mal teve tempo de reagir. Aliás, tempo… não existia.
Levando um golpe certeiro no peito e, em seguida, outro no rosto, sentiu a força dos movimentos ritmados novamente.
Estava jogando capoeira, em sua técnica inata.
Ele está… em um estado abstrato?
Deduziu, tentando entender a dinâmica daquele combate. Não havia mais amarras; seu adversário tornara-se intangível a qualquer ataque direto. Mas essa técnica possuía suas limitações.
Não poderia estender sua energia mais para utilizar outras habilidades enquanto estivesse nesse estado suspenso.
O tempo era seu único inimigo agora.
Então teria que derrotá-lo antes que se esgotasse. E mesmo que sobrevivesse, não teria uma segunda chance.
E o celeste?
Tentou cruzar os dedos, talvez buscando um instante para reagir, mas o golpe veio. Um martelo rodado, girando, acertou seu braço com força suficiente para quebrá-lo. A dor explodiu, latejante.
Ao menos… vou afastá-lo de Seiji. Tempo suficiente para que isso não seja em vão…
O pensamento ecoou na mente do lacaio enquanto seu adversário permanecia de pé, ofegante.
— Agora você me encurralou…
Sentindo o impacto de mais um golpe que o fez recuar.
A dor latejava mais. Seu corpo inteiro doía. Mas continuaria a ignorá-la?
Como sempre fez.
Um altruísta exemplar, caminhando sobre espinhos sem se importar — fascinado apenas pela beleza da rosa.
Droga… mesmo com minha visão além do impossível, mesmo com minhas percepções ampliadas… sinto-me incapaz. Mas… ele realmente me vencerá só com ataques físicos?
Esse era o segundo problema. O exorcista não podia recorrer a nada além de sua força bruta. Sem truques, sem manipulação energética, sem artifícios mágicos. Apenas o puro combate.
E, no entanto, a balança daquele embate permanecia equilibrada.
Era inacreditável. Um feiticeiro de grau cinco conseguira encurralar um grau celeste.
Mas… havia um grande motivo para isso.
Mesmo que fosse uma tempestade de movimentos imprevisíveis — indefensável, incalculável… imparável.
Era, ao mesmo tempo, uma sabotagem a si; sentia seu fluxo comprometido. Sua energia, antes selvagem e indomável, agora estava represada, sufocada. Ele enfrentava algo muito além do esperado.
E Gabriel, convertendo sua energia para que seu corpo resistisse a tudo isso, chegou a considerar levá-lo a sério.
Mas… queria terminar sem uma tragédia.
E, se fosse necessário, sua vida valeria o sacrifício.
Cabeça dura. Nunca muda.
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