Capítulo 80 - Vulto Preto e Branco
O hall de entrada do hotel luxuoso era enorme e muito bem iluminado por lustres. Um longo tapete vermelho, sobre um chão branco, seguia até o pessoal da recepção. Dezenas de pessoas caminhavam por lá e iam para as escadas e elevadores que levavam aos andares superiores.
— Esse lugar é extravagante… — disse Jean.
— Acho que qualquer coisa vai ser extravagante pra gente, a gente veio de uma cidadezinha no meio do mato — brincou Jeremiah, antes de chegar perto de Charlotte. — Como vai ser?
— Vou alugar três quartos, cada um com duas camas, e vocês decidam como vão se organizar.
Com os quartos pagos, subiram ao décimo andar do hotel pelas longas escadas. Separaram-se rumo aos seus quartos. Verion e Jean ficaram juntos no primeiro; Jeremiah e Charlotte no segundo; Jon e Elemenope no terceiro.
Os quartos eram tão bonitos quanto a entrada do hotel, e tinham luz elétrica. Verion deitou em sua cama e se surpreendeu com a forma que seu corpo afundou no colchão.
— Essa coisa é muito mais macia do que eu esperava, quase me assustei.
— Vamos conseguir ter uma noite de sono tranquila finalmente — falou Jean ao se sentar na beirada da cama.
— Essas últimas semanas foram muito cansativas… Ainda mais por saber quem está te perseguindo.
— O Jeremiah te contou das coisas?!
— Ele não deve ter te avisado, mas sei sobre tudo que vocês estão tramando. Ele me contou hoje de manhã no trem, antes de vocês acordarem. — Deitou na cama e afundou a cabeça no travesseiro. — Foi uma boa ideia naquela hora fingir que o problema envolvendo a Lyria era uma segunda personalidade. O Jon ia ficar perturbado com essa informação da Circe.
— Sim… — Ele olhou para Jean na cama ao lado. — E tudo bem por você? Sobre tudo que ouviu.
— Minha família morreu e tudo que eu tinha sumiu. Não vou reclamar de estar fazendo parte do seu plano numa hora dessas, pelo menos minha vida ainda tem algum propósito se eu puder ajudar o Jeremiah a fazer as coisas que ele quer. Não sei se é o objetivo mais nobre do mundo, mas eu gostaria de poder realizar os desejos do meu amigo.
Verion ficou aliviado, Jean era confiável e parecia aceitar participar do plano de vencer Layla Zayn. Não era um objetivo plausível naquele momento, mas estava um pouco mais satisfeito de ter um novo aliado que sabia sobre Circe, Aurelius e seu plano para mudar o mundo.
— Quero encontrar meu irmão e pedir ajuda… talvez ele saiba alguma coisa pra ajudar a Lyria ou pelo menos me ajude no plano de invadir a ZNI.
— Onde será que ele está numa hora dessas? Considerando que o Jon ficou chamando ele de psicopata, talvez esteja arranjando problemas com alguém por aí.
Verion percebeu que havia um rádio na mesa de cabeceira ao lado da cama e o ligou. Um pequeno ruído veio antes de ele conseguir sintonizar em algo, a rádio oficial da cidade, a mesma que ouvia distante em Aludra.
O renomado escritor Lous Khrizantema acaba de anunciar que sua radionovela está chegando ao ápice, e afirmou que o capítulo 100 será uma insanidade completa! O que será que nosso querido escritor vai nos apresentar em breve no programa? Fiquem sintonizados para descobrir!
— Khrizantema…
— Vou tomar banho, acho que você deveria também — disse Jean antes de ir para o banheiro do hotel.
Proximidades do Hotel Santa Meissa, Rigel, 03/05/029, às 21:22.
Um homem completamente vestido de branco estava em pé na caixa d’água de um dos prédios da região. O cabelo preto e arrepiado balançava levemente com o vento. Tinha em mãos um celular de botões, com o qual fazia uma ligação.
— Já te disse Ganrrimo, fala pro velho manso ficar calmo aí.
