Capítulo 8 - Tremores e temores
Os heróis realmente pretendiam ir com calma nesse início da expedição, mas a sombria realidade os confrontou sem piedade. As bestas que acabaram de lhes atacar eram só o começo.
— O que fazemos com essas coisas? — Will parecia desconfortável na presença dos cadáveres das feras.
— Como assim o que fazemos com elas? Arrastamos para longe do acampamento, é óbvio! — Luna estava perdendo a paciência com Will.
Ela estava mais do que um pouco irritada por ele ter jogado para ela a besta que o atacava para ir ajudar Viktor. Ela entendia que aquilo fora necessário devido às circunstâncias, mas a racionalidade não era algo que lhe tocava naquele momento.
— Não precisa falar desse jeito! — Will rebateu.
— E também não preciso ficar ouvindo as suas lamúrias. São apenas cadáveres, deixe-os esfriar antes de perguntar o que vamos fazer com eles!
— Acho que o que está precisando esfriar aqui é a sua cabeça!
— E talvez você esteja precisando esquentar essa sua bunda com a minha bota!
— Já chega! — Elicia, que já estava bastante cansada da batalha, teve que se pôr entre os dois para parar a discussão. — Vocês conseguem passar sequer um dia sem brigar?
A semana de preparação fora marcada por, além da melancolia e sentimento de urgência, pequenas picuinhas de Luna e Will. Ele até tentava se aproximar dela, mas ela resistia com raiva à todas as tentativas.
— Eu não tenho culpa que esse cara não saiba pensar em nada sozinho!
— Mas eu só fiz uma pergunta!
— PAREM! — Elicia realmente sabia gritar muito alto quando queria.
Viktor, que apenas assistia a cena em silêncio, tapou os ouvidos para não escutar o sermão que Elicia estava prestes a passar neles. Infelizmente, suas mãos foram de pouca utilidade contra a potência da voz dela, e ele sentiu saudade do equipamento de proteção anti-ruído que usava ao trabalhar com alguns projetos barulhentos da oficina.
…
Bons minutos depois, todos bebiam o chá de erva da lua preparado por Viktor. Ao constatar que o dano aos seus tímpanos era inevitável, ele resolvera fazer algo de útil enquanto Elicia terminava com os dois.
A erva da lua era uma planta peculiar. Nos livros era categorizada como uma espécie muito resistente, que poderia crescer em qualquer lugar e curiosamente não precisava de luz solar para se desenvolver plenamente, o que provavelmente era o motivo de ter recebido esse nome. Na verdade, podia se desenvolver “quase” plenamente, pois aparentemente ela também florescia antes da névoa cobrir o mundo.
Aquela característica de crescer sem luz era amplamente aproveitada pela Cidade do Sol, sendo a única planta que podiam cultivar sem magia. A parte do caule e das folhas era bastante nutritiva enquanto a raiz tinha propriedades medicinais, dessa forma era muito utilizada na culinária e na medicina da cidade e, além de tudo, dava um chá excelente.
— Fico feliz que tenham entendido que nosso papel não pode ser cumprido com esses desentendimentos frequentes. — Elicia exibiu um sorriso relaxado ao tomar mais um gole do chá.
Luna e Will apenas assentiram, com medo de desencadear outra bronca.
Elicia entendia que todos estavam com os nervos à flor da pele dada a situação geral e, sendo a líder do grupo, era seu papel mediar quando aquelas emoções saíam de controle.
Não era culpa deles que o mundo estivesse acabando, mas eles eram os únicos que podiam fazer algo a respeito.
— Mais chá? — Viktor ofereceu.
— Sim, por fav… — Elicia se deteve no meio da fala, arregalou os olhos e virou o rosto na direção que seus sentidos expandidos indicaram perigo. — Apague a fogueira!
Viktor agiu rapidamente jogando o manto encantado sobre o fogo, extinguindo-o imediatamente.
— Fiquem todos parados, não se movam independentemente do que acontecer, por favor, confiem em mim, não se movam!
Até mesmo os lobos pareceram entender o comando de Elicia e obedeceram, congelando onde estavam.
Um batimento cardíaco depois, todos foram capazes de sentir um leve tremor que ficava mais forte a cada momento.
