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    Os olhos da vice-líder estreitaram-se. Sua reação não foi de surpresa, mas de tédio; parecia que já esperava por isso.

    — A decisão já está tomada. Não pretendo alterá-la.

    Mikael ergueu as sobrancelhas e deixou escapar um suspiro exagerado.

    — Entendo, entendo. — Ele acenou levemente com a mão. — Contudo, acredito que ele não merece um destino desses. Krynt nunca teve controle sobre sua natureza desde o início. Culpar o garoto por algo que ele nem compreende direito me parece… vamos dizer… um tanto medieval. E nós estamos em uma sociedade moderna, não?

    A vice-líder se manteve impassível. Seus olhos transpareciam uma mistura de cansaço e irritação, como se já tivesse ouvido variações desse argumento dezenas de vezes. Seus dedos tamborilaram levemente na mesa.

    — Esse assunto também já foi debatido. O que você realmente deseja, Mikael?

    Ele aproximou-se mais da mesa, inclinando-se com um olhar que mesclava uma confiança quase temerária e um discreto toque de provocação. A vice-líder era difícil de convencer, mas ele sempre gostou do desafio.

    — Bem, eu tenho uma proposta… — começou, com um sorriso que ela certamente consideraria irritante. — Gostaria que o Krynt entrasse para a força-tarefa.

    Ela congelou por um breve momento, mas logo seu rosto assumiu uma expressão de desgosto e perplexidade. Sua sobrancelha se arqueou, e por um segundo Mikael achou que ela fosse explodir.

    — Isso é ridículo. Isso não afetará apenas nosso trabalho. Vai repercutir em mim, em todos que trabalham aqui. Você sequer pensou nisso?

    Mikael cruzou os braços e deu de ombros, como se aquela reação fosse exatamente o que ele esperava.

    — Já havia considerado que essa questão poderia surgir. Mas… não será um problema. O garoto está sob minha supervisão. E você sabe que eu sou ótimo em supervisionar. Tenha a certeza de que manterei tudo sob controle.

    A vice-líder olhou para ele com olhos penetrantes, como se tentasse desvendar o real intuito por trás daquela proposta absurda. Mikael estava ciente de que seu passado não era exatamente um portfólio de escolhas acertadas e que, aos olhos de muitos, ele era mais um elemento de desordem do que um estrategista confiável. No entanto, desta vez, sua convicção era firme.

    — Suas decisões costumam nos causar prejuízos. E colocar nossas vidas em risco… Por que você insiste em trazer o garoto para cá, sabendo que ele pode ser mais um problema?

    — Sejamos francos. Estamos no meio de uma guerra. Uma guerra silenciosa, mas ainda assim uma guerra. E nesse jogo, todos temos sangue nas mãos.

    Ela permaneceu em silêncio, observando-o com atenção. Mikael percebeu que talvez estivesse empurrando os limites, mas já havia ido longe demais para recuar.

    — Os Mephistos estão evoluindo, se adaptando, se tornando mais espertos do que nunca. — Ele continuou, seu tom agora mais sério. — Se formos honestos, estamos perdendo terreno. Krynt, por mais que você o veja como um problema, é exatamente o tipo de recurso que precisamos. Ele entende como eles pensam, ele tem uma conexão com o lado sombrio que estamos lutando para erradicar. Imagine só, colocá-lo do nosso lado… Seria uma vantagem estratégica significativa.

    Ele caminhou até a janela, olhando para fora, e depois voltou a encará-la.

    — Eu sei, você vai me dizer que é arriscado, que pode dar errado. — Ele ergueu as mãos, como quem se rende. — Mas olha o cenário, desde 2019 temos visto as baixas aumentarem. A cada ano mais inocentes morrem. E a última vez que verificamos, nossa brilhante estratégia estava sendo superada. Krynt pode virar a maré a nosso favor. Sim, ele é imprevisível. Mas o imprevisível, às vezes, é exatamente o que precisamos quando o previsível está nos matando aos poucos.

    A vice-líder suspirou, seus olhos vagando pelo escritório em busca de uma resposta que ela já conhecia, mas relutava em aceitar.

    — Mikael, ele ainda é um jovem incapaz de lidar com ameaças que ultrapassam qualquer coisa que já viu. Temos dois novatos tão novos quanto Krynt, e nenhum deles está preparado para enfrentar uma ameaça de classe mortal. Colocá-lo em perigo só porque achamos que ele é um inimigo natural… isso não é favorável à sua condição atual.

    Um passo atrás, Mikael deixou o peso das palavras dela pairar na sua cabeça por um momento. Ele sorriu levemente, não o seu sorriso incisivo de sempre, mas algo mais contido, quase melancólico. Sabia que ela estava parcialmente certa.

