* * * * *

    Uma cabeça presa no alto de uma estaca. De um dos olhos escorria uma lágrima vermelha.

    Abaixo dela, um homem mantinha os braços estendidos, segurando duas lanças. No momento seguinte, dezenas de lâminas cravaram em seu peito.

    De um lado, uma mulher gritava enquanto era arrastada pelos braços. Do outro, uma menina se debatia e chutava as grades de uma cela.

    * * * * *

    Dren acordou e levou a mão ao rosto.

    Estava encharcado de suor. As dores pelo corpo continuavam desde o dia anterior.

    — Um sonho?

    Seu peito batia rápido, a respiração estava acelerada e quando ficou de pé a comida do dia anterior voltou à boca.

    Ele viu uma sombra passar pelo lado de fora, abriu a porta e saiu da barraca.

    — Pai, eu disse que foi a comida.

    Han estava de joelhos do lado de fora da barraca, com a testa enxarcada e uma das mãos trêmula apoiada no chão. Ergueu a outra e fez sinal para Dren ficar em silêncio.

    — Dren, não escuto os cães.

    — Roscoe! Bolt!

    Dren sentiu o chão sob os pés vibrarem antes de gritar:

    — Soe o alarme!

    O sol ainda não havia nascido.

    A maior parte do acampamento ainda dormia e os poucos acordados ficaram parados ou cambaleavam sem correr para o alarme.

    Por entre a névoa, a sombra de um corpo tremia e oscilava no topo de uma lança.

    Dois homens montados a cavalo surgiram na poeira com machados erguidos.

    Han se levantou e ergueu os braços.

    O grito dele reverberou pelo assentamento.

    — REND SPEAR!

    O vento rugiu ao redor, ergueu a areia até a altura de Han e explodiu para todos os lados.

    Duas lanças azuis curvadas se formaram em suas mãos.

    — Fique perto, Dren!

    Antes que se aproximassem, um machado veio na direção do pescoço de Dren. Ele se jogou para o lado e rolou pelo chão enquanto a lâmina destruía uma das sustentações da tenda.

    O cavalo derrapou na lama, tropeçou nos destroços e quase derrubou o homem.

    Dren se levantou e cambaleou para trás, ainda se movendo devagar e quando olhou para o lado a segunda investida já se aproximava, com o machado apontando para sua cabeça.

    Ele ergueu um braço e estendeu a mão.

    O grito fez as patas do animal estremecerem.

    — REND BLADE!

    O ar se juntou ao redor dele e explodiu em ondas na direção do inimigo.

    Então uma lâmina curta, disforme e quase translúcida surgiu em sua mão.

    Dren olhou para a sua lâmina e depois para o machado sólido do oponente.

    — Merda, devia ter treinado mais!

    Dren se lançou para frente rente às patas do animal, estendeu a lâmina e a cravou no flanco da montaria, derrubando-a.

    As pernas do homem foram esmagadas com o impacto e o grito dele alertou o resto da caravana.

    Foi aí que ele viu a insígnia de Quanterra no peito do homem.

    — Quanterra…

    — Quanterra está atacando!

    Dren se virou para onde Han lutava.

    Tentou se levantar, mas cambaleou ofegante. Ergueu o rosto e viu um machado girar no ar, prestes a acertar o pescoço de Han.

    — Cuidado!

    Han ergueu os braços e cruzou as duas lanças.

    O machado bateu em uma delas.

    O impacto estremeceu os ossos do braço de Han, trincou a lâmina da lança e seguiu até afundar no seu ombro.

    A lança caiu no chão, ficando translúcida em seguida.

    O soldado virou o cavalo e avançou de novo na direção de Han, com o machado erguido.

    Han se lançou para o lado e desviou, sentindo a lâmina zumbir ao lado do rosto.

    O soldado avançava novamente, as patas do animal estremecendo o chão a cada passada.

    O grito dele voltou a ecoar pelo assentamento.

    — REND SPEAR!

    A segunda lança ressurgiu e ele cravou as duas no chão, empalando cavalo e soldado ao mesmo tempo.

    O machado desapareceu no ar antes de tocar o chão.

    Gritos ecoavam por todo o assentamento.

    O braço de Han quase tinha sido arrancado, e o sangue encharcava suas roupas.

    Ele caiu de joelhos e viu Dren cambaleando em sua direção.

    Dren atravessou a entrada da tenda com Han apoiado nos ombros.

    — Cadê vocês, mãe, Nyss, Lior?

    Caelinne e Nyss estavam agarradas uma à outra, soluçando.

    No canto, Lior permanecia imóvel, olhando para a parede da tenda. Usava roupas cerimoniais e segurava uma lâmina disforme.

    Han murmurou algo incompreensível.

    —Indom…

    Dren o reequilibrou no ombro e gritou.

    — Temos que ir!

    — Lior, não deixe que peguem nossa mãe e Nyss.

