Capítulo 2 – Balde de lama
* * * * *
O cabo da lâmina translúcida de Dren atingiu o antebraço do homem e fez a lança cair longe.
Dren acenou para uma garota de sardas e cabelos loiro-escuros, que sorria para ele.
— Consegui!
Um soco atingiu o estômago de Dren.
Ele dobrou para a frente e um chute na lateral da cabeça o lançou de lado.
— Em que merda estava pensando?
O homem estendeu a mão, e a lança surgiu novamente.
— Outra vez!
Dren se levantou com a mão no rosto e cuspiu no chão.
— É perda de tempo, vão suspender meu treinamento.
O homem apontou a lança.
— Não sei disso, me pagaram adiantado. Parece que sua família tem vergonha dessa lâmina transparente. Se vai aprender, não me importa.
* * * * *
Uma chuva caia enquanto a carroça balançava com o vento.
Outro corpo é jogado na estrada e uma trilha de cadáveres se formava atrás da carroça.
Dren sussurrou ao tocar o ferimento na cabeça.
— Para onde levaram elas?
Depois colocou a mão sobre o peito e respirou devagar quando sentiu o contorno de uma chave.
— Ainda está aqui.
Então enfiou a mão no bolso e quando não encontrou nada o peito acelerou.
— Não!
— O broche… onde caiu?
Se arrastou pela carroça vasculhando o chão até que alguém o chutou contra as grades.
— Fica quieto, vai fazer nos matarem!
Passavam por uma fazenda.
Ou o que havia restado dela.
Animais soltos e marcas de incêndio se espalhavam pelo terreno.
Uma voz de um militar à frente do pelotão reverberou:
— Paramos aqui, não temos espaço e comida para todos.
— Nos livraremos do peso morto, chamem a merda do imediato e mandem preparar o curral.
Um soldado empunhando um machado avançou para a carroça em que Dren estava e abriu a porta.
— Andem seus vermes, para fora!
Uma fila foi formada. Todos estavam com mãos, pés e pescoço acorrentados.
— Chamem o Bibliotecário.
Um homem de olhos amarelados saiu detrás dos soldados e foi de carroça em carroça até parar diante de uma delas. Então estendeu o braço na direção de um dos homens da fila.
— Um Rend Gun, separem ele do resto.
Um soldado se colocou à frente das carroças, onde todos os que estavam de joelhos pudessem vê-lo.
— Atenção, escória!
— Este é o Balde de Lama. Quem quiser continuar vivo, mate o adversário.
As correntes de alguns foram soltas. Alguns tentaram questionar, outros tentaram fugir.
Não foram longe.
Quem questionava perdia dedos, língua, braço ou perna. Quem fugia morria.
Dren observava os corpos ainda quentes sendo arrastados pelas correntes, deixando rastros de sangue na lama.
As lutas começaram, uma contra uma, até a morte. Parentes, amigos, irmãos.
O mais forte da caravana.
Sorien.
Ainda assim entrou mancando.
Uma das mãos havia sido cordata e um corte sangrava desde o olho até a virilha.
— REND SPEAR!
A arma se materializou e logo ficou translúcida até desaparecer.
— REND SPEAR!
Dessa vez nada apareceu.
O oponente hesitou, mas deu um passo à frente.
Uma lança atravessou o peito de Sorien.
Ele caiu de joelhos e levantou o rosto com um sorriso para o atacante.
Lágrimas escorreram pelo rosto de quem venceu.
Eram irmãos.
A chuva havia parado.
Um soldado empurrou Dren para frente e outro apontou para o cercado.
O oponente já esperava lá dentro.
Dren o tinha visto poucas vezes na caravana.
Quando as correntes caíram, Dren avançou.
— REND BLADE!
A lâmina translúcida surgiu em sua mão.
A espada seguiu em linha reta e cortou o braço do oponente, que recuou segurando o ferimento.
O golpe seguinte mirava o pescoço.
Antes que Dren girasse a lâmina, lama atingiu seus olhos.
Ele ficou cego e a arma escorregou entre os dedos.
O inimigo avançou, a lâmina dele também era translúcida.
A lama tremia sob os pés dele. Dren sentia a respiração ofegante cada vez mais perto.
Então ele estendeu o braço na direção do som.
— REND BLADE!
Um brilho surgiu na mão estendida e desta vez a espada veio maior, mas ainda translúcida.
O oponente tentou parar, escorregou na lama e caiu sobre a lâmina de Dren.
A espada atravessou seu ombro.
Dren arrancou a arma do ferimento e deu alguns passos para trás, limpando os olhos.
