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10. SOMBRA DURA
Três semanas se passaram desde aquele fim de tarde em que o mundo pareceu parar em uma calçada gelada. Desde aquele contato elétrico no ombro, aquele cheiro de café misturado ao frio e aquela sensação avassaladora de que algo, finalmente, havia quebrado na armadura de Gabriel.
No dia seguinte ao sorriso capturado, Gabriel chegou ao estúdio mais sério do que de costume, se é que isso era humanamente possível. Ele usava óculos de grau de armação escura que ninguém conhecia, um disfarce óbvio para quem não queria ser lido. Ainda assim, Luna, com seu olhar treinado, conseguiu perceber as bolsas escuras e o leve inchaço abaixo dos olhos dele. Ele chorou?, ela se perguntou, sentindo um aperto no peito, mas logo afastou o pensamento. Gabriel não lhe dava espaço para perguntas, muito menos para consolos.
O dia se estendeu vagaroso, pesado como uma cortina de veludo úmida. Dúvidas técnicas que poderiam ser facilmente sanadas por Luna, Gabriel levava ao chefe. Ele atravessava a sala para falar com Daniel, ignorando a presença dela como se Luna fosse feita de vidro. Daniel percebia tudo; via a expectativa brilhando nos olhos da fotógrafa ser tomada por uma leve frustração a cada vez que Gabriel lhe dava as costas. Aquele clima era desconcertante para todos. Daniel os vira na calçada através da janela do carro; vira o toque quase íntimo e a proteção de Gabriel. O currículo dizia solteiro, Daniel pensava enquanto observava o novo editor, será que ele é mesmo? Ou será que o estado civil é apenas uma formalidade?
Vinte e um dias de silêncios constrangedores. Tentativas falhas de puxar assunto que morriam antes mesmo de cruzarem a mesa. Mandíbulas travadas em uma rigidez que parecia causar dor física. E, praticamente, nenhum contato visual. A dinâmica do estúdio seguia igual para os outros: conversas sobre ensaios, risadas de Marina e a trilha sonora constante. Mas Gabriel, desde que chegara, parecia ter se fundido à mobília. Tornara-se um móvel indiscutivelmente eficiente, silencioso e sombrio.
Somente respostas monossilábicas saíam de sua boca, como se cada palavra tivesse um custo alto demais para ser paga. Até mesmo quando Daniel tentava integrá-lo, recebia respostas educadas, contudo, completamente formais e blindadas. Para Luna, Gabriel simplesmente não olhava por nada no mundo. Era como se ela fosse o sol e ele, temendo ficar cego ou se queimar, preferisse viver em um eclipse eterno.
Luna sentia-se em um labirinto de confusão. Aquilo foi tão grave assim? Sorrir era tão errado assim? A curiosidade, alimentada pela distância, tornava-se cada vez maior, uma criatura faminta dentro dela. A vontade de olhar naqueles olhos profundos e tristes causava um leve aperto no coração, um misto de desejo e compaixão. Ela queria entender a mecânica daquela dor, mas não ousava insistir. Desde sempre, o medo do abandono por ser considerada “intensa demais” falava mais alto do que qualquer vontade de desvendar mistérios alheios.
Hoje, no entanto, o sol de Curitiba decidiu brilhar mais forte, embora sem calor. Luna abriu sua playlist e os acordes icônicos de House of The Rising Sun inundaram o espaço. O café em sua caneca favorita esta delicioso, o aroma subindo em espirais perfeitas. O dia agradavelmente congelante, um convite para a introspecção. O sol que entra pela janela — que ela mantem teimosamente aberta — é insuficiente para aquecer o ambiente, mas o bastante para iluminar a sala com aquela luz oblíqua e dourada que só as manhãs de outono conseguem produzir.
Ela pega a câmera, movida pelo instinto, e começa a registrar os pequenos milagres matinais: a dança da fumaça do café, o suor delicado nos vidros das janelas, uma curicaca pernuda que pousara no muro dos fundos, emoldurada perfeitamente pela esquadria de madeira.
— Que dia lindo! — exclamou ela para o nada, ou para quem quisesse ouvir.
— Lindo e frio. Feche essa janela, Luna — Daniel pediu, esfregando as mãos e soltando um suspiro que virava vapor. Ele estava, no fundo, satisfeito por perceber que a indiferença de Gabriel não fora capaz de apagar a essência vibrante de sua fotógrafa.
— O ar gelado faz bem para os pulmões, Chefe! Eu amo o frio. Me deixe ser feliz mais um pouquinho, depois eu fecho — ela brinca, aproximando-se dele e apertando ligeiramente seus braços em um gesto de carinho.
Gabriel observava tudo de soslaio, escondido atrás do brilho do monitor. Já não usa mais os óculos; as lentes de contato haviam voltado há dias, mas seus olhos continuam protegidos por uma barreira invisível. The Animals era uma de suas bandas favoritas, e mais uma vez ele teve que admitir, em silêncio, que ela demonstrava um gosto musical impecável.
Durante todos esses dias, ele manteve uma distância calculada, quase matemática. Aquele contato na calçada fora perigoso; aflorara nele sentimentos que precisavam continuar escondidos, soterrados sob camadas de esquecimento. Ele não queria sentir nada que não fosse técnico, frio e seguro. Mas, nesta manhã, Luna trouxera consigo uma energia que parecia impossível de ignorar. Ele sente uma necessidade física, quase urgente, de olhar para ela. De degustar aquele sorriso que ele sabia que estava ali, logo ao lado. Mas continuou focado, os dedos movendo o mouse com uma precisão gélida.
