Capítulo 143 - "Contra Ataque - I "
O gelo avançou pela sala em linhas rápidas. Congelando livros, mapas e o pequeno recipiente de carvão no exato instante em que a memória ameaçava se romper.
A mana cinza do Andarilho recuou pela primeira vez.
Não por escolha.
A pressão que tomava toda a estrutura da lembrança foi empurrada para trás como fumaça esmagada por uma avalanche.
Maelis ficou imóvel, a mão ainda estendida para a pequena chama congelada no ar.
A voz que ecoou pela memória não vinha do mentor.
Nem da versão jovem dela.
Vinha de trás.
Calma.
Conhecida.
— Você segurou bem até aqui. Agora deixa comigo.
Maelis virou no mesmo instante.
A figura de Ian estava parada entre ela e a distorção cinza da presença invasora, como se fosse feito de neve.
O sobretudo branco marcado por pedaços de gelo nas bordas.
A espada apoiada ao lado do corpo.
Os olhos fixos à frente.
A temperatura da sala despencou.
O mentor dentro da memória permanecia congelado no tempo, preso no instante da aula.
A pequena chama suspensa entre gelo e fogo.
Maelis soltou o ar de uma vez, quase falhando.
— Ian…
A palavra saiu baixa demais. carregando o alívio na voz.
A presença cinza se adensou do outro lado do cômodo.
Sua forma agora oscilando entre a figura de Ian e a de Maelis
A voz do Andarilho veio mais baixa do que antes.
Cuidadosa.
— Interessante.
O gelo nas paredes estalou.
Ian não desviou os olhos.
— Maelis, escuta com atenção.
Ela o encarou.
A urgência na voz dele eliminou qualquer impulso emocional.
— Cede sua posição para mim.
O coração dela apertou.
— O quê?
Ian finalmente virou um pouco o rosto.
Os olhos encontraram os dela.
— Deixa minha mente entrar.
A mão dele se ergueu devagar, o gelo se expandindo em círculos ao redor dos dois.
— Se você continuar aqui, ele vai continuar arrancando você pedaço por pedaço.
A respiração dela veio curta.
— E você?
O canto da boca dele se moveu num quase sorriso sem humor.
— Eu sei me defender.
A frase foi seca.
Confiante de um jeito que não parecia arrogância.
Maelis olhou ao redor.
A memória do mentor.
A chama congelada.
A sensação brutal do que quase havia perdido.
Ela sabia que ele estava certo.
Mesmo assim, a ideia de empurrá-lo para o centro do ataque fez o peito apertar.
— Ian… ele está destruindo tudo.
— Eu sei.
A resposta veio imediata.
— E é por isso que agora vai se briga de gente grande.
A pressão do Andarilho voltou a crescer ao redor da memória.
Impaciente.
Tentando recuperar espaço.
Ian deu um passo à frente.
— Confia em mim.
Maelis fechou os olhos por um segundo.
Respirou fundo.
Então assentiu.
— Certo.
A transferência aconteceu no mesmo instante.
A consciência dela recuou como se fosse puxada por um fluxo reverso.
O chão desapareceu.
As estantes sumiram.
O mentor congelado ficou para trás.
Tudo foi ficando distante enquanto a presença de Ian se expandia no lugar dela, ocupando o centro da defesa mental.
A última coisa que Maelis sentiu antes de ser empurrada para a camada externa foi a mana fria dele se fechando ao redor como muralhas de gelo.
O vazio se reorganizou.
A sensação era diferente.
Mais agressiva.
Mais vasta.
A consciência de Maelis agora pairava numa camada acima, observando sem realmente participar.
Abaixo dela, Ian já havia assumido o centro do confronto.
A presença do Andarilho se recompôs à frente dele.
Desta vez, mais densa.
Mais nítida.
A fumaça cinza se enrolou lentamente até formar um contorno humanoide imperfeito, como se a própria mente estivesse tentando dar rosto à ameaça.
Quando a voz veio, havia algo novo nela.
Um prazer quase cirúrgico.
— Ah…
A fumaça girou ao redor de Ian em órbitas preguiçosas, como um predador avaliando o tamanho da presa.
— Então era isso que estava escondido atrás dela.
