Capítulo 67: Siga o caminho da garoa (2)
“O caminho das mazelas é como uma garoa que se torna tempestade quando finge parar de chover.”
Izandi, a Oniromante

“A mansão Cyreck deve ser perto daqui!”
Perguntou para uma e outra pessoa para se guiar, mas no fim das contas não precisou perguntar muito para reparar em qual mansão era mais semelhante a um castelo — e estava vestida de preto. O coração de Bert se amargou ao ver as várias bandeiras pretas que cobriam as janelas e porta-bandeiras da mansão longa. A construção era de uma beleza antiga e impecável, mas as cores do luto escondiam qualquer beleza a ser admirada.
— Preciso falar com seu sire — ele falou aos cavaleiros no portão. Eram um par de homens em armaduras de aço, com espadas longas embainhadas, com glaive em mãos e elmos com arabescos de leão e alce.
— Sire não esta disponível para você, plebeu — afirmou um, com voz terna e prantosa, mas séria. — Está de luto e não deseja reuniões com ninguém fora da família.
— Não sou plebeu algum! — bradou ele, cerrando os dentes. Noutro segundo, respirou, acalmou-se e tirou do pescoço o colar com o anel de sinete da guarda-real e mostrou. — Sou Cei Bert Zwaarkind, filho postiço do barão Ereken Zwaarkind e mestre da guarda-real de Vossa Majestade!
Um dos guardas se pôs à frente e puxou o colar mais para perto.
— Desgraçado, roubou isso onde?
— Não é roubado! — grasnou.
— Se mentir mais uma vez, vai rezar pra ter nascido amputado!
Bert se enfureceu. Seu coração explodiu e ahvit cobriu sua testa. O cavaleiro mal pôde reagir quando uma cabeçada o atingiu. O impacto da testa do rapaz contra a placa de metal do elmo ressoou alto como um sino. O rapaz sentiu um corte pelo olho esquerdo, mas acertou um punho de esquerda no queixo do armadurado e tomou o colar. No outro segundo, o segundo cavaleiro avançou verticalmente com sua glaive. “Pouco importa”, pensou o mais jovem. Deu um longo passo para frente, inclinado, e escapou da lâmina pesada. A haste de madeira bateu entre seu ombro e pescoço, mas aproveitou para prender ela ali.
Então girou o quadril e acertou uma cotovelada no plexo solar do cavaleiro. Bert sentiu mais que ele. A força do impacto foi tanta que o cavaleiro deu para trás e o braço do atacante subiu. Mas em batalhas de instantes, onde experiência em improvisos era mais útil do que qualquer outra, Bert preencheu seu cotovelo com ainda mais ahvit e o desceu, acertando o meio do peito. E no que seu cotovelo desceu, ele subiu com um soco ascendente.
Antes mesmo que caísse, Bert começou a correr desesperadamente. “Agora já era. Dane-se!”
— Sou um cavaleiro, droga! — grasnou. Entrou na mansão por uma janela no segundo andar, escalando rapidamente uma árvore. — Onde que tá o filho desse…
Era um quarto fechado, coberto de vermelho.
As portas estavam fechadas, notou ele. Havia uma grande cama de casal, coberta por um enxoval lilás de sedas e tecidos estrangeiros, caros. Estantes estavam enfileiradas nas paredes, contendo várias garrafas de vinho. Na parede oposta, baús abertos com roupas caras. Um criado-mudo próximo da cama possuía um jarro de água fresca. As portas, fechadas, com lençóis no vão debaixo.
E um cheiro de sangue miserável. Sangue cobria a cama e seu lindo enxoval, respingava pelas garrafas e escorria da carcaça ajoelhada de uma mulher em prece, com sua criança em mãos. Mas outra mulher estava lá. E quando ela retirou a mão da boca da mulher ajoelhada, sangue escorreu pela mandíbula e barriga rasgadas por uma lâmina invisível. Suas tripas, pulmões e outros órgãos escorreram como vômito de um bebum. Bert cerrou os dentes e sacou Dente de Hiena e sentiu o sangue gelar quando a nua olhou para ele com olhos predatórios. Seu coração martelava contra suas costas e o sangue gelava e fervia.
— Não gosto de intrometidos — ela riu, ficando de frente para Bert. O sorriso era lindo, os cabelos brancos eram longos e sedosos, e corpo nu seria de dar inveja em damas da mais alta nobreza com aqueles seios pequenos e firmes, que subiam e deciam com sua respiração calma e dócil. Se não fosse pela cicatriz horrenda de queimadura, que ia pelve ao peito, filas de homens a pediriam em casamento. No entanto, seus olhos albinos cravaram-se em Bert, de modo que formigas carnívoras começaram a devorar sua nuca e suas mãos tremerem. — Olá — disse.
Então, o fio frio se traçou na garganta. Bert sentiu a lâmina de vidro abrir seu pescoço e atravessar seu cérebro.
E invés disso, a mulher não saiu do lugar. O homem sentiu um alívio mortal, como se uma montanha tivesse saído de suas costas, e então, a mulher atravessou sua lâmina de vidro no peito do bebê.
“Minha vida não poderia ficar melhor, porra!”
— Agora, meu serviço está concluído — ela disse. Bert ergueu Dente de Hiena, no que a mulher balançou sua lâmina para escorrer o sangue.