— Não fique chamando Karl assim, ele vai ficar irritado desse jeito… — Ganrrimo tinha uma voz serena e agradável.
— Podem me contar mais tarde sobre a reunião estratégica de vocês, juro que sou um bom ouvinte e vou saber de tudinho.
— Anthony, você é péssimo para prestar atenção nas coisas. Desculpe-me por apontar esse fato, mas da última vez você conseguiu dar um jeito de confundir uma missão de execução com ir comprar bolo para mim.
— Assim fica difícil de me defender — disse um tanto desanimado.
— Sim…
— Eu vim dar uma olhada nessa região do Santa Meissa, percebi uma movimentação estranha aqui. Quero ter certeza de que não é coisa do pessoalzinho intrometido do Vincent.
— Entendo, mande notícias caso algo aconteça com você.
— Pode deixar.
A ligação terminou e Anthony guardou o celular no bolso do traje esfarrapado. Olhou ao redor e expandiu seu Roha, caçando qualquer perturbação ou anormalidade nos arredores. Por vários minutos, manteve a concentração.
— Nada ainda… Ninguém forte deu as caras por aqui — murmurou, respirando um pouco mais aliviado.
De repente, uma mão pesada parou em seu ombro, acompanhada por uma respiração estranha. O corpo de Anthony estremeceu. Ele se jogou no chão por puro instinto e olhou para trás, apenas para dar de cara com o sorriso mais desconfortável que veria na vida.
O cabelo branco, espetado e volumoso, o bigode fino e o cavanhaque não deixavam dúvidas de que era Vincent Velgo. Mas foi o porte físico absurdo e os olhos esbranquiçados aterrorizantes que trouxeram a certeza final. O homem mais amaldiçoado de Raptra estava ali.
Anthony travou, sem qualquer reação, enquanto a figura se aproximava olhando de cima para baixo. O longo casaco negro aberto, com uma marcante pelagem vermelha na altura do pescoço, batia perfeitamente com os relatos.
— Ninguém forte por perto, não é? — A voz pesada e risonha, como se estivesse arranhando a garganta para sair, fez Anthony dar alguns passos para trás tentando imaginar uma rota de fuga.
— Por que logo você tinha que aparecer?!
— Que pavor todo é esse nos seus olhos? Acabei de ouvir que não tinha ninguém forte por perto… Já que sou tão fraco que você nem mesmo me percebeu, não deve ter problemas em me vencer — caçoou e deu seu último passo.
— Não vai ter outro jeito… — Anthony liberou uma quantidade grande de Roha e cobriu o próprio corpo. — O mais inteligente sempre prevalece.
— Obrigado por confirmar minha vitória então, fico lisonjeado.
Vincent criou com o Elemento Imaginário um par de espadas douradas e translúcidas, efêmeras como uma chama ao vento. Anthony acreditou que eram apenas espadas mágicas comuns, mas logo teve uma surpresa desagradável.
Centenas de estrondos viajaram pelas ruas, rugidos que cortavam o vento acima da velocidade do som. Anthony se jogou do topo da caixa d’água, mergulhando em uma queda livre de trinta metros para tramar uma rota de fuga.
Seu perseguidor seguiu o mesmo caminho, pulando para caçá-lo.
— Isso…
Vincent disparava insaciavelmente. Da ponta das espadas, ele disparava Roha como se elas fossem duas enormes metralhadoras. As rajadas finas e brilhantes arrancavam e desmanchavam o concreto dos pontos atingidos sem qualquer dificuldade. Anthony mal teve tempo de tocar o chão e foi atingido por um golpe da lâmina, por pouco não perdendo seu braço.
— Vai precisar ser mais rápido! O velho Karl não te ensinou nada?
— Raptra! — Anthony clamou o nome do Deus da Caça e foi envolto por uma aura esverdeada. Todos os sentidos foram aguçados e sua velocidade alcançou um novo patamar. Desapareceu do campo de visão de Vincent, correndo desesperadamente em direção à base da Estrela da Manhã Norte.

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