    — Sabe… eu entendo o seu ponto. — Passou a mão pelo queixo com uma expressão pensativa. — Mas isso é uma questão de tempo. Tempo e, talvez, um pouco de fé na próxima geração, que, pelo que vejo, anda escassa ultimamente.

    A vice-líder encarava-o com uma combinação de irritação e curiosidade. Mikael era, no mínimo, provocante, mas suas palavras sempre continham uma lógica oculta, embora fosse uma lógica audaciosa e perturbadora. Ela comprimiu os lábios, porém não o interrompeu.

    — O que você realmente precisa, e aqui vai meu conselho gratuito, é acreditar na próxima geração. Porque, goste ou não, somos uma linha tênue entre sobrevivência e colapso. Francamente, já tentamos o seu jeito, e as coisas não estão exatamente indo bem. Estamos ficando sem tempo, e Krynt é uma ferramenta que ainda não sabemos usar.

    — Fé na próxima geração? Você tá falando da mesma galera que entra em pânico com comentários na internet, mas acha que entende geopolítica por thread de rede social?

    Se aproximou da mesa da vice-líder e se sentou na borda, algo que sabia que a irritaria, mas fez mesmo assim.

    — E quem ensinou eles a funcionar assim? — rebateu, sem perder o tom. — Porque não foram eles que montaram esse sistema. Eles só aprenderam a sobreviver dentro dele.

    — A maioria não aguenta dois dias aqui dentro sem surtar. Ansiedade, impulsividade, necessidade de validação o tempo todo. Você acha mesmo que isso sustenta um combate real?

    — Sustenta adaptação. — corrigiu — Eles quebram mais fácil, sim. Mas também se reconstroem mais rápido. Não têm apego ao jeito certo de fazer as coisas, e é exatamente isso que a gente precisa quando o problema não segue regra nenhuma.

    — Ou seja, improviso.

    — Evolução forçada. — Deu de ombros. — Lewis e Mandy são prova disso. Dois anos atrás você disse que eles eram instáveis. Hoje estão lidando com coisas que gente veterana travou na primeira vez.

    — Exceções continuam sendo exceções.

    — Até virarem padrão. A diferença é que você olha pra eles e vê risco. Eu olho e vejo o que sobra quando o sistema antigo para de funcionar.

    — Isso parece mais desespero do que qualquer outra coisa. Onde o Krynt entra nisso?

    — No meio do problema. Ele não encaixa no modelo antigo e também não é exatamente esse novo. É… outra coisa. E fingir que dá pra tratar ele como mais um agente é o tipo de erro que faz relatório bonito e enterro rápido.

    — Então sua solução é confiar em gente instável e num garoto que a gente mal entende?

    — Minha solução é parar de fingir que alguém entende alguma coisa, já que a diferença é que alguns ainda têm espaço pra aprender, outros só defendem o método porque não sabem fazer diferente.

    Ela inalou profundamente, visivelmente aborrecida, porém sem interromper.

    — Você realmente acredita que isso vai funcionar?

    — Não, mas eu acredito que o que a gente vinha fazendo já não funciona mais.

    Ele não precisou de gestos exagerados para reforçar sua posição. A confiança que exalava, embora silenciosa e até irritante, era inegável. Mikael sabia que, no fundo, estava certo.

    — Então… garanta que ele não vá causar qualquer tipo de dano severo em caso de possessão. Essa é a sua única tarefa. Espero que entenda o que está fazendo, Mikael.

    Este levantou-se da mesa.

    — Eu posso dar conta, você sabe disso. — Enquanto se virava para sair, lançou um olhar de canto, algo quase desafiante. — Nesse mundo, ele está no meu domínio. E se der errado, eu sou o primeiro a pagar o preço, como sempre.

    A seleção das palavras por Mikael não era fortuita. Todas tinham um significado profundo, compreendido apenas por ele, uma combinação de confiança e aceitação do caos ao seu redor. Ele conhecia os grandes riscos envolvidos, mas, no fundo, essa era a única maneira que ele conhecia de agir.

    A vice-líder o observava com cautela; apesar de seus olhos serenos, uma novidade brilhava neles, a curiosidade. Talvez ela estivesse começando a entender o que Mikael tentava expressar, por mais insano que pudesse parecer.

    Quando se aproximou da porta, prestes a atravessá-la, um barulho alto ressoou, e eles se voltaram instintivamente na direção do som.

    — O que está acontecendo? — A vice-líder perguntou, já se levantando de sua cadeira.

    Mikael deu um passo para trás, um leve sorriso brincando em seus lábios.

    — Ah… — Suspirou, como se de repente se lembrasse de algo trivial. — É mesmo. São eles.

    Eles quem?

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