Ele cerrou os dentes com força para estralarem.
— E agora você morre, puta — ele disse. Suas mãos tremia e suas costas estavam encharcadas.
O rosto da mulher se contorceu numa fúria infantil, quase adorável.
— Isto é jeito de tratar uma mulher? — pôs a mão live na cintura.
— Nenhuma reclamou até agora. — “Tudo se alinha para agora!”
— Ah, você deve ser muito galante — lambeu os beiços. — O desejo de toda moçoila.
— É o que elas dizem.
Ela cobriu a boca com as mãos livres. Era baixa, com pouco mais que um metro e cinquenta. Do jeito que falava, meiga como mel, era quase fofa.
— Você realmente acha que pode comigo? — Ergueu a lâmina invisível. Bert só conseguia ver um braço magro segurando um monte de nada.
— Eu já ouvi essa frase mais vezes do que acreditaria, moçoila — ele riu. “Não sei onde a espada acaba…”
Seu coração parecia a beira de explodir. Suas mãos mal seguravam Dente de Hiena direito.
A mulher, porém, riu. Seu gargalhar conseguia ser tão doce quanto o sorriso.
— Adoraria resolver isso na cama, mas — apontou a espada para a cama ensanguentada —, essa já foi usada. Teremos que fazer no aço.
Bert mordeu os dentes e bateu no peito.
— Você não faz ideia do quanto eu queria ouvir isso!
A mulher fez um gesto coquete com a boca, e Bert disparou com sua espada. No entanto, ela foi mais ágil: girou um golpe horizontal. Bert teve que girar parte do corpo, fazendo da estocada uma defesa lateral. O choque das espadas fez o braço de Bert tremer e suas mãos doerem. Mas ela não parou. Puxou sua espada para trás e chutou. Bert chutou também, com a perna esquerda. Mas a nua deu um salto felino para trás. Bert atacou sem esperar. A mulher teve de apoiar a mão no chão para bloquear o golpe vertical.
No entanto, o chão para ela era liso como sabão. Aproveitou-se da força de Bert para deslizar, seus pés levantando sangue como ondas na praia.
— Quem é você?! — bradou ele, arfando e aproveitando para planejar. — Por que matou os filhos e esposa do lorde Cyreck?!
— Matei-o também, ora — riu ela, pondo-se de pé e erguendo a espada invisível rente ao rosto. — Meus trabalhos ficam completos, sempre.
— Também foi você quem matou o ministro? — “Um Mestre é realmente um diabo e tanto!”
Ela sorriu ainda mais.
— Será? — disse baixinho, tímida e meiga. — Gostei de você! — gargalhou. — Me lembra de alguém que amo muito!
— Espero que veja ele do outro lado, então. — “Ela tem a força de um homem, mas minha técnica não falha.”
— Haha! — riu. — Mas não morrerei hoje!
E desta vez, ela quem disparou. Bert sentiu seu sangue gelar e saltou para trás, sentindo a lâmina de vidro raspar no seu abdômen, com um silvo quase inexistente. “Um metro!” Ela golpeou de novo, mas desta vez, Bert deu somente meio passo para trás, sem se defender, e a mulher abriu um sorriso de surpresa.
— Você consegue me ler nessa situação?! — e avançou. Bert saltou por cima duma mesa e chutou-a contra a mulher.
Sua lâmina invisível partiu a pesa em duas, mas uma garrafa de vinho atingiu seu rosto. Mas a sorte estava contra Bert: o líquido atingiu seu rosto, mas da garrafa ela esquivou. Um grito adorável fugiu da garganta dela enquanto o alcool árdia seus olhos. Ele aproveitou e atacou com um golpe diagonal.
E a mulher sorriu. inclinou seu tronco para trás com graça felina, e numa posição quase impossível, furou a coxa esquerda de Bert. Ele grasnou pela dor lancinante, mas agarrou o pescoço da assassina com as mãos. Ele pressionou o pescoço frágil com todas as suas forças.
— Mais forte! — riu ela, e o chutou na virilha. Bert gritou e a soltou, para então ver uma luz, uma nuvem prateada tingir o punho dela, e então, tomar um golpe na orelha.
Um zunido cortou toda sua concentração, e ele só conseguia sentir o frio do chute nos filhos e o mundo se dividir em várias partes. De repente, haviam várias assassinas, dançando em imagens turvas e embaçadas.
— Agora entendi, agora entendi! — disse ela. — Irmão! Papai ficará muito feliz de saber que você está bem! Papai ficará muito alegre em saber que Ravel cresceu como um homenzinho completo!
“Irmão?”, ele pensou, tentando se erguer.
A cor prateada brilhou dentro da sua pele, e então, ela girou seu corpo e o acertou com um chute no peito. A dor o deixara mudo e surdo. Não ouviu suas costelas estralarem, nem suas costas baterem e destruírem estantes; mal sentiu quando as garrafas de vinho caíram e quebraram nele, o ferindo com vidro e o queimando. Mas ainda conseguia ver, arfando, oscilando entre estar acordado e não, quando a assassina beijou sua bochecha. Viu quando ela o abraçou e afagou seus cabelos hirsutos. Não viu quando ela sumiu.
— Pela autoridade concedida a mim, o id Baene, você está preso pelo assassinato de Johan Cyrek!
“O Lobo Branco está aqui.”

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