    Lior sacudiu a cabeça ergueu Caelinne e colocou Nyss nos ombros. Antes de sair da tenda, sussurrou:

    — Malditos, esse nunca foi o acordo.

    Nyss foi a única a escutar.

    O massacre se espalhava pelo assentamento enquanto o cheiro de fumaça se misturava ao de sangue e carne queimada.

    Sobreviventes gritavam e corriam sem direção.

    Homens, mulheres e crianças eram mutilados, rendidos e capturados.

    Dren olhou para o lado e viu Roscoe e Bolt caídos na lama.

    Ao longe, um grito estremeceu o que restava do assentamento, e Dren sentiu a nuca arrepiar.

    — REND BLADE: KNIFE RAIN!

    Lâminas curtas e translúcidas caíam do céu na parte mais à frente do assentamento, atingindo todos os que ainda tentavam fugir.

    A lâmina disforme tremeu até desaparecer na mão de Lior.

    — Não tem saída, vamos morrer!

    Dren apontou para a parte mais escura do assentamento, onde o fogo ainda não tinha chegado.

    — Por aqui!

    Correram, mas um grupo de soldados bloqueou a passagem.

    Han apertou o braço de Dren, esperou que ele encarasse seus olhos e se soltou do seu ombro.

    — Meus filhos, façam como foram treinados!

    — REND SPEAR!

    Desta vez apenas uma lança surgiu.

    — REND BLADE!

    Dren e Lior ergueram suas lâminas.

    Han avançou contra três inimigos.

    Duas lâminas rasgaram sua barriga antes que ele enterrasse a lança no peito de um deles.

    Outros quatro avançavam com lâminas em punho.

    Han gritou uma última vez e a segunda lança surgiu.

    — REND SPEAR!

    A segunda lança surgiu das sombras, perfurou a garganta de um deles e parou cravada no peito de outro.

    O corpo de Han foi perfurado por dezenas de golpes.

    Han ergueu o rosto quando uma última lâmina atravessou seu peito. Morreu de pé, encarando-os.

    Lior caiu de joelhos e gritou quando um machado rasgou sua perna. No momento seguinte seu braço foi decepado.

    Ele então estendeu a outra mão e curvou a cabeça.

    — Eu imploro!

    Caelinne e Nyss foram contidas e arrastadas para o lado.

    Os soldados fizeram um círculo ao redor de Lior.

    Quando ele percebeu que um deles o olhava sorrindo, Lior abriu a boca e soltou um grito agudo.

    Dren ainda se mantinha de pé quando uma clava atingiu a lateral da sua cabeça.

    O impacto o derrubou e o lançou contra as pedras.

    A visão escurecia, mas ele ainda viu Lior de joelhos, chorando.

    Viu sua mãe e Nyss sendo arrastadas.

    E, mais adiante, Han ainda de pé, mas já sem vida.

    * * * * *

    Uma espada com empunhadura de chifres invertidos estava cravada no chão, a lâmina projetando a sombra de um elmo partido, enquanto uma mão ensanguentada avançava pela areia tentando alcançá-la.

    * * * * *

    Dren abriu os olhos.

    Tentou se mover, mas correntes prendiam seus pulsos e pés. Tentou novamente e sua cabeça bateu na grade.

    Ao redor, dezenas de outros também estavam acorrentados.

    Rostos que ele conhecia.

    Uma voz atravessou o rangido das rodas.

    — Quase todos fracos e inúteis, separem os que ainda podem dar algum lucro.

    Falava no idioma de Quanterra.

    Dren levantou o rosto e viu que quem falava tinha olhos amarelados.

    Outra voz que vinha de uma carroça à frente:

    — Traidores, comerciantes têm imunidade à guerra!

    Mais uma voz, dessa vez atrás dele.

    — Muito bem. Mais algumas dessas e você vira tenente, Butcher.

    Dren tentou virar o rosto, mas correntes o impediram.

    Estavam cruzando por outra carroça quando Dren levantou a cabeça e viu.

    Sua mãe e irmã estavam sendo acorrentadas e jogadas em uma carroça.

    Caelinne gritava e Nyss chutava as grades, se debatendo.

    — Mãe, Nyss.

    Tentou gritar seus nomes, mas nada saiu.

    A carroça continuou andando e o olhar de Dren vagou pelo assentamento.

    E então parou.

    No centro, foi erguida uma estaca.

    Na ponta dela, a cabeça de Lior ainda com os olhos abertos.

    Mais à frente, o corpo de seu pai ainda de pé.

    Ergueu-se trêmulo na carroça e rugiu para os soldados ao lado.

    — Eu vou fazer vocês sangrarem!

    Se debateu e virou para os soldados que estavam do outro lado.

    — Vocês vão morrer!

    Ninguém lhe deu atenção.

    Dren encarou a cabeça presa na estaca, Lior parecia devolver o olhar e ele continuou encarando até a cabeça sumir na névoa.

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