A presença cinza se aproximou mais.
Sem pressa.
— No fim… eu realmente tive sorte.
A pressão aumentou ao redor da neve ainda se formando nas bordas da camada.
— Posso ir finalmente para o prato principal.
A fumaça pulsou em expectativa.
— Diga-me, Guardião…
A voz desceu um tom.
Mais afiada.
— Quantas partes de você eu preciso arrancar até encontrar o que realmente sustenta esse monstro?
Ian permaneceu imóvel.
O rosto quase sem expressão.
Só então respondeu, com a ironia fria que combina com ele:
— Você realmente acha que dá conta?
A fumaça cinza oscilou por um instante.
— Que coisa curiosa de se dizer.
A voz saiu quase divertida.
— Você fala como se eu tivesse entrado em uma armadilha.
Ian ergueu a mão.
O vazio começou a congelar.
Uma fissura de gelo atravessou a camada inteira.
— Você só ainda não percebeu onde está pisando.
O ambiente tremulou e a nova memória nasceu.
A fissura de gelo atravessou o vazio inteiro.
O som foi seco.
Profundo.
Como uma montanha partindo no meio.
No instante seguinte, a camada mental colapsou ao redor dos dois.
O frio veio antes da forma.
Uma rajada brutal de vento branco atravessou a consciência do Andarilho, arrancando a fumaça cinza do lugar como se quisesse dispersá-la à força.
Depois o chão surgiu.
Neve compactada.
Dura.
Coberta por camadas de gelo antigo rachado.
O horizonte se abriu em uma vastidão.
Nenhum fim a vista.
Nenhum ponto de referência imediato.
Só planícies brancas ondulando até desaparecerem sob uma cortina de neve constante.
Ao longe, muralhas de montanhas negras se erguiam como dentes contra o céu cinzento.
A cadeia mais ao norte do continente.
O limite onde a vida quase não existia.
O vento não soprava forte.
Ele cortava.
Cada rajada vinha carregada por partículas finas de gelo que raspavam a pele como areia afiada.
A própria memória parecia querer expulsar qualquer presença estranha.
A fumaça cinza do Andarilho se recompôs alguns metros adiante, ondulando acima da neve.
A presença dele começou a se espalhar pelo solo.
Linhas finas de mana cinza avançando por baixo da neve.
Buscando padrões.
Âncoras.
Estruturas.
Alguma lógica emocional que pudesse ser usada.
Mas o cenário recusava respostas.
A neve apagava marcas assim que surgiam.
O vento mudava a superfície a cada segundo.
Pequenas elevações desapareciam.
Novas rachaduras surgiam no gelo.
Tudo se movia o tempo inteiro.
Nada permanecia tempo suficiente para ser interpretado como ponto de apoio.
Ian estava parado alguns metros atrás.
Imóvel no meio da tempestade.
O manto branco se confundia com o próprio cenário.
— Ficou perdido? — A voz de Ian vibrou pela memoria.
A fumaça cinza se contraiu um pouco.
Ainda analisando.
— Toda memória tem estrutura.
A resposta do Andarilho veio precisa.
Ainda sem perder a confiança.
— Toda mente precisa de pontos de sustentação.
Ian deixou escapar um sopro curto pelo nariz.
Quase um riso.
— Normalmente sim… boa sorte procurando.
O silêncio que seguiu foi quebrado por uma rajada ainda mais forte.
Ao longe, uma das encostas da montanha cedeu.
Uma avalanche desceu em massa branca por um vale distante, engolindo pedras negras e placas inteiras de gelo.
A fumaça do Andarilho avançou em outra direção.
Subindo por uma crista de neve.
Descendo por rachaduras no gelo.
Tentando ler a topografia.
Tentando encontrar qualquer repetição.
Mas havia uma ausência inquietante ali. Parecia que o próprio Guardião da memória não sabia para onde estava indo.
Só o frio.
Vento.
Silêncio.
Ian observou o movimento dele por um instante.
Enquanto a tempestade branca engolia a presença do Andarilho no horizonte, Ian fechou os olhos por um instante.
Maelis sentiu a aproximação antes de vê-lo.