O oponente gritou quando a lâmina saiu.
Depois avançou de novo, com a arma erguida contra o peito de Dren.
A visão de Dren ainda estava borrada, mesmo assim ele avançou segurando o braço do oponente com uma mão e com a outra cravou a espada no pescoço dele.
Os corpos caídos eram arrastados por ganchos, deixando rastros de sangue na lama.
Porcos avançavam sobre os restos.
Em pouco tempo, os prisioneiros foram reduzidos à metade.
Dren encarou a lâmina na mão.
— Minha lâmina mudou de forma. Por que continua translúcida?
Os combates continuaram e logo chegou a vez de Dren outra vez.
A lâmina do oponente tinha forma perfeita.
Quando cruzavam golpes, a arma translúcida de Dren oscilava a forma ao ponto de quase ser cortada pela outra espada.
Dren deu um passo para trás desviando de um golpe, então avançou e deslizou pela lama derrubando o oponente.
Os dois caíram no chão e as armas escaparam das mãos, desaparecendo em seguida.
Dren subiu por cima dele e começou a desferir socos e cotoveladas no rosto.
O adversário revidou com mordidas, uma delas fez Dren interromper os ataques e o oponente conseguiu se soltar.
— REND BLADE!
O grito surpreendeu Dren.
A lâmina surgiu na mão do oponente, a ponta vindo na direção do seu rosto.
Dren colocou a mão na frente.
A espada atravessou a palma, rasgou a carne e parou cravada no ombro.
Dren deu um passo para trás e seu pé pisou no gancho de uma das correntes usadas para arrastar os corpos.
O oponente tentou puxar a lâmina, mas Dren fechou a mão sobre a espada.
Em seguida agarrou o gancho com a mão livre e cravou no peito do adversário.
O corpo dele se contorceu.
A espada desapareceu, soltando a mão de Dren.
Dren continuou pressionando o gancho até as pernas do oponente pararem de tremer.
O peito dele ainda subia e descia.
Dren se levantou ofegante, coberto de lama e ergueu a outra mão.
— REND BLADE.
A lâmina entrou na garganta do oponente.
Aplausos vieram dos soldados e Dren olhou para eles.
— Os malditos estão se divertindo!
Pedaços da camisa viraram curativos improvisados, mas Dren ainda sentia a lâmina no osso da mão e dores no ombro.
Restavam dezesseis vivos.
A voz do militar que havia anunciado o Balde de Lama retornou:
— Escória, conheçam Orian!
— Para saírem vivos basta acertar um golpe.
— Assim saberemos que não são completamente inúteis e ainda podem dar algum lucro a Quanterra.
Orian entrou no cercado usando uma armadura que revestia o corpo todo, com as pernas cobertas de espinhos.
— REND MACE!
Uma clava de cabo longo, com a ponta cravejada de espinhos vermelhos, surgiu em suas mãos.
Seis oponentes entraram.
Três tiveram a cabeça esmagada no primeiro movimento. Os outros não conseguiram chegar perto antes de serem destroçados.
Orian ergueu a clava na direção dos sobreviventes.
— Próximo!
— Enviem um de cada vez, também quero aproveitar!
Dren parou diante dele, olhou para o capacete e sussurrou:
— Deve ser difícil enxergar dos lados com isso.
Quando Orian deu um passo para a lateral, Dren se abaixou, pegou um punhado de lama e avançou.
Orian ergueu a clava.
Dren atirou a lama em seu rosto e correu pela lateral, se afastando do impacto direto da arma.
Orian girou a arma, mas Dren já estava quase nas suas pernas.
— REND BLADE.
A espada surgiu, dessa vez ainda mais sólida. Uma corrente translúcida agora se entrelaçava no punho.
Dren derrapou na lama e atingiu a perna de Orian. O impacto estremeceu o braço de Dren, mas causou apenas um risco na armadura.
No mesmo movimento, os espinhos da clava atingiram de raspão suas costas.
Dren se afastou ofegante, com sangue escorrendo da mão e das costas.
Orian ficou parado e depois fez um gesto para que ele saísse.
As lutas continuaram até Orian deixar o cercado.
Somente quatro restaram.
O irmão de Sorien estava entre eles.
Dren olhou para os corpos na lama.
— Eles queriam uma desculpa para o massacre.
Um deles ainda se arrastava quando uma lâmina afundou em suas costas.
Dren apertou a mão ferida e um filete de sangue escorreu do curativo.
— Eu sobrevivi.
Os olhos do bibliotecário brilharam e ele apontou para Dren.
— Venda esse aqui para a Red Maw.

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