Capítulo 35: Vivendo um sonho
Dentro do apartamento aconchegante, o espaço confortável estava estranhamente agitado. O barulho de risadas e brincadeiras preenchia o ar de alegria. Era uma contraparte engraçada com o cheiro característico de hospital.
O apartamento era relativamente grande considerando que moravam no meio de uma cidade populosa. Cinco cômodos: dois quartos, um banheiro, cozinha, e o maior cômodo da casa, onde seria um hall ou sala que interligava aos outros, fora transformado em uma enfermaria.
Tinha brinquedos espalhados pelo chão, livros infantis abertos, deixados nas beiras de várias macas hospitalares.
O envelhecido papel de parede azul piscina se estende por todo o apartamento. Dando um toque de serenidade e paz bem necessário ao local.
— Chegamos! — disse Heloísa, colocando as sacolas de compras na mesa de jantar.
“Quando foi que…”
Uma criança se esgueirou, colocando os olhos no canto da porta para ver quem havia entrado.
— Yaci?
Quando ela disse isso, todos se viraram e correram em direção a porta. Pelo menos as que podiam correr.
Iara caminhou devagar, tomando cuidado para não abrir uma ferida enfaixada no abdômen, com uma muleta debaixo do braço.
João foi o primeiro a chegar, com a cabeça enfaixada até onde deveria haver uma orelha.
Ele deu um abraço nela, surpreso por ela estar mais alta que ele.
— Você cresceu!
Aos poucos, eles se juntaram ao abraço.
— Como você cresceu… até usa joias agora! Ficou com tanta saudade que começou a me copiar?
Ela colocou a mão livre no rosto de Yaci, acariciando sua bochecha com o polegar, da mesma forma que fazia quando Yaci não conseguia dormir quando pequena.
Ela retribuiu o abraço, com delicadeza e cuidado para não machucar ainda mais seus irmãos já fragilizados.
— Te copiar? Ainda não cheguei nesse desespero, mas dependendo da utilidade, principalmente se forem iguais a essas, mais joias não vão fazer mal.
— Mas você vai usar todas de uma vez?! Vai se vestir igual àqueles cantores estranhos que o João gosta?
— Se forem tão úteis quanto os meus, por que não?
A imagem de Yaci com inúmeros cordões, correntes e anéis foi o suficiente para tirar uma gargalhada boa de todos eles.
Depois das brincadeiras e piadas, tirou tempo também para falar com cada um, vendo seus estados e ferimentos.
Quando a animação de ver a irmã passou eles foram receber Benjamin.
— Cadê o Rafa?
Todos olharam para Vovó Heloísa, pedindo permissão para algo.
— Vamos. Marco, pode adiantar a comida enquanto vemos o Rafael?
Ele acenou e sem titubear, começou a cortar legumes e vegetais como um chef.
Yaci só acompanhou, as sobrancelhas franzidas, suando frio na nuca, se questionando o que havia acontecido.
No final do corredor, com várias agulhas e tubos ligados a ele, estava Rafael, deitado pacificamente em uma maca. Diversas bolsas cheias de líquido gotejavam até os acessos em suas veias.
Yaci se aproximou vagarosamente, como se cada passo pudesse ferir mais o jovem rapaz.
Seu pescoço estava enfaixado, e pequenas manchas de sangue haviam coagulado nas bandagens brancas.
Heloísa passou por ela sem ressalvas, seus movimentos certeiros e graciosos carregavam anos de experiência.
— Não parece, mas ele teve sorte, sabia?
Na parte de baixo da cama, rodou com força alavancas que aos poucos ergueram a parte superior da cama, junto do torso do rapaz.
— No estado que está, abaixamos a sedação algumas vezes ao dia para checarmos o estado dele, e tentarmos alimentá-lo, mesmo que seja uma sopa. A vovó disse que ele poderia parar completamente com a sedação em alguns dias. Ele está se recuperando bem. — Benjamin explicou.
Se aproximando deles, ele apoiou a mão no ombro de Yaci.
— Vai dar tudo certo. O pior já passou, só precisamos esperar um pouco mais.
Os cortes, os ossos quebrados, alguns perderam até pedaços inteiros de si. Por um instante ficou com punhos cerrados até ficarem brancos e olhos trêmulos sem crer.
O sangue ferveu, mas o ódio saiu junto de um suspiro demorado. Naquele momento, precisava confortá-los, não confrontá-los.
— O que houve com vocês? — disse Yaci acariciando a cabeça de João, que estava ao seu lado.
O menino era um ano mais velho que Yaci, mas também uma cabeça mais baixo. Mesmo vivos e exibindo sorrisos, o brilho em seus olhos já tinha diminuído, em alguns, até mesmo apagado.
Iara, em especial, estava diferente, como se algo tivesse sido tirado de sua alma pela ferida em sua barriga.
Quem não havia perdido uma parte do corpo, perdeu uma parte de si.
Lembrou do Professor por um instante. Eles passaram por tanta coisa, tanta coisa quanto ela. Mas não tiveram seus estalos. Não despertaram. Por que será? O pensamento foi continuando como uma corda, sendo puxada devagar, revelando mais e mais da sua extensão complexa, a trazendo mais memórias e perguntas.
— …
— Yaci!
Em seu chamado ela soltou a corda, perdendo seu começo na escuridão de tantos outros pensamentos.
— Estamos te chamando há um tempo! Você parecia paralisada… eu sei que não parece, mas estamos bem, você não precisa se preocupar. Vai ficar tudo bem. — Iara a acalmou
— Verdade, desculpe, é só que tudo parece tão diferente, e vocês… tão machucados, essa sensação de estranheza. No fim eu só preciso agradecer por estar com vocês de novo.
Mais uma vez, uma voz puxou sua atenção, na verdade, a atenção de todos. Marco os chamava para jantar, e com muita animação todas as crianças foram. Preencheram uma mesa enorme, Heloísa veio logo atrás, trazendo consigo Rafael em uma cadeira de rodas, os acessos e maquinário necessário vinham ao seu lado.
Ele estava meio acordado e mesmo sem voz, seus olhos brilharam quando viram Yaci.
— Acho que podemos tentar acompanhar seus irmãos nesse jantar, não acha rapazinho?
Ele concordou com movimentos pequenos e fracos, mas concordou com clareza.
Organizaram a mesa de madeira, que mesmo grande, ficou apertada com a quantidade de cadeiras.
Comidas deliciosas do farto banquete foram sendo colocadas pouco a pouco sobre a toalha de mesa.
Junto com Vovó Heloísa e Marco, todos os irmãos estavam ali. Todos os seis, ou melhor, sete, contando com Yaci. Sentados em uma mesa, bem vestidos e alimentados, comendo comidas deliciosas em um farto banquete. Eles estavam rindo, conversando, sorrindo.
De fato, um sonho se tornando realidade. Tudo que a menina sempre sonhou estava ali, da forma mais pura possível.
A maldade e crueldade que vivera parecia uma lembrança distante, triste, o tipo que é melhor ser esquecida. Sim, era melhor esquecer esse tipo de coisa.
No meio de tanta felicidade, por que dar atenção a coisas tão inconvenientes?
Ali na mesa de jantar, o momento era tão perfeito, que ela escolheu mais uma vez ignorar a grande e sinuosa cadeira no final da mesa. Estavam esperando alguém?
“Dane-se, bem feito por se atrasar. É ele que tá perdendo, esse momento podia nunca acabar”

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