— Luuna… Gabrieel… — Bianca entra na sala cantarolando, assoprando as unhas pintadas de um vermelho fatal. — Preciso de um favorzinho de vocês dois.
Luna olha de canto para a ruiva, que parece ter saído de uma capa de revista mesmo às nove da manhã.
— O que é desta vez, Bi? — Luna pergunta, já prevendo o trabalho manual.
— Preciso de ajuda para reorganizar os módulos de MDF para o próximo ensaio. E a Marina está ocupada passando os vestidos de seda…
— Com “ajuda”, você quer dizer “façam todo o esforço físico para mim”, não é?
— Luna, querida, minhas unhas ainda estão úmidas. Não seja insensível — Bianca rebate com um sorriso cínico.
Luna revira os olhos, mas levanta-se e segue para o estúdio de fotos sem olhar para trás, sem conferir se Gabriel a acompanhava. Ele, após um segundo de hesitação, coloca-se de pé em silêncio e vai atrás, mantendo os passos rítmicos sobre o assoalho.
— Coloca aquele módulo grandão ali embaixo, mas em cima daqueles dois menores. Preciso que o cenário fique bem alto para dar perspectiva. Depois, aquele comprido na vertical, encostado ao lado deste — Bianca instruí, agindo como uma diretora de cena mandona.
Como dois estranhos que dividem um elevador, Luna e Gabriel pegam cada um um bloco. Alinham os suportes sem trocar uma única palavra. Erguem juntos o grande bloco retangular de madeira e o depositam sobre os apoios. O peso exige coordenação, e por um instante, eles tiveram que respirar no mesmo ritmo.
— Isso! Agora, antes de colocar o último, preciso que vocês prendam aquele tecido de seda roxo na parede de trás. Bem esticado, com as pontas rentes ao teto — Bianca avisa, checando o celular. — Eu juro, é só isso e eu deixo vocês em paz.
Gabriel permanece calado. Abre o grande pano de seda, que reluzia sob as lâmpadas de estúdio, e alcança uma das pontas para Luna. Ela sobe em uma pequena escada de três degraus para alcançar a altura necessária. Gabriel foi para o outro lado, esticando o tecido com seus braços longos, e prendeu a seda com facilidade.
Luna tenta prender o seu lado, mas a madeira do painel é mais dura do que o esperado. E ela não possuí força suficiente no polegar para furar a superfície com a tachinha metálica. Tenta uma, duas vezes, sentindo o rosto esquentar de frustração.
De repente, a presença dele muda de lugar. Gabriel se aproxima. Estica o braço, passando quase por cima do ombro dela, e segura a ponta do tecido que estava escorregando. O cheiro de Gabriel — aquele mix de sabão e pele fria — invade as narinas de Luna instantaneamente. Seu coração dá um pulinho desajeitado contra as costelas.
Ela estende a tachinha, os dedos de Gabriel roçaram a pele da mão dela. Foi um toque breve, mas os pelos do braço de Luna se arrepiaram na mesma hora. Ela foca no tecido roxo diante de si, tentando desesperadamente lembrar como se respirava.
A mão dele era forte, as veias levemente saltadas pelo esforço de esticar o pano. Ele ajustou a seda com uma precisão obsessiva para que ficasse perfeitamente alinhada. Foi então que Luna viu. Seus olhos captaram o detalhe. Gabriel usava a mão esquerda para tencionar o pano contra a parede e, na base do seu dedo anelar, existia uma marca.
Era um círculo de pele esbranquiçada, um sulco leve mas persistente, onde o sol e o tempo não haviam tocado por anos.
O cérebro de Luna demorou um segundo para processar a informação, mas o impacto foi como uma colisão frontal. Sua boca se abriu e fechou sem emitir som. Ela buscou os olhos dele em um reflexo instintivo, e Gabriel, percebendo o silêncio súbito e o olhar fixo dela, percebeu que fora descoberto. Ele viu o exato momento em que ela leu a história no seu dedo vazio.
Como se um raio o tivesse atingido, Gabriel recuou bruscamente, quase tropeçando. Ele avistou o último módulo de MDF, colocou-o de pé com uma habilidade violenta e o depositou no lugar com um estrondo que ecoou por todo o casarão. Sem dizer uma única palavra, sem olhar para trás, ele virou as costas e saiu da sala a passos largos.
Bianca, que estava distraída com as unhas, percebeu que a atmosfera havia mudado bruscamente. Ela olhou para Luna, que continuava parada no topo da escada, absorta, encarando a porta por onde ele acabara de sumir.
— O que deu nele agora? — Bianca perguntou, confusa.
Luna não respondeu. Na sua mente, a imagem daquele sulco no dedo de Gabriel se repetia como um loop infinito. A marca de uma aliança. Uma aliança usada por tempo suficiente para causar uma marca na pele… e uma cicatriz na alma. Não era apenas uma lembrança; Luna conseguia sentir que aquilo ainda era uma ferida aberta, pulsante. Ela agora entendia o sinal, o motivo do isolamento e da sombra dura que ele carregava.
Ela entendia o “porquê”, mas ainda não compreendia a “história”. E, por enquanto, sentindo o peso daquela revelação, Luna decidiu que não estava disposta a questionar. Tinha medo do que encontraria se escavasse demais.
Ainda não.

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