Capítulo 20 - Gestão de crises
Toc Toc
Depois de duas batidas, a porta se abriu, revelando Mikael entrando no escritório da vice-líder.
O escritório era um refúgio particular dentro do enorme edifício, situado no topo. Através das ripas inclinadas, a luz do sol da tarde atravessava a sala, lançando uma luz longa e curiosa. O ar estava carregado de uma tensão indefinível, não muito hostil, mas definitivamente não despreocupada.
A sala era um enigma intrigante. Pilhas proeminentes de documentos e arquivos bem etiquetados coexistiam sobre a mesa com laptops abertos que exibiam fluxos de dados misteriosos. Dossiês perfeitamente alinhados ocupavam um canto, enquanto uma massa desorganizada de papéis soltos cobertos de anotações escritas às pressas ocupavam outro.
Os detalhes exclusivos do espaço sugeriam uma história que não estava escrita nas paredes, mas sim gravada na variedade incomum de artefatos. Livros antigos que detalhavam intrigas políticas que há muito haviam desaparecido da vista do público estavam lado a lado com livros empoeirados sobre ocultismo e suas capas de couro que haviam se desgastado com o tempo. Eles eram os confidentes de inúmeras noitadas, prova da sua erudição.
A vice-líder estava intensamente concentrada enquanto digitava em seu notebook, folheava relatórios e consultava os bancos de dados dos Mephistos.
— Opa, desculpe interromper. — disse ele, fechando calmamente a porta. — Caramba, até esqueço o quão metódica você é.
Ele notou que um painel de cortiça gigantesco ocupava toda a parede. O painel estava coberto de fotos e anotações abrangentes.
Cada imagem era cercada por recortes de jornais, post-its coloridos e observações escritas à mão que retratavam uma criatura estranha diferente.
As características e o comportamento da espécie foram meticulosamente registrados nessas anotações. Cada detalhe ali registrado continha conhecimentos úteis sobre tais.
— Tem meu total respeito, sério. Nem eu sou capaz de algo assim. — Quando reparou em um detalhe particular, comentou: — Olha só, não sabia que você guardava pets por aqui.
Um aquário estava disposto no escritório, criando um pequeno oásis de serenidade. O aquário ficava em uma prateleira de madeira escura com enfeites elaborados, cercado por uma auréola de luz natural que entrava pelas cortinas entreabertas.
As plantas aquáticas ondulavam suavemente no fluxo criado pelo filtro, enquanto os peixes Betta splendens exploravam os ângulos do tanque, produzindo uma exibição movimentada de cores.
Mikael aproximou-se para enxergá-los melhor.
— Hahaha, que legal! — ria, claramente entretido com a cena diante de si. — Acho que a Mandy iria amar ver isso.
A vice apenas permaneceu sentada diante do monitor, com os olhos fixos nele, demonstrando uma severidade tranquila que deixava transparecer pouca paciência.
Antes que Mikael resolvesse responder qualquer coisa espirituosa para ela, esta apenas girou o monitor alguns centímetros na direção dele.
A tela exibia um vídeo do YouTube em reprodução. Uma multidão ocupava uma avenida larga, comprimida entre faixas, cartazes e celulares levantados. Os gritos sobrepostos que se ouviam no áudio variavam entre indignação e exaustão. Alguns cartazes mencionavam diretamente a U.E.C., enquanto outros falavam de perdas, negligência e promessas quebradas.
Mikael inclinou o tronco um pouco mais para perto do monitor.
A gravação tremia nas mãos de quem filmava e o enquadramento instável alternava o foco para rostos cansados, cartazes escritos às pressas e trechos desconexos de gritos que se sobrepunham. Em determinado momento, a pessoa que filmava se aproximou de um pequeno grupo mais organizado, no qual alguém havia assumido a função de porta-voz.
Era uma mulher de meia-idade que segurava o próprio celular como se aquilo lhe conferisse autoridade. Ao perceber a câmera, ela ergueu um pouco mais o queixo e começou a falar alto o suficiente para ser ouvida por quem estivesse por perto.
— A verdade é que ninguém aqui confia mais nessa gente! Eles dizem que estão protegendo a gente, mas ninguém explica o que realmente tá acontecendo!
Algumas pessoas ao redor assentiram, outras só continuaram filmando.
— A gente já viu esse tipo de coisa antes! Primeiro escondem informação, depois vêm com soluções milagrosas com… hã… essas vacinas aí que ninguém sabe de onde vêm, cheias de efeito colateral, gente ficando doente, criança desenvolvendo problema e eles fingindo que não tem nada a ver com isso! E agora querem que a gente confie neles de novo? Depois do que aconteceu naquela escola? Depois de tudo isso? Isso não é proteção, isso é controle! Isso é…
Então a imagem congelou quando um anúncio começou.