Cerca de dez minutos depois, o tremor estava forte o suficiente para um ritmo poder ser distinguido, eram passos. Mais dez minutos, o tremor agora parecia uma força da natureza.
O suor frio escorria pela testa dos heróis. Will sentia que poderia infartar a qualquer momento com o ritmo no qual seu coração estava batendo.
Uma presença titânica se aproximou. Elicia podia ver sua silhueta enorme através da névoa, lembrava algum animal quadrúpede robusto que ela já vira nos livros, mas com o dobro da altura do maior prédio da cidade, e seu comprimento nem se falava. Com a tensão permeando todo seu ser, ela não pôde se lembrar naquele momento qual animal parecia.
O chá esfriava nas canecas firmemente seguradas na mesma posição desde o comando de Elicia, e com a força dos tremores da passagem da besta colossal, o líquido começou a saltar para fora.
Era extremamente difícil manter aquela posição estática por tanto tempo com o abalo dos tremores, mas eles aguentaram firme. A besta passou à algumas centenas de metros do acampamento. Os tremores começaram a diminuir gradualmente e, cerca de meia hora depois, finalmente não podiam mais ser sentidos.
Os heróis finalmente relaxaram os músculos e deixaram-se cair ao chão aliviados.
Os lobos, que tão obedientemente mantiveram-se parados, apenas relaxaram quando Elicia os comandou para tal. Eles se aproximaram do grupo no centro da clareira e cada um deitou perto do humano com o qual criara maior vínculo durante a última semana. Os pares de humano e lobo eram, sem surpresa, aqueles que viajavam juntos.
Mesmo que Elicia não tivesse comandado silêncio, o medo os calara. O único som que pode ser ouvido pelos próximos minutos foi o choro dos lobos, feras tão imponentes agora pareciam apenas filhotes à procura da proteção da mãe.
— O que diabos foi isso? — Luna tinha a voz trêmula.
— Eu… Não faço a menor ideia. — Elicia forçou a voz a sair o mais limpa possível, mas sua garganta estava quase fechada. — Parecia com um… Mamute? Mas o formato da cabeça era estranho, não pude ver com a escuridão, apenas sentir vagamente a forma…
— Você tem certeza que aquilo foi embora? — Will parecia à beira das lágrimas.
— Sim, tenho certeza.
— Eu realmente… achei que ia morrer… — Ele desabou.
— Eu também… — Luna, num raro momento, concordou com Will, declarando com uma voz diminuta que não combinava com ela.
— Nós vamos ficar bem. Já passou. — Elicia tentava acalmar seus companheiros e a si mesma com aquelas palavras enquanto acariciava a cabeça de seu lobo.
De repente, Elicia se lembrou de alguém que estava quieto demais. Ela retirou a manta que cobria a fogueira e o fogo começou a queimar novamente, iluminando a clareira. Ela então pôde ver os rostos de seus companheiros.
Luna tinha duas faixas molhadas brilhando em suas bochechas, enquanto Will… Will estava com uma aparência verdadeiramente deplorável, com ranho escorrendo de seu nariz avermelhado, bochechas encharcadas e olhos inchados.
Elicia resolveu piedosamente ignorar Will e finalmente voltou seus olhos para Viktor. Ele estava desacordado e não parecia nada bem, ainda mais pálido que o normal. Ela removeu cuidadosamente uma parte da armadura de couro dele para revelar em suas roupas uma grande mancha vermelha na região da barriga.
Elicia sentiu durante a passagem do colosso que os tremores mais fortes pareciam afetar seu corpo de alguma forma, como se ela estivesse vibrando por dentro mais do que deveria. Aquilo devia ter abalado ainda mais Viktor, que já estava ferido, e agora fazia mais de meia hora que aquela frequência de tremores os atingira.
— Will!
Ele pôs-se de prontidão ao chamado e, ao entender a situação, começou imediatamente a trabalhar.
Elicia estava cheia de temor. Ela se culpava por ter demorado tanto para perceber e temia por seu amigo. Quando recebeu a confirmação de que ele estava fora de perigo novamente, ela parou de temer pelo presente, aquele presente impiedoso que não lhes permitia descansar.
Para onde aquele presente estava levando-os, ela não sabia, e pensando nos amanhãs de lutas intermináveis, ela temeu pelo futuro.

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