Índice de Capítulo

    A última era diferente.

    Maelis sentiu antes de tocar.

    Não havia peso de batalha nela. Não havia solidão adulta, nem dragão, nem floresta destruída.

    Era pequena, mas cheia de uma emoção que ela não esperava encontra ali.

    Medo.

    O orfanato cheirava a madeira úmida e comida fria.

    Paredes de pedra clara, janelas estreitas com grades de ferro, o som distante de crianças em algum cômodo que ela não conseguia ver.

    Ian estava sentado num banco de madeira no corredor.

    Pequeno.

    Sete, talvez oito anos.

    Os cotovelos nos joelhos, o olhar fixo no chão de pedra como se estivesse tentando fazer um buraco nele só com a força da vontade.

    O homem sentado ao lado dele era mais velho.

    Bem vestido para aquele lugar.

    Não de forma ostensiva, sem joias, sem tecidos caros, mas com o tipo de cuidado que vinha de hábito e não de demonstração.

    Cabelos escuros com fios brancos nas têmporas.

    Postura ereta mas não rígida.

    Ele não estava olhando para Ian.

    Estava olhando para o mesmo chão que Ian olhava.

    Como se tivesse decidido que era ali que a conversa ia acontecer.

    Ficaram em silêncio por um tempo.

    O homem falou primeiro.

    — Você está aqui há quanto tempo?

    Ian não respondeu de imediato.

    — Um ano.

    — E o seu irmão?

    O ombro de Ian enrijeceu.

    Movimento pequeno, quase invisível.

    Mas estava lá.

    — Foi para outro orfanato.

    O homem assentiu devagar.

    — Você sabe onde?

    — Não.

    Uma pausa.

    — Eles não falam.

    O homem ficou em silêncio por um momento.

    Depois tirou algo do bolso.

    Um pedaço de papel dobrado.

    Pousou no banco entre os dois sem fazer cerimônia.

    Ian olhou para o papel.

    Não tocou.

    — O que é isso?

    — O nome da família.

    Ian virou o rosto devagar.

    Pela primeira vez desde que a memória havia começado, olhou diretamente para o homem.

    Os olhos eram castanhos.

    Mas havia algo neles que Maelis reconheceu mesmo naquela versão pequena e enrijecida.

    A mesma avaliação.

    O mesmo cálculo rápido tentando descobrir o que havia de errado na oferta antes de aceitar qualquer coisa.

    — Por quê você tem isso?

    — Porque pedi.

    — Para quê?

    O homem virou o corpo levemente na direção de Ian.

    Não inteiro.

    O suficiente para que ficasse claro que a resposta era séria.

    — Ouvi falar de você — disse ele. — Que você recusou três famílias no último mês.

    Ian não respondeu.

    — Que você disse para a última que ia embora assim que seu irmão voltasse buscar você.

    Silêncio.

    — Ele vai voltar — disse Ian.

    A voz era plana.

    Do tipo que vem de uma criança que já repetiu aquela frase vezes suficientes para parar de acreditar enquanto a diz.

    — Eu não acho que ele vá voltar. Não porque ele não quer.

    O homem voltou a olhar par frente.

    — Porque ele não sabe onde você está.

    Ian ficou olhando para ele.

    — Quando separam irmãos assim, principalmente para uma dupla que foi rotulada como “problematica”, geralmente mandam o mais problemático par longe, e no caso foi o fujão do seu irmão.

    Uma pausa.

    O silêncio que se seguiu foi diferente.

    Ian olhou para o papel no banco.

    Não tocou ainda.

    — E você quer?

    O homem ficou quieto por um segundo.

    Como se a pergunta tivesse chegado antes do que esperava.

    Depois, algo no canto da boca.

    Não era sorriso exatamente.

    Era reconhecimento.

    — Nada ainda.

    Ian esperou.

    — Mas vou te propor algo.

    Ele se inclinou levemente para frente, os cotovelos nos joelhos, espelhando sem perceber a postura que Ian havia abandonado quando o homem chegou.

    — Você vem comigo—

    A memória cortou.

    Abrupta.

    Como página arrancada antes do fim da frase.

    Maelis ficou no espaço vazio onde a corrente havia estado.

    Com a sensação de ter segurado algo que desapareceu antes que ela pudesse fechar a mão completamente.

    Ficou parada.

    O corredor do orfanato ainda estava nos olhos dela.

    O papel dobrado no banco.

    Os olhos castanhos do menino calculando o custo de uma oferta antes de ouvir o fim dela.

    Quem te ensinou a não confiar antes de entender o que estavam pedindo?

    A resposta estava no banco de madeira de um orfanato há anos demais atrás.

    O espaço ao redor dela tremeu.

    As correntes restantes começaram a fechar.

    Maelis recuou instintivamente enquanto o labirinto de memórias perdia estrutura, as camadas colapsando de fora para dentro, o frio que havia sustentado tudo começando a dissipar.

    Só a mana dela.

    E a dele.


    O escritório voltou de uma vez.