A vice-líder franziu levemente a testa quando percebeu tarde demais o pequeno detalhe que havia esquecido.
Em seguida, surgiu o logotipo da própria U.E.C. e, então, Mikael apareceu no vídeo com seu uniforme impecável, boa postura e iluminação perfeita. Ele olhava diretamente para a câmera enquanto uma narração corporativa falava sobre segurança, proteção civil e comprometimento com a população.
— Hm…
A vice-líder já movia o cursor na direção do botão de pular anúncio assim que ele estava avaliando a si próprio.
— Engraçado. — Mikael apontou discretamente para a tela. — A gente aparece nos anúncios, mas ainda tem que assistir aos anúncios.
O olhar dela se deslocou lentamente para este.
— É o YouTube.
— Eu sei, eu sei. Só achei curioso. — Cruzou os braços, ainda observando a si mesmo na propaganda institucional. — Considerando que a agência é financiada pelo governo, achei que pelo menos dava pra pagar um YouTube Premium.
A vice-líder finalmente clicou em pular anúncio e fechou a janela do Chrome. A tela escureceu por um instante antes de voltar ao desktop da máquina, deixando o escritório num silêncio estranho.
Ela permaneceu com a mão sobre o mouse por alguns segundos, o olhar perdido na tela apagada.
— Isso aí está acontecendo todos os dias agora. — disse, batendo levemente com o dedo na mesa
— Protestos?
— Protestos, entrevistas, threads gigantes no twitter, podcasts, vídeos de análise independente. — Ela fez aspas no ar ao mencionar o termo. — Todo mundo virou especialista da noite pro dia.
Mikael apoiou o quadril na borda da mesa ao lado do monitor.
— Imagino que o massacre na escola não ajudou.
A vice-líder soltou um sopro pelo nariz, algo entre um riso cansado e irritação.
— Aquilo foi gasolina num incêndio que já estava aceso.
Ela girou a cadeira para encará-lo melhor.
Ela soltou o ar devagar, como se estivesse tentando se recompor no meio do próprio desabafo, mas a tensão ainda escapava pelos cantos da voz.
— As pessoas estão com medo, e quando as pessoas ficam com medo, elas precisam de alguém pra culpar. — Passou a mão pelo rosto impacientemente. — Aquela manifestação ali é só uma entre várias. Tem cidade onde estão tentando barrar operações da U.E.C., prefeito pedindo auditoria pública, jornalista perguntando se a gente ainda tem controle sobre o que estamos lidando.
Mikael arqueou levemente uma sobrancelha.
— E temos?
— Não começa.
Ela ficou olhando para a mesa por alguns segundos, batendo levemente os dedos no metal, com um peso inesperado no ambiente.
— E o pior nem é questionarem. — continuou. — Questionar é justo. O problema é que ninguém quer resposta de verdade. Querem uma versão simples, mastigada, que caiba num cartaz ou num vídeo de trinta segundos.
Uma risada curta de desdém escapou de seus lábios.
— Metade dessas manifestações não é sobre entender nada, mas sim sobre se sentir certo. Gritar alto o suficiente pra não ter que ouvir o resto. Junta um monte de gente com medo, mistura com meia dúzia de certezas tiradas do nada e pronto. Vira causa.
Mikael apenas a ouvia silenciosamente.
— Tem gente ali que acha que a gente controla isso tudo. — Apontou vagamente com o polegar para o monitor já desligado. — Como se fosse um botão. Liga, desliga, resolve. E quando a realidade não corresponde a essa fantasia, a culpa é nossa.
Antes de continuar, ela pressionou os lábios e respirou fundo.
— Às vezes eu queria colocar essas pessoas numa sala com um Mephisto por cinco minutos. Talvez assim parassem de falar tanta merda na internet.
O agente piscou devagar com o que acabara de ouvir.
— Caramba…
— Eu sei. Foi mal. — Esfregou a testa, frustrada — Eu sei que não posso falar esse tipo de coisa, mas é difícil, Mikael. Porque do lado de cá… não tem discurso bonito, e ninguém lá fora quer lidar com consequência, só com opinião.
Por fim, a vice se recostou na cadeira, visivelmente mais cansada do que irritada.
— Enfim, se você está aqui, não quer dizer uma coisa boa.
Acostumado a lidar com sua frieza, esboçou um sorriso curto, mas irônico. Ele ajeitou a postura, embora relutante em adotar o tom sério que a situação exigia. Seu estilo sempre foi um tanto irreverente, e ele sabia que a rigidez dela contrastava fortemente com sua natureza mais descontraída.
— Ahem. — Pigarreou de leve, deliberadamente prolongando o silêncio. — Estou aqui para discutir o destino do garoto.

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