O vazio onde a consciência dela pairava começou a esfriar, não de forma agressiva. Quase como reconhecimento.
A silhueta de Ian surgiu à frente dela como reflexo em gelo escuro. Não era o corpo real. Era a projeção da consciência dele entre as camadas, e mesmo assim ela sentiu o peso que ele carregava nela.
Maelis deu um passo à frente.
— Ian.
O nome saiu carregado por alívio.
Ele não respondeu imediatamente. Os olhos dele varreram o espaço ao redor dela, as bordas irregulares onde as memórias haviam sido arrancadas, os espaços em branco que não deveriam existir. Ela viu o momento exato em que ele processou o estrago.
A expressão dele não mudou.
Mas alguma coisa nos ombros dele mudou.
— Eu prendi ele em uma memória.
A voz era firme.
Ao redor deles, o vazio pulsou em círculos concêntricos, e Ian ergueu a mão. As camadas se desenharam no ar discos translúcidos de gelo, cada um em sua cor.
— Antes, ele estava no centro e você exposta na camada externa. — A camada interna brilhou em cinza. A externa em vermelho. — Isso dava a ele liberdade para romper cada memória sua em sequência.
Maelis fixou os olhos na estrutura.
Entendendo. E tirar o sentimento do quanto havia perdido enquanto estava sozinha ali.
— Então ele precisa passar por você antes de me alcançar.
— Sim.
Ian não acrescentou nada. Mas o disco azul do meio pulsou entre os dois como uma promessa que chegou tarde demais para algumas coisas e ainda a tempo para outras.
— Mas isso é só a contenção. — A voz dele endureceu. — Eu vou inverter a posição dele. Quando ele sair da camada central, paramos de defender e começamos a revidar.
Maelis soltou o ar devagar.
Pela primeira vez desde o início do ataque, a sensação não era de estar sendo empurrada contra um precipício. Ela ergueu os olhos para Ian.
— Você planejou isso em segundos?
— Não. — Uma pausa. — Eu já precisei sobreviver a coisas parecidas.
…
A raiva veio antes que ela pudesse decidir se queria deixar.
— Ian. — A voz dela saiu mais baixa agora. Diferente do alívio de antes. — Ele estava aqui enquanto eu tentava segurar o que sobrou. O rosto do meu pai. O rosto dele. — Ela não terminou a frase. Não precisava.
Ian não desviou o olhar.
— Sim, vou cuidar dele.
Só isso. Sem explicação imediata que transformasse a escolha em algo mais palatável.
O silêncio entre eles durou o tempo que durou.
— …Eu sei destruir memórias também. — A voz dela saiu mais fria do que ela pretendia. — Posso ser útil atacando ele.
Alguma coisa no rosto dele, quase imperceptível, cedeu um milímetro.
— Eu sei. — Ele deu um passo mais perto. — Por isso preciso que você faça exatamente o oposto do que fez até agora.
Maelis travou o olhar nele.
— O quê?
— Em breve eu vou dominar a âncora dessa memória.
O disco azul pulsou.
— Quando isso acontecer, a camada dele e a minha vão inverter de posição.
Ian apontou para o núcleo cinza.
— No instante da troca, eu vou abrir uma memória sua.
Os olhos frios encontraram os dela.
— Você entra, domina e troca de posição comigo, assim ele vai parar na camada externa e só vai poder se defender.
A frase veio firme.
— Organize suas memórias centrais.
Ele apontou para a camada inferior.
— Você vai para ali.
Maelis absorveu aquilo em silêncio.
Era simples.
Mas brutalmente eficiente.
Ela havia passado o combate inteiro reagindo.
Ian estava ensinando ela como se defender.
— Entendi.
Ian assentiu.
O vazio abaixo deles voltou a estremecer.
Mais forte dessa vez.
O Andarilho estava se aproximando de alguma borda importante.
Ian começou a desfazer a projeção.
O corpo se transformando em névoa gelada.
Antes de desaparecer por completo, ele deixou a última instrução:
— Quando eu dominar a memoria, esteja pronta.
Maelis franziu o cenho.
— Tem certeza?
A resposta veio já distante.
Como vento atravessando gelo.
— Ele já está preso. Só não percebeu ainda.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.