    Maelis piscou contra a luz dos cristais nas paredes.

    A cadeira sob ela.

    A mesa.

    A janela com a cidade lá fora, normal, indiferente.

    Ian estava de pé ao lado dela.

    Ela olhou para ele.

    Para os ombros.

    Para a linha da mandíbula.

    Para os olhos que brilhavam em azul constante, e agora ela entendia o custo, a mana que não parava.

    Ele estava olhando para a janela. parecia seguir algo com s olhos.

    Processando.

    Ela ficou olhando para o perfil dele por um segundo sem dizer nada.

    Depois virou para a janela também.

    A mana do Andarilho havia desaparecido.

    O silêncio durou alguns segundos.

    Ian respirou fundo.

    Puxou uma cadeira.

    Sentou na frente dela.

    Os cotovelos nos joelhos.

    O olhar direto.

    — Preciso me desculpar.

    Maelis piscou.

    Não era o que havia esperado.

    — Você me usou como isca? — ela disse.

    Não era pergunta.

    — Sim.

    Ele não desviou.

    — O plano original era Lysvallis atrair esse mago.

    Algo se moveu no peito dela.

    — E o que mudou?

    — O baile.

    Ian ficou em silêncio por um segundo.

    Como se estivesse pesando cada palavra antes de soltar.

    — A sua aproximação foi natural demais. Arriscar Lys numa operação assim ou uma estranha… —

    Ele parou.

    — Parecia a melhor opção.

    Maelis ficou olhando para ele.

    Tentou ficar com raiva.

    Ela estava lá em algum lugar, ela sabia que estava.

    Mas havia uma criança num banco de madeira olhando para um papel dobrado que ela não conseguia desfazer dos olhos.

    Ele fez um cálculo.

    Sacrificar uma desconhecida antes de uma conhecida.

    Exatamente o que eu teria feito.

    — Você é irritante — disse ela por fim.

    — …

    — Não consigo nem ficar com raiva de você direito.

    — Me desculpa.

    Ela soltou ar pelo nariz.

    — Como você prendeu ele?

    Ian olhou para o pulso dela.

    Para a pulseira.

    — O artefato permite entrada de mana e consciência externa.

    Uma pausa.

    — Não permite saída.

    Maelis olhou para o bracelete.

    Para as runas que ela havia examinado quando ele havia dado, tentando decodificar a função e conseguindo só parcialmente.

    — Você sabia que ele ia me atacar.

    — Sabia.

    — E fez o artefato antes.

    — Sim.

    Ela ficou olhando para ele por um momento.

    — Os cafés… foi tudo para convencer o mago.

    Ian não respondeu de imediato.

    — Parte era atuação.

    Maelis abriu a boca.

    Mas a porta do escritório explodiu para dentro, enviando estilhaço de madeira e ferro para todos os lados em um estrondo seco.

    Maelis não teve tempo de processar o tamanho do homem antes de sentir a onda de Ordo que varreu o cômodo inteiro, densa, sufocante.

    Ian já estava de pé.

    O punho de Danurem cortou o ar onde a cabeça dele havia estado.

    A bancada atrás estilhaçou com o impacto.

    Ian não estava mais lá.

    Estava ao lado dela.

    A mana ao redor dele pulsou de forma irregular, fraca, o brilho azul dos olhos mais opaco que o normal, a respiração mais curta do que deveria ser para alguém que ainda não havia feito nada.

    Danurem se reposicionou abrindo um sorriso sinistro.

    Sem hesitação no olhar.

    Sem surpresa de ter errado.

    Como alguém que havia calculado que ia errar o primeiro.

    Ian olhou para a janela.

    Olhou para ela.

    Não havia pergunta no olhar.

    Só decisão.

    O braço dele fechou ao redor dela antes que ela entendesse completamente o que estava acontecendo, e então havia vento, e o parapeito da janela passando rápido demais, e o chão três andares abaixo chegando em velocidade que o estômago dela recusou completamente.

    O impacto veio.

    Ian absorveu com os dois pés e um joelho, a respiração saindo num golpe curto e involuntário, a mana ao redor dele pulsando de forma irregular por um segundo antes de se recompor.

    Ela se soltou do braço dele.

    Se endireitou.

    Olhou para cima, para a janela, para Danurem já na beirada avaliando o ângulo.

    — HA HA HA, finalmente vamos lutar sem cortesia Ian. — A voz de Danurem ressoou pela torre.

    Maelis olhou para a rua.

    Para os uniformes.

    Para os símbolos de contenção nas armaduras.

    Para os cristais nos punhos e nos peitorais que ela reconhecia de relatos mas nunca havia visto em formação real.

    Contou.

    Parou de contar.

    — Ian.

    — Eu estou vendo.

    A voz dele saiu mais baixa que o normal.

    A respiração ainda mais curta do que deveria ser.

    Ela olhou para ele.

    Para o brilho azul irregular nos olhos.

    Para o joelho que ele havia pousado no chão e que ainda não havia levantado completamente.

    O